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ESTADOS UNIDOS E TURQUIA ASSUSTAM O GLOBALISMO CAPITALISTA

2018-08-17

Edward Barnes, Ancara

Não é um arrufo. O confronto entre os Estados Unidos e a Turquia é sério, tem razões objectivas, mas representa sobretudo um sinal das contradições que assolam a NATO como repercussões da crise que fere o capitalismo globalista.

Os Estados Unidos não estão de costas viradas para a Turquia porque se sentem incomodados com a instauração de uma ditadura fundamentalista islâmica e pretendem punir por isso o ditador Recep Tayyp Erdogan, seu aliado em algumas das façanhas belicistas dos últimos anos, por exemplo no Iraque, na Líbia e, principalmente, na Síria.

A Turquia de Erdogan não está em fase de culpar os Estados Unidos por tudo o que de grave acontece ao regime islamita apenas porque é moda zurzir Donald Trump pelo que faz, o que não faz, o que devia fazer e o que poderia pensar fazer.

Não são estas as razões da guerra que tem como episódios mais recentes os ataques do omnipotente “mercado” contra a lira turca e a recusa do Pentágono em vender os modernos e dispendiosos caças F-35 a uma das mais estratégicas forças armadas da NATO.

Causas objectivas

Há várias causas objectivas para o conflito, cada uma com razões próprias – as quais, salvo uma ou outra excepção, não disporiam de combustível suficiente para gerar tanto mau estar.

É verdade que, numa das fases mais recentes da agressão contra a Síria, os Estados Unidos e a Turquia se desentenderam sobre o que fazer aos mercenários do Estado Islâmico, ou Daesh, uma vez derrotados por Damasco, com apoio de Moscovo. Para isso, discutiram o que fazer com as regiões mais setentrionais da Síria, como se fossem coisas suas, e zangaram-se.

O Pentágono faz tudo para concretizar uma entidade curda no território da Síria outrora ocupado pelos terroristas islâmicos enquanto a CIA transfere estes principalmente para o Afeganistão – onde estão encarregados de montar novas frentes de pressão contra a Rússia e a China.

A Turquia rejeitou desde logo a estratégia norte-americana envolvendo comunidades curdas, que Ancara combate onde quer que existam, e opera militarmente contra a instauração da pretendida entidade, inclusivamente dando novo alento a grupos do Daesh. Pelo que vamos encontrar interesses militares turcos e norte-americanos em sectores opostos de um campo de batalha – o que não parece saudável para a NATO.

Também é verdade que a detenção na Turquia do pastor Andrew Brunson e de outros cidadãos com nacionalidade norte-americana, incluindo um cientista da NASA, são acontecimentos incompatíveis com relações bilaterais totalmente desanuviadas.

Do mesmo modo, o acolhimento nos Estados Unidos do dissidente islamita Fethullah Gulen – em tempos um grande parceiro de Erdogan na política, nos negócios e nas confrarias muçulmanas – envenena as relações bilaterais, sobretudo a partir do momento em que o magnata turco foi acusado no golpe falhado de 2016 contra o regime de Ancara.

No entanto, estas situações arrastam-se há dois anos sem suscitar posições extremistas de parte a parte. Porém, a sua conjugação com novos factores dá-lhes outro peso.

É ainda verdade que a questão do Irão não gera sintonia entre Ancara e Washington. A Turquia de Erdogan está empenhada no estabelecimento de um acordo nuclear separado com Teerão, enquanto se esforça por quebrar as sanções contra o regime iraniano ditadas por sucessivas administrações de Washington.

E o clima azedou

Poderá dizer-se que existe um factor objectivo relativamente novo que minou o humor dos círculos belicistas norte-americanos contra o regime turco: a compra de avançadíssimos sistemas de defesa anti-aérea S-400 a Moscovo, que também implica um acordo permanente com a Rússia para efeitos de manutenção e fornecimento de componentes.

Como Washington considera que a utilização destes sistemas russos implica conhecimento de informações sensíveis para combater caças de fabrico norte-americano, designadamente os moderníssimos F-35, dados esses que ficam ao alcance da Rússia, o caso tornou-se verdadeiramente grave.

Esta circunstância objectiva terá sido a gota de água que fez transbordar o vaso da acumulação de factores de tensão entre os dois países.

Uma resposta directa norte-americana que claramente está ligada ao mais recente desentendimento bilateral é o corte do fornecimento dos caças F-35 a Ancara. “A Turquia não pode querer gozar o melhor de dois mundos: sistemas de defesa russos e de guerra aérea norte-americana”, declarou uma fonte do Departamento da Defesa que preferiu manter o anonimato.

Outra das respostas, esta não directamente atribuível a Washington, é a guerra económica desencadeada contra a lira turca, tirando proveito da enorme crise que assola a Turquia. O tal “mercado”, que se “regula a si próprio”, achou chegada a ocasião de penalizar o défice orçamental e a dívida soberana de Ancara catapultando os juros de financiamento para níveis astronómicos.

Uma situação, aliás, muito bem conhecida no interior da União Europeia, à qual Erdogan respondeu da mesma maneira que Bruxelas: uma epidemia de austeridade para fazer pagar a crise aos muito milhões que formam a comunidade dos mais desfavorecidos. Um mal agravado com as desvalorizações sucessivas da moeda, instaurando uma inflação altamente desestabilizadora e punitiva.

O “mercado”, através das suas bíblias – Financial Times, Bloomberg e outras – já fez saber que a estratégia de resposta à crise planeada pela Turquia e idealizada pelo ministro da Economia, por sinal genro de Erdogan, está vocacionada ao fracasso. Quer isto dizer que os especuladores sem pátria não vai abrandar a pressão sobre a economia do país que recebe três mil milhões de dólares anuais da União Europeia para servir de dique às vagas de refugiados que procuram a Europa.

Crise do globalismo atinge a NATO

O confronto entre a Turquia e os Estados Unidos, que passa bem pelo interior da NATO, é mais um sinal do beco sem saída a que está a chegar o globalismo capitalista, avassalado por uma guerra civil que tem cada vez mais diversificadas manifestações.

A multiplicação de explosões de capitalismo nacionalista através da Europa, e que chegou aos Estados Unidos com um impacto transnacional, fere profundamente a ordem internacional que vigorou desde a queda do muro de Berlim.

O nacionalismo capitalista, de um lado, e a conjugação de expressões capitalistas autónomas envolvendo a Rússia e a China – os BRICS, por exemplo – pressionam e perturbam a estratégia do capitalismo global montada pela ortodoxia neoliberal, como pode perceber-se pela guerra aberta no interior do establishment norte-americano.

O confronto entre Washington e Ancara é mais um episódio desse fenómeno em desenvolvimento. O que significa que a NATO dificilmente ficará incólume perante as transformações nacionais e internacionais em curso.

 


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