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URSULA VON DER LEYEN CONFIRMADA POR UM TRIZ

Angela Merkel com a sua protegida e nova presidente da Comissão Europeia

2019-07-16

José Goulão; com Pilar Camacho, Estrasburgo

Salvou-se por nove votos. A ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, tornou-se presidente da Comissão Europeia mas os membros do Parlamento Europeu limitaram-se a confirmar por nove votos a escolha feita antecipadamente pelos eurocratas da União. Na realidade, o bloco federalista estilhaçou-se e garantiu à direitista alemã apenas 383 votos dos 747 membros em exercício do Parlamento, o que significa a deserção de 86 membros da maioria institucional que a designou: extrema-direita dos Conservadores e Reformistas (ECR), direita e extrema-direita do Partido Popular Europeu (PPE), neoliberais assumidos (Europa Renovada) e Socialistas & Democratas. 

Embora o cargo de presidente da Comissão Europeia não seja regido por padrões democráticos – trata-se de um órgão autocrata por definição – Ursula von der Leyen parte fragilizada, mesmo para os jogos de bastidores em que as funções são exercidas, uma vez que o seu nome saiu de segundas escolhas e está longe, agora, de fazer o pleno das correntes que o impuseram. Os seus 383 votos ficam até bastante aquém dos 424 votos obtidos pelo já de si pouco convincente Jean-Claude Juncker quando se apresentou no início da anterior legislatura.

“Agenda progressista” gerida à direita

Apesar de ter proferido discursos flutuantes consoante os grupos de deputados com os quais se avistou antes da votação parlamentar, a ministra alemã da Defesa não foi poupada às acusações de “não ter ideias” e “não ter programa” feitas por membros de correntes que institucionalmente a sustentam.

Uma das provas confirmando que a designação de von der Leyen como presidente da Comissão não tem qualquer coerência política e democrática foi feita pelo primeiro-ministro de Portugal pouco depois da votação no Parlamento Europeu. António Costa “espera” que a protegida de Angela Merkel “cumpra a agenda progressista da União Europeia”. Ora não pode esperar-se que uma política de extrema-direita cumpra uma “agenda progressista”, coisa que, por outro lado, não existe porque está em contradição com as práticas e objectivos da União Europeia. A frase do chefe do governo português é tão consistente como a harmonia que existe entre o discurso e a prática da União.

Por estas palavras presume-se que os eurodeputados socialistas portugueses estiveram entre os que cumpriram a matriz institucional de confirmar a designação de von der Leyen.

Algo que deve ser lido no âmbito de uma convergência do “socialismo ibérico” para que se cumpra a escolha dos eurocratas: von de Leyen como presidente da Comissão e Josep Borrel, um membro do PSOE, como alto representante da Política Externa e de Segurança da União Europeia.

Dos 153 membros do S&D calcula-se que 44 (quase um terço) não estiveram de acordo com os “ibéricos” e rejeitaram a presidente da Comissão. Entre eles aqueles que a melhor a conhecem, os sociais-democratas alemães. Aliás também eurodeputados alemães do grupo neoliberal (Europa Renovada) foram dos que se distanciaram da sua compatriota. Como tanta dissidência alemã não deve relacionar-se com questões de fundo políticas, talvez os que melhor conhecem as práticas de von der Leyen estejam efectivamente a por em causa a sua competência e até comportamentos éticos. Não é novidade na Alemanha que, sob o consulado da ministra da Defesa cessante, nunca os investimentos recentes nas forças armadas foram tão avultados e também nunca o aparelho militar foi considerado tão disfuncional.

Cambalhota polaca

Para os nove votos que confirmaram a escolha de von der Leyen contribuíram de maneira decisiva, contra o que chegou a estar previsto, os europeputados do ECR que pertencem ao parafascista Partido do Direito e da Justiça (PiS) que governa a Polónia.

Feitas as contas comprova-se que foram exactamente estes votos polacos de extrema-direita que compensaram, à justa, as fugas dentro da “almofada institucional” de 469 eurodeputados que à partida, por ordem das chefias, deveriam garantir a escolha da ministra alemã da Defesa. Houve, de facto, dissidências no PPE, nos neoliberais assumidos, nos socialistas e no ECR – que não foram neste caso, e contra o que se previa, dos polacos. E os Verdes já tinham previamente anunciado a rejeição.

Estes têm lutado arduamente para fazer eleger a sua ex-primeira ministra, Beata Szydlo, como presidente da Comissão Parlamentar de Emprego, mas já foram derrotados em duas tentativas. Não há ainda conhecimento de qualquer acordo de bastidores: no entanto, se Beata Szydlo vier a conseguir o lugar fica a conhecer-se a razão pela qual os deputados polacos do PiS mudaram de posição em cima da hora de votar.

O que fica para a história é o facto de a nova presidente da Comissão Europeia ser a direitista alemã Ursula von der Leyen, uma convicta apoiante da política agressiva da NATO, uma seguidora fervorosa das políticas de Washington com incidência na União Europeia.

Diz-se que a sua escolha foi recomendada por Washington, portanto pela administração Trump, e não, por certo, para cumprir qualquer imaginária “agenda progressista da União Europeia”. Coisa que não tardará a confirmar-se. 


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