O Lado Oculto é uma publicação livre e independente. As opiniões manifestadas pelos colaboradores não vinculam os membros do Colectivo Redactorial, entidade que define a linha informativa.

WASHINGTON ENTERRA TRATADO DE DESARMAMENTO

Teste de míssil Pershing 2, a anterior geração de mísseis de médio alcance antes de serem proibidos (Foto Military Times)

2019-07-18

Martha Ladesic, Nova York

No próximo dia 2 de Agosto os Estados Unidos vão formalizar a sua retirada do Tratado INF, que proíbe a instalação de mísseis nucleares de médio alcance, entre 500 e 5500 quilómetros. Trata-se de um pró-forma, uma vez que o Pentágono decidiu há pelo menos um ano e meio violar esse tratado e torná-lo inútil.

Foi em finais de 2017 que os Estados Unidos relançaram o fabrico deste armamento proibido, disponibilizando milhares de milhões de dólares para os gigantes mundiais do fabrico de armas. Trata-se de produzir mísseis que só podem ser instalados em violação do Tratado INF.

O tratado foi assinado em 1987 entre os presidentes dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e da União Soviética, Mikhail Gorbatchov. Proíbe mísseis balísticos e mísseis baseados em terra. A simples iniciativa de encomendar o fabrico de armas deste tipo é contrária ao tratado, pelo que Washington há longos meses que o viola – deitando por terra o argumento segundo o qual se viu forçado a isso porque a Rússia produz armas do mesmo género.

O projecto de fabrico de novos mísseis foi entregue pelo Pentágono aos seguintes gigantes do armamento: Raytheon (536,8 milhões de dólares); Lockheed Martin (267,6 milhões); Boeing (244,7 milhões); Northtrop Grumman (2,7 milhões); a britânica BAE Systems (47,7 milhões); e a francesa Thales (16,2 milhões).

Ameaça à Rússia e também à China

Os Estados Unidos e a NATO têm-se limitado a acusar a Rússia de fabricar mísseis de médio alcance em violação do tratado INF mas não forneceram, até ao momento, qualquer prova conclusiva das suas afirmações.

A Rússia nega a acusação e convidou observadores da NATO a visitarem o território russo, designadamente nas regiões em que a propaganda atlantista coloca o fabrico dos supostos mísseis. Os responsáveis norte-americanos e da aliança rejeitaram o convite, mantendo, ao invés, uma versão que não passa de “uma manobra de diversão” para tentar encobrir as verdadeiras razões do abandono do tratado, segundo um adido militar russo.

Embora as acusações norte-americanas se destinem sobretudo à Rússia, é possível ter a certeza de que o recomeço da produção de mísseis de médio alcance se relaciona igualmente com o objectivo norte-americano de manter a China sob pressão militar.

O general Mark A. Milley, que será o próximo comandante da Junta de Chefes de Estado-maior dos Estados Unidos, declarou em 11 de Julho que a China será o principal adversário de Washington durante os 50 ou 100 próximos anos.

O Pentágono tem vindo a deixar claro que necessita de mísseis de médio alcance para atingir as defesas das cidades costeiras da China, projecto que integra a estratégia Indo-Pacífico que a administração Trump tem vindo a consolidar como resposta às iniciativas comerciais e de desenvolvimento regional tanto da China como da Rússia.

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, voltou a tocar no assunto das violações do Tratado INF durante as últimas horas afirmando à BBC que “temos de estar preparados para um mundo… com mais mísseis russos”.

Segundo Stoltenberg, a NATO exige que seja a Rússia a provar até 2 de Agosto que não viola o tratado; se isso não acontecer, Washington retira-se do tratado do qual, de facto, já se retirou há pelo menos ano e meio.

Nova corrida aos armamentos

A cerca de duas semanas do “prazo” dado por quem já mandou fabricar mísseis de médio alcance existe a certeza de que – tal como tem acontecido até agora – nenhum dos argumentos de Moscovo será aceite, como não foram os convites para visitar zonas “suspeitas” em território russo. A NATO continua a escudar-se em “informações de inteligência” para acusar a Rússia – e esse tipo de informações não são verificáveis. Além disso, é totalmente inverosímil que o Pentágono recue numa operação que está em marcha há pelo menos 18 meses e com investimentos muito superiores a mil milhões de dólares. Acresce que, segundo a revista Military Times, os Estados Unidos já previram para este ano os testes com dois tipos dessas novas armas.

O mundo está, deste modo, numa fase de intensificação da corrida aos armamentos. A Rússia tem vindo a anunciar que não deixará de responder à instalação na Europa de mísseis norte-americanos apontados contra território russo. E a resposta transformará essas zonas europeias em alvos de Moscovo.

Mais uma vez os Estados Unidos tornam os europeus reféns das suas estratégias de ameaça e agressão. 


Mais notícias...

Iniciar sessão

Recuperar password

goto top