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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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O CORONAVÍRUS, O HUMANISMO E A GANÂNCIA

2020-03-23

Alexandre Weffort

Bill Gates, multimilionário dono da Microsoft, formulou em 2015 uma pergunta: “estamos preparados para uma pandemia de gripe?” A questão colocada levou à criação do “Índice de Segurança Global da Saúde” (GHS). Gates, já em 2015, previa as duas possibilidades em discussão acerca da origem desta (futura) pandemia: causas naturais ou bioterrorismo. O índice GHS, publicado em 2019, antecedendo em pouco o surgimento do COVID-19, falhou contudo na antecipação do grau de competência que cada nação hoje demonstra possuir perante a crise do coronavírus.

Deixemos por agora de parte a questão acerca da origem do vírus (se natural, se manipulada), do modo como se deu o seu surgimento em Dezembro de 2019 em Wuhan, na China, e da correlação ainda não explicada com eventos críticos envolvendo laboratórios norte-americanos (falhas de segurança, manipulação de elementos patógenos, entre eles do vírus da “gripe espanhola” de 1918), bem como a presença de militares norte-americanos nos Jogos Militares Mundiais realizados em Outubro de 2019, em Wuhan, semanas antes de eclodir da crise em que nos encontramos.

GHS Index

O estudo norte-americano intitulado “Global Health Security (GHS) Index”, realizado conjuntamente pelo “Nuclear Threat Initiative (NTI)”, o “Center for Health Security (JHU) of the John Hopkins Bloomberg School of Public Health” e o “Economist Intelligence Unit (EIU”, sob o patrocínio de entidades norte-americanas - a Open Philanthropy Project, a Bill & Melinda Gates Foundation e a Robertson Foundation -foi publicado em Outubro de 2019 tendo como questão central conhecer a capacidade de resposta global a uma crise como a que hoje vivemos - a da pandemia do COVID-19.

Propomos confrontar os dados e conclusões desse estudo com a realidade objectiva - o modo como os diversos países têm reagido até à data à pandemia e ao impacto real do COVID-19 - contrastando os exemplos de quatro países (Estados Unidos, Italia, China e Cuba).

A elaboração do GHS seguiu seis critérios, como se pode ler na apresentação da documentação divulgada:

DETECÇÃO E RELATÓRIOS: Apenas 19% dos países recebem as melhores notas por detecção e comunicação.  

RESPOSTA RÁPIDA: Menos de 5% dos países são classificados no nível mais alto pela sua capacidade para responder rapidamente e mitigar a propagação de uma epidemia.  

SISTEMA DE SAÚDE: A pontuação média para os indicadores do sistema de saúde é 26,4 em 100, tornando-a a categoria de pontuação mais baixa.  

CUMPRIMENTO DAS NORMAS INTERNACIONAIS: Menos da metade dos países apresentou Medidas de Fortalecimento da Confiança nos termos da Convenção sobre Armas Biológicas (BWC) nos últimos três anos, uma indicação da sua capacidade de aderir a importantes normas e compromissos internacionais relacionados com ameaças biológicas.  

AMBIENTE DE RISCO: Apenas 23% dos países pontuam no nível superior para indicadores relacionados com o seu sistema político e eficácia do governo. 

PREVENÇÃO: Menos de 7% dos países pontuam no nível mais alto quanto à capacidade de impedir o surgimento ou libertação de patógenos. E, como conclusões gerais, foi elaborado um ranking onde os Estados Unidos aparecem com a melhor cotação, embora se conclua que “A segurança nacional da saúde é fundamentalmente fraca em todo o mundo. Nenhum país está totalmente preparado para epidemias ou pandemias e todos os países têm lacunas importantes para resolver. A pontuação média geral do Índice Global de Segurança em Saúde totaliza 40,2 de uma pontuação possível de 100; 116 países com elevado rendimento médio não pontuam acima de 50”. 

