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“ACORDO DO SÉCULO” IMPÕE A EXTINÇÃO DOS PALESTINIANOS

Regresso dos refugiados, um direito "inalienável" sempre presente em cada palestiniano

2019-06-05

José Goulão

A compra da naturalização dos refugiados palestinianos com muito dinheiro oferecido aos países de acolhimento, mirabolantes trocas de pedaços de territórios continentais e insulares, projectos industriais e tecnológicos de encher o olho e ainda a transferência de populações integram o pacote económico do chamado “Acordo do Século” através do qual Trump e Netanyahu pretendem “resolver” o problema central do Médio Oriente – a questão palestiniana. Em termos práticos, trata-se de erradicar a nacionalidade palestiniana, isto é, os palestinianos. Uma forma de “solução final”.

Embora o falhanço do primeiro-ministro israelita em constituir governo e a convocação de novas eleições em Israel tenham perturbado os planos dos dois aliados, tudo indica que a apresentação da parte económica do “acordo” continue prevista para os próximos dias 25 e 26 de Junho em Manamá, Bahrein.

Direitos “inalienáveis”

O “Acordo do Século” nada tem a ver com o resultado de qualquer negociação; tanto quanto se sabe através de fugas de informação que têm vindo a ser geridas pelos próprios autores, trata-se de um conjunto de medidas a impor a todo o povo palestiniano – dos territórios ocupados e da diáspora – para proceder, de facto, à anexação da Cisjordânia, Jerusalém Leste e Gaza e à “eliminação” do problema dos refugiados. As exigências, que significariam uma rendição total dos palestinianos e uma subversão absoluta de todas as normas internacionais aprovadas sobre a questão israelo-palestiniana, seriam acompanhadas por uma cativante movimentação de muitos milhares de milhões de dólares, além de outros incentivos, designadamente de âmbito territorial.

Todos os grupos palestinianos, sobretudo o chamado “governo autónomo” de Ramallah e o executivo do Hamas em Gaza, rejeitaram desde logo a participação na conferência de Manamá. Mahmmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, reafirmou que os direitos do povo palestiniano são juridicamente “inalienáveis”. Outros países árabes - com excepção segura dos da região do Golfo – parecem seguir a mesma posição, uma vez que é inerente à cultura árabe o facto de ser uma desonra trocar direitos por dinheiro.

Trump e Netanyahu apostam nesta mistura “de bastão e cenoura”, imposição de soluções complementada com a oferta de dinheiro, partindo do princípio de que os palestinianos serão sensíveis às promessas de uma vida melhor e “em paz” depois de 75 anos instabilidade, repressão e desenraizamento.

No entanto, em Israel não parece acreditar-se muito nisso.

“O problema é que os refugiados palestinianos são os símbolos supremos da nacionalidade palestiniana”, escreve o jornal de referência Haaretz. Por isso, acrescenta, “um acordo norte-americano que confunde descaradamente a compra desse símbolo com dinheiro, mesmo que seja muito dinheiro, não pode ser aceitável para os dirigentes palestinianos na Cisjordânia e em Gaza”.

Também a China e a Rússia anunciaram já que não participarão na reunião de Manamá. Moscovo fez saber, no fim de Maio, que as violações do direito internacional são “inadmissíveis”.

Tese: o dinheiro compra tudo

O pacote económico do “acordo” a apresentar em Manamá prevê “resolver” o problema dos refugiados – cujo direito de retorno lhes está garantido pelo direito internacional – através da aquisição da nacionalidade dos países de acolhimento. Para tal, Trump e Netanyahu prevêem recompensar generosamente os países hospedeiros, designadamente Jordânia, Líbano, Síria, Egipto e Iraque. 

