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SANÇÕES ECONÓMICAS VIRAM-SE CONTRA A UNIÃO EUROPEIA

2019-11-24

As sanções económicas impostas pela União Europeia a reboque dos Estados Unidos, por exemplo contra a Rússia, estão a virar-se contra os Estados membros e acarretam perdas de dezenas de milhares de milhões de euros, de acordo com vários estudos realizados sobre o assunto. A armadilha é ainda mais perversa porque, de acordo com as mesmas fontes, os Estados Unidos não forçam as suas empresas a vincular-se a muitas das sanções, provocando uma evidente viciação da concorrência. Bruxelas marca golos na própria baliza para se submeter a Washington: a economia da União é atingida de vários lados e os resultados estão à vista.

Ron Henry, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

Se o leitor pensar um pouco na profusão de guerras comerciais em curso será levado a crer que, afinal, não se trata de qualquer coisa de novo porque têm sido usadas, ao longo dos tempos, contra os governos que outras potências pretendem minar. Porém, de maneira não muito diferente do que acontece nas guerras convencionais, também as guerras comerciais são estratégias que podem dar resultados totalmente inesperados. Além disso, eventuais medidas que o governo atacado pode tomar são susceptíveis de levar à queda do agressor. Por exemplo, a publicação The National Interest revelou recentemente que, em alguns casos, as chamadas “sanções” podem funcionar como os tiros que saem pela culatra já que Washington, com estas acções agressivas, tem facilitado o estabelecimento de uma coligação de Estados favoráveis à multipolaridade.

Sanções reais com falsos motivos

Existem, de facto, duas únicas maneiras de sair de uma guerra comercial. Se as potências concorrentes assumiram que infligiram danos económicos suficientes umas às outras, podem comprometer-se num qualquer tipo de acordo. Outra saída de uma guerra comercial é o conflito armado directo. Um destes casos aconteceu quando o Celeste Império tentou combater os comerciantes britânicos que vendiam ópio à sua população. Registaram-se, de facto, vários conflitos que se estenderam durante seis anos e que ficaram conhecidos como as Guerras do Ópio.

Muito mais recentemente, os Estados Unidos e os seus aliados decretaram sanções contra a Rússia em 2014, quando se recusaram a reconhecer a reintegração da Crimeia, uma região tradicionalmente russa, no território do país – o que aconteceu através de um referendo popular que deu resultados esmagadores nesse sentido. As sanções foram seguidas por uma nova rodada de restrições comerciais, introduzidas após o polémico caso Skripal, uma história muito mal contada que ainda hoje continua por esclarecer – e nunca o será. Segundo a narrativa oficial, um ex-espião russo teria sido supostamente envenenado no Reino Unido, facto pelo qual as agências de inteligência ocidentais responsabilizaram Moscovo sem apresentarem uma única prova. Finalmente houve ainda as alegações fabricadas segundo as quais a Rússia se teria intrometido nas eleições norte-americanas vencidas por Donald Trump, argumentos refutados pelo chamado “relatório Muller” e cuja investigação se estendeu por dois anos.

A Rússia reagiu a esta sucessão de circunstâncias tentando demonstrar que nenhuma das acusações era procedente; no caso da Crimeia, apresentou os dados segundo os quais 96% da população da região votou em referendo a favor de abandonar a Ucrânia e juntar-se à Rússia.

Cinco anos depois…

Cinco anos depois, defensores das sanções anti-russas e os que se lhes opuseram desde o início parecem concordar na conclusão de que essas penalizações falharam em produzir resultados visíveis. Na sequência dessa constatação, alguns economistas resolveram analisá-la mais profundamente - e algumas das conclusões são bastante curiosas. 

Logo em 2016, o Centro de Estudos Prospectivos e de Informações Internacionais de França calculou que, entre o início das sanções e Junho de 2015, os Estados que apoiaram as restrições anti-russas perderam cerca de 60200 milhões de dólares de receitas. A grande ironia é o facto de mais de 82% dessas verbas terem resultado de restrições autoinfligidas por esses Estados e não da proibição da importação de produtos agrícolas que a Rússia entretanto decretou como forma de retaliação.