Indica ainda o relatório que:

“81% dos países pontuam no nível inferior para indicadores relacionados com riscos deliberados (biosecurity); 66% pontuam no nível inferior para indicadores relacionados com riscos acidentais (biosafety); menos de 5% dos países supervisionam pesquisa de uso duplo; nenhum país possui legislação ou regulamentação que exija que as empresas examinem a síntese de ADN; 92% dos países não mostram evidências de exigir verificações de segurança para pessoas com acesso a materiais ou toxinas biológicas perigosas”, afirmando que “p.18: Os países não estão preparados para um evento biológico globalmente catastrófico, incluindo aqueles que podem ser causados pela propagação internacional de um patógeno novo ou emergente ou pela libertação deliberada ou acidental de um agente ou organismo perigoso ou manipulado. Biossegurança [biosecurity] e risco biológico [biosafety] são áreas sub-priorizadas de segurança em saúde, e as conexões entre os actores do sector de saúde e a segurança na resposta a surtos são fracas”.

Incongruências com a realidade 

Cruzando dados disponíveis (em baixo, no final deste texto), constatamos haver uma incongruência relevante: ou a realidade está errada ou os parâmetros seguidos não alcançam a realidade. O que acontece naturalmente, diríamos, uma vez que os Estados Unidos surgem como o paradigma da nação melhor organizada e preparada num estudo promovido por entidades norte-americanas. A dúvida instala-se: as conclusões do estudo são convictas ou propaganda? A segunda hipótese insinua-se mas a primeira tem uma causa provável: o viés ideológico! Países capitalistas e países socialistas não se medem pela mesma bitola.

Em 2015, Bill Gates fez uma palestra na qual defendeu a necessidade de maior preparação da comunidade internacional para enfrentar crises pandémicas, dizendo que o vírus da gripe é hoje mais preocupante que o desastre nuclear (lembrando os barris de suprimentos em conservas e água que os norte-americanos compravam para, em caso de um ataque nuclear, se resguardarem nas caves das suas residências). Para Gates, o perigo está “não em mísseis, mas em micróbios”. Verdade parcial, pois convivemos com os dois perigos, não esquecendo que a NATO se propõe manter, mesmo com a pandemia, os exercícios militares Defender Europe 20 e que os bombardeiros nucleares B-2 Spirit norte-americanos estacionaram a 9 de Março na base das Lages, nos Açores.

Segundo Gates dizia em 2015, da próxima vez “pode ser um vírus em que as pessoas se sentem tão bem, mesmo contagiosas, que entram em aviões ou vão a supermercados. A fonte do vírus pode ser natural (...) ou pode ser bioterrorismo”.

Gates foi premonitório, fazendo referência à “gripe espanhola de 1918”. Mas, encurtando caminho, retivemos uma ideia de Gates: aponta uma falha global na capacidade de resposta a situações de saúde como a que hoje nos encontramos e propõe a criação de um sistema englobando milhares de especialistas para ir onde os casos surjam e, neste sistema, atribuir aos militares a coordenação e logística visto a situação poder adquirir a feição de uma guerra. Diz Gates: “Precisamos de sistemas de saúde fortes em países pobres (...) onde possamos ver o surto muito cedo (...) corpos médicos de reserva: muitas pessoas com formação e experiência que estejam dispostas a ir”. Diríamos mesmo que Gates deveria estar a olhar para o exemplo de Cuba! Mas depois Gates acrescenta: “Precisamos de juntar esses médicos com os militares...”. No caso de militares norte-americanos temos as nossas dúvidas da medida proposta, dadas as correlações sobejamente apontadas entre aqueles e a manipulação e difusão de agentes patógenos e casos historicamente conhecidos, promovendo autêntico bioterrorismo de Estado.