Por outro lado, os territórios palestinianos seriam contemplados com investimentos em massa para o respectivo desenvolvimento, controlado por Israel e os Estados Unidos, concretizando-se assim a colonização e consequente anexação. E como Israel não aceita constitucionalmente cidadãos “não-judeus”, aos palestinianos dos territórios restaria conformar-se em ser cidadãos de segunda ou seguir o caminho do exílio, isto é, da aquisição de uma outra nacionalidade.

O dinheiro para este enorme negócio teria origem, segundo as fugas de informação relacionadas com o “acordo”, nas petromonarquias do Golfo, especialmente Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar, em países europeus, nos Estados Unidos e outros “países ricos”.

Além do dinheiro haveria outros incentivos e também pressões político-económicas sobre os elos mais fracos, como é o caso do Líbano e do Egipto. Atingidos por crises económicas avassaladoras, só terão parte das dificuldades resolvidas se aceitarem tudo quanto está previsto no “acordo”.

No Líbano, sobrecarregado com uma dívida soberana de 155% do PIB, vivem mais de meio milhão de refugiados palestinianos numa população de quatro milhões de pessoas; a sua naturalização, que esbarra na própria Constituição do país, poderia abrir a porta a reivindicações de tratamento semelhante por parte dos cerca de um milhão de refugiados sírios. As ondas de choque sobre o pequeno país seriam insustentáveis; porém, no outro prato da balança estão as exigências norte-americanas e israelitas, cujas consequências os libaneses muito bem conhecem historicamente.

Outros dos incentivos com que Washington e Telavive tencionam jogar serão arranjos territoriais, que podem implicar transferências de populações para viabilizar o “Acordo do Século”.

Duas ilhas por um pouco de deserto

A Jordânia é outro dos países alarmados com a hipotética naturalização de um milhão de refugiados palestinianos, mais de 60% da população nacional. 

Para concretizar essa operação – que significaria a passagem à prática da recorrente ideia israelita de que a Jordânia, a “Palestina Oriental”, já é o pretendido Estado Palestiniano – os Estados Unidos oferecem muito dinheiro e uma parcela de território saudita.

Para isso, a monarquia de Riade seria recompensada com as ilhas de Sanafir e Tiran, retiradas ao Egipto.

O Cairo não está em posição de oferecer muita resistência, sobretudo devido à profunda crise económica e à dependência precisamente dos países que estão na base do “acordo”, os do Golfo incluídos. 

Por isso, e em troca de 65 mil milhões de dólares para impulsionar a economia, o Egipto é ainda convidado a abdicar de um território ao longo da costa do Sinai entre Gaza e El-Arish, onde seria recebida parte ou a totalidade da população de Gaza, assim transferida e, eventualmente, logo naturalizada.

Como os sentimentos, interesses e raízes das pessoas e das comunidades não entraram no “Acordo do Século”, presume-se que a transferência se realize à força.

Como recompensa da cedência da “Nova Gaza”, o Egipto receberia de Israel um território com área semelhante situado na zona ocidental do deserto do Neguev.

O jornal Haaretz explica que, ainda como incentivo à receptividade do “acordo”, está previsto o lançamento de grandes empreendimentos industriais e tecnológicos nos países envolvidos, sobretudo na zona egípcia adjacente à faixa de território destinada à população de Gaza. 

Outro dos projectos miríficos seria a construção de um túnel entre o Egipto e a Arábia Saudita, com autorização de Israel e a financiar pelos “países ricos” chamados a dar corpo a esta programada “solução final” do problema palestiniano. 

Depois da aplicação do “Acordo do Século”, dos mais de sete milhões de palestinianos actuais restariam menos de um milhão, emparedados entre muros e colonatos avançando pela Cisjordânia. Aos remanescentes restaria, então, ser cidadãos de segunda sob o domínio de Israel ou exilar-se, ou seja, abdicar da sua nacionalidade - que assim se extinguiria.

Como os palestinianos não estão de acordo com o “acordo” e o direito internacional também não, qual será o passo seguinte de Netanyahu e Trump, neste caso representado pelo genro e conselheiro, o sionista Jared Kushner?





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