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CORRIDA AO OURO ENSOMBRA O REINADO DO DÓLAR

Sem palavras

2018-11-23

Patrick Henningsen, 21st Century Wire/O Lado Oculto

Passou uma década sobre o crash de 2008, que sabemos agora ter sido orquestrado em Wall Street com o envolvimento do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Existem indícios de que as práticas que o desencadearam – bolha imobiliária subprime e outros swaps – estão a ocorrer novamente, só que, desta feita, com maiores e mais difundidas repercussões. Devido a isso, estamos a assistir a significativos desenvolvimentos em busca de protecção contra uma tempestade iminente.

Quando a onda de choque chegar, a maioria das pessoas irá senti-la. Entre as causas possíveis, uma das mais importantes é a excessiva acumulação de dívida internacional nos últimos dez anos, devido a taxas de juros ridiculamente baixas; isto é, os países mantêm dívidas soberanas com dimensão invulgar em papéis fiduciários emitidos nos Estados Unidos (também conhecidos como dólar norte-americano) e que se tornarão muito expostas. À medida que a Reserva Federal (com funções de Banco Central dos Estados Unidos) for tentando combater a situação, a bolha global da dívida poderá tornar-se crítica. Deixará de haver dinheiro barato para refinanciar o velho défice, o que poderá traduzir-se numa crise de liquidez global e, potencialmente, numa crise global de austeridade.

Regresso ao ouro

Alguns países parecem ter a noção da situação, convertendo uma parte significativa das suas reservas de dólares norte-americanos em divisas fortes, como o ouro, mantendo apenas as quantias de moeda dos Estados Unidos necessárias para realizar transacções em mercadorias essenciais cotadas nessa divisa. A China e a Rússia são as nações com maior consciência da importância dessa estratégia e estão a repatriar, discretamente, quantidades recorde de lingotes de ouro.
Lentamente, e talvez de maneira não tão segura, a Europa parece mover-se também nesse sentido. Claudio Grass, conselheiro de uma entidade suíça de consultoria de metais preciosos, revelou que alguns Estados europeus estão a manifestar idêntica tendência para repatriar ouro, o que vem acontecendo há alguns anos, quando ainda não havia Brexit, a questão da Catalunha, Trump, Alternativa para a Alemanha ou as tensões crescentes entre o Politburo de Bruxelas e as nações do Leste da Europa.
Alguns desses países estão a trocar euros por ouro, o que não é uma boa notícia para os tecnocratas de Bruxelas.

O euro não é de confiança

Em termos de robustez e valor intrínseco, o euro nem sempre inspirou confiança. Algumas instituições de investimento consideram-no fraco e apenas sustentado, em parte, pela fé na coesão de um projecto europeu que está a rebentar pelas costuras.
Durante quase duas décadas, os problemas financeiros da União Europeia têm sido sistémicos, desde o colapso das dívidas soberanas até à crise de classificação do crédito do “sul pobre”, que ainda está sob o jugo pós-resgates no formato de medidas de austeridade impostas pelo Banco Central Europeu (BCE). É possível seguir o rasto dos problemas do Sul da Europa mais uma vez até Wall Street – nicho de salteadores que embolsaram, de 2008 até hoje, 29 biliões de dólares (29 mil milhares de milhões) em fundos de resgate.
Portanto, qualquer onda de choque na economia dos Estados Unidos terá repercussões na estabilidade financeira da Europa. O autor e especialista F. William Engdahl explica deste modo a delicada situação existente: “A economia e o governo dos Estados não são tão fortes como se possa pensar; a questão é como substituí-los. A alternativa mais promissora parece ser o eixo China - Rússia – Irão – Eurásia, mas para ter sucesso precisa de isolar muito mais as suas economias em relação ao dólar.

Ditadura de um banco privado

Em termos de tendências, Claudio Grass tem a convicção de que o sistema financeiro global se afasta da centralização. Afirma que “se seguirmos essa tendência torna-se óbvio que o próximo passo deve ser uma divisão ainda maior em unidades menores do que os Estados-nação. Com a decorrente fragmentação geopolítica ocorrerá também a descentralização de poderes”.
Quando Grass fala em “centralização” provavelmente está a referir-se à actual hegemonia financeira global, na qual o dólar dos Estados Unidos é a moeda de reserva no mundo e onde todos os ganhos e perdas relativos são determinados pelo valor e liquidez dessa divisa.
Também Engdahl adverte sobre os perigos da centralização, porque permite a um único banco central, a Reserva Federal (que é um banco privado), determinar o destino de todas as outras economias nacionais do planeta através da sua capacidade de fixar taxas de juros – deixando os bens do resto do mundo à mercê da política monetária dos Estados Unidos.

As finanças e a guerra

Embora a tendência em direcção à descentralização possa proporcionar um grau de libertação financeira a alguns países, também pode ser interpretada como um perturbador sinal anunciando instabilidade. Desconhece-se se isso poderá vir a implicar uma conflagração militar global, mas os sinais são preocupantes.
As atitudes recentes dos Estados Unidos demonstrando claramente a sua vontade de arruinar economias como as do Irão e da Venezuela devem ser interpretadas como prenúncio de uma acção militar. Entretanto, se as nações atingidas não se submeterem às exigências norte-americanas para mudarem os seus regimes, provavelmente formar-se-ão outros focos desafiando as imposições de Washington, o que intensificará a fluidez da relação de poderes. Quando a sobrevivência do(s) Estado(s) se transforma em razão de Estado, nessas condições a guerra pode ser uma realidade. A história está repleta de exemplos disso.
Mesmo que sejam evitados confrontos militares directos, a guerra económica continuará a intensificar-se, gerando maiores incertezas para os investidores e os mercados. Seja como for, esta é uma boa ocasião para investir em barras de ouro como protecção contra qualquer desvalorização futura do dólar.

O previsível colapso do euro

Regressemos a Claudio Grass quando diz que “analistas têm sublinhado o facto de países da União Europeia considerarem o ouro um valor seguro para o caso de regressarem às suas moedas nacionais”.
Ainda de acordo com Grass, apenas um idiota pode acreditar na possibilidade de criar riqueza a partir do nada e usar essa metodologia como base de um sistema sustentável.
“O sistema em que vivemos”, diz Grass, “baseia-se em sete por cento de notas em papel e 93% de unidades digitais apoiadas em simples promessas feitas por bancos centrais de pagarem as dívidas no futuro através da inflação e da tributação”. Lembrou ainda que, no mundo ocidental, os governos forçam as pessoas a desistir de entre 35 e 65% dos seus rendimentos e a distribuí-los por veículos obrigatórios como fundos de pensões, seguros de reformas, impostos e assim por diante.
“Ora se alguém privar uma pessoa de 100% das receitas do seu trabalho, isso é escravatura”, sublinha Claudio Grass. “Portanto”, acrescenta, “ainda existe alguma margem de manobra, mas também não parece uma boa solução”.
Grass lembrou ainda que “com a desintegração acelerada da Zona Euro e os partidos nacionalistas e de extrema-direita surgindo em cada canto, cépticos quanto à União Europeia, é apenas uma questão de tempo até que o euro, a moeda mais artificial de sempre, entre em colapso”.

*Escritor norte-americano e analista de assuntos globais fundador do website independente de notícias e análise 21st Century Wire. Escreveu várias publicações e extensas reportagens sobre as suas deslocações ao Médio Oriente, em especial Iraque e Síria.


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