O relator especial da ONU sobre o Impacto Negativo das Medidas Coercivas Unilaterais nos Direitos e Liberdades, Idriss Jazairy, anunciou recentemente que a Rússia conseguiu mitigar o efeito negativo das restrições comerciais através do rápido desenvolvimento das suas próprias bases de produção. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, por seu lado, afirmou que a Europa já perdeu cerca de 100 mil milhões de dólares com o regime de sanções, o que é o dobro do volume dos danos económicos infligidos à Rússia. Os danos económicos gerais provocados pelos países que se envolveram numa guerra comercial com Moscovo são da ordem dos 3200 milhões de dólares por mês.

Recentemente, o jornal alemão Handelsblatt comentou as conclusões de um estudo conjunto realizado por cientistas da Universidade de Lingnan de Hong Kong e do Instituto Kiel sobre a economia mundial, que chegou a várias conclusões intrigantes. Acontece que os Estados que introduzem sanções sofrem quase tantos danos económicos como os alvos que pretendem atingir.

Quatro mil milhões por mês

Os cientistas detectaram, designadamente, que o volume total de negócios entre os Estados participantes nas guerras comerciais que envolvem sanções diminui quatro mil milhões de dólares por mês. No entanto, 1800 milhões, isto é, 45% do total, são suportados pelos Estados que decretaram sanções contra Moscovo. Como a União Europeia suporta a parte esmagadora desses danos (92%), não é de admitir que a sua economia esteja a desacelerar há anos. A Alemanha é, sem dúvida, a maior vítima dessa guerra de sanções, pois está a perder 667 milhões de dólares por mês; em segundo lugar está a França, país que se confronta com a incapacidade de recuperar das perdas sofridas através da diminuição da sua participação no mercado russo.

O jornal Handelsblatt cita ainda a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) onde foi anunciado que enquanto Washington vigia o comportamento dos seus aliados para tentar que, em momento algum, desafiem o seu regime de sanções imposto a Moscovo, não parece preocupado com as empresas norte-americanas que investem toneladas de dinheiro na Rússia, onde até hoje continuam a ser os maiores frequentadores desse mercado. O valor total norte-americano investido ultrapassa 39 mil milhões de dólares anuais, ficando o portefólio de investimentos da Alemanha muito atrás desse valor. O mesmo jornal destaca que tal facto pode ter repercussões de longo alcance nas relações entre os Estados Unidos e a Alemanha, uma vez que as ligações estreitas deste país com Moscovo já duram há décadas. Do ponto de vista dos Estados Unidos, porém, não há jogo sujo envolvido em todo este processo.

Submissão política

Numa entrevista a jornalistas japoneses, o ministro húngaro dos Negócios Estrangeiros, Peter Siyyarto, afirmou que a Europa Central sofre pesadas perdas com as sanções económicas contra a Rússia.

Na Áustria, na Grécia e na Eslováquia, a maioria das populações considera que o regime de sanções é muito rígido, segundo o Conselho Europeu de Relações Externas.

O diário sueco Aftonbladet manifesta a convicção de que as sanções permitiram à Rússia “reinventar” os seus negócios agrícolas; e o iFinnmark da Noruega afirma que produtos já fabricados na Rússia estão a ocupar agora o nicho de mercado anteriormente preenchido por empresas norueguesas.

O jornal alemão Neues Deutschland afirma que mais de metade dos alemães estão contra o regime de sanções, enquanto o Frankfurter Algemeine Zeitung considera que os Estados Unidos minaram deliberadamente o mercado europeu de energia, arrastando a União Europeia para uma guerra comercial com a Rússia. As vicissitudes que o projecto de gasoduto Nord Stream 2 tem atravessado, com sucessivos obstáculos à conclusão levantados por Washington, é um exemplo palpável dessa política.

Parece, portanto, que um número cada vez maior de sectores políticos chegaram à conclusão de que a aplicação de sanções como ferramenta para impor pressões políticas a outros Estados é completamente inútil neste momento.

Só Bruxelas, no entanto, insiste em caminhar em sentido contrário, fiel seguidora de Washington mesmo que isso acarrete elevados danos aos Estados membros da União Europeia.


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