As preocupações de Bill Gates (mesmo com a aparente ingenuidade filantrópica com que se expressa, num discurso aligeirado para atender à plateia) merecem atenção. A realidade do novo coronavírus e do COVID-19 comprovam-no. Mas parte das conclusões a que, quatro anos depois, chegará com o índice GHS atrás referido não se confirmam. São, aliás, a negação da realidade: a China, seriada naquele estudo em 51.º lugar, teve formidável sucesso na sua abordagem ao coronavírus, trazendo, nas palavras do director da Organização Mundial de Saúde (OMS), “a esperança ao Mundo”.

“Cada sistema sua sentença”

O índice GHS, aparentemente, não conseguiu prever com suficiente acuidade a capacidade dos países para enfrentar a pandemia de COVID-19 desencadeada após o novo coronavírus atingir um desenvolvimento exponencial fora da China, país em que foi detectado pela primeira vez. 

No momento em que se escrevem estas linhas os Estados Unidos passaram da atitude negacionista e de convencimento de que o país seria pouco atingido para o terceiro lugar no índice de países mais atingidos, logo atrás da Itália (que já havia chegado ao ponto de ruptura do sistema de saúde). 

Os Estados Unidos acabaram mesmo por determinar a entrada do seu exército na cidade de Nova York. Com os dois primeiros casos noticiados de contaminação no Pentágono, a manutenção dos exercícios militares Europe Defender 20 começa a ser questionada, surgindo rumores de que seria cancelada (ou significativamente limitada) a participação norte-americana, havendo já países integrantes da NATO a cancelar as manobras nos seus territórios, pelo que aqueles que deveriam ser os maiores exercícios militares em 25 anos na Europa terão, por força do coronavírus, a sua dimensão substancialmente reduzida.

O militarismo norte-americano e o apoio concreto de Cuba e China a Itália

Enquanto a postura militarista marca o modo de agir norte-americano, na região da Lombardia, em Itália, uma brigada de médicos cubanos inicia uma missão de assistência a pedido das autoridades italianas. Da mesma forma a China correspondeu ao pedido de ajuda italiano enviando material e equipas médicas.

A diferença de postura é flagrante. Países supostamente menos preparados (segundo o índice GHS) estão a apoiar nações mais cotadas e mais ricas (Cuba proporciona o apoio médico continuando a sofrer o embargo norte-americano). No sentido oposto, Trump será notícia pela iniciativa de pretender, agressivamente, garantir para os Estados Unidos o monopólio de uma vacina para o COVID-19 que está em desenvolvimento na Alemanha. 

A ganância capitalista contrasta assim com o humanismo que caracteriza a postura de Cuba e China, países socialistas. É na dinâmica social específica destes países, na interligação entre as várias esferas da vida social que se realiza, através da acção do Estado e das suas estruturas dirigentes, nomeadamente dos partidos comunistas de cada um desses países, o esforço de combate ao novo coronavírus envolvendo toda a sociedade. Esse dado, cremos, não foi considerado no estudo promovido por Bill Gates, conduzindo a previsões pouco consistentes.

Variáveis desconhecidas ou não consideradas

Muitas variáveis condicionam a leitura dos números que vão surgindo nos meios de informação: a demografia, os níveis etários, os níveis socioeconómicos e os hábitos culturais e de consumo, a disciplina social e a qualidade dos sistemas de saúde pública. Uma das variáveis mais importantes será a da lucidez dos decisores políticos. E, neste âmbito, os Estados Unidos ficam muitos pontos atrás, pelo negacionismo de Trump e a sua falta de visão, só superada no Brasil pela patética inabilidade de Bolsonaro (retratada para a posteridade no grotesco episódio da máscara).

Como se pode observar nos números referentes apenas ao último fim-de-semana, os EUA e a Itália registaram um aumento exponencial de casos, ultrapassando juntos os da China, que é o país mais populoso do planeta e que conseguiu dominar a situação recorrendo à estratégia da “supressão” momentânea dos contactos sociais, regressando lentamente à normalidade, contando com o apoio de Cuba, pequena nação caribenha, pobre mas possuidora de um dos melhores serviços de saúde pública do Mundo; além disso, pioneira na investigação médica e criadora de medicamentos que ajudaram a que a mortalidade pelo COVID-19 registada na China fosse significativamente mais baixa do que a que já hoje é apresentada pela Europa.

A variável desconsiderada por Gates e aqueles que elaboraram o índice GHS foi, em relação aos países socialistas, o humanismo que norteia a sua política; e, em relação aos países capitalistas, a ganância financista que os norteia, dando sempre mais importância aos números que aos seres humanos.


ESTATÍSTICAS REVELADORAS

Os resultados apurados pelo GHS em relação a cada país apresentam a seguinte distribuição (além dos 4 países seleccionados, incluímos para perspectivar o leitor, números relativos a Portugal e ao Brasil).

SERIAÇÃO GLOBAL do Índice GHS: 1.º EUA; 31.º Itália; 51.º China; 110.° Cuba // 20.° Portugal; 22.º Brasil

PREVENÇÃO DE EMERGÊNCIA OU LIBERTAÇÃO DE PATÓGENOS: 1.º EUA; 45.º Itália; 50.° China; 66.º Cuba // 16.º Brasil; 33.º Portugal

DETECÇÃO INICIAL E RELATÓRIOS DE EPIDEMIA DE POTENCIAL INTERNACIONAL: 1.º EUA; 16.º Itália; 44.º China; 147.º, Cuba // 12.º Brasil; 61.º Portugal

RESPOSTA RÁPIDA E MITIGAÇÃO DA DIFUSÃO DE UM EPIDEMIA: 2.º EUA; 47.º China; 51.º Itália; 149.º Cuba // 8.º Portugal; 9.º Brasil

SISTEMA DE SAÚDE SUFICIENTE E ROBUSTO PARA TRATAR OS DOENTES E PROTEGER OS TRABALHADORES DA SAÚDE:  1.º EUA; 30.° China; 52.º Cuba; 54.º Itália // 17.º Portugal; 33.º Brasil

COMPROMISSOS PARA MELHORAR A CAPACIDADE NACIONAL, FINANCIAMENTO E ADESÃO A NORMAS: 1.º EUA; 29.º Itália; 84.º Cuba; 141.º China // 26.º Portugal; 135.º Brasil

AMBIENTE GERAL DE RISCOS E VULNERABILIDADE  DO PAÍS EM AMEAÇAS BIOLÓGICAS: 19.º EUA; 55.º Itália; 58.º China; 82.º Cuba // 32.º Portugal; 94.º Brasil

Coligindo alguns dados sobre o impacto do COVID-19 no fim-de-semana de 21 e 22 de Março: 

EUA - população: 328,240 milhões de hab.

Dia 21: 24148 casos, 285 mortos, 171 recuperados

Dia 22: 33276 casos, 417 mortos, 178 recuperados

Italia - população: 60,660 milhões de hab.

Dia 21: 53578 casos, 4825 mortos, 6072 recuperados

Dia 22: 59138 casos, 5476 mortos, 7024 recuperados

China - população: 1400 milhões de hab.

Dia 21: 81304 casos, 3259 mortos, 71855 recuperados

Dia 22: 81407 casos, 3265 mortos, 72361 recuperados

Cuba - população: 11,223 milhões de hab.

Dia 21: 21 casos, 1 morto, 0 recuperados

Dia 22: 35 casos, 1 morto, 0 recuperados

Portugal - população: 10,4 milhões de hab.

Dia 21: 1280 casos, 12 mortos, 5 recuperados

Dia 22: 1600 casos, 14 mortos, 5 recuperados

Brasil - população: 210,2 milhões de hab.

Dia 21: 1021 casos, 15 mortos, 2 recuperados

Dia 22: 1593 casos, 25 mortos, 2 recuperados

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