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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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TERRORISMO EM XINJIANG, UMA ARMA DE WASHINGTON

2020-01-10

O separatismo na região autónoma chinesa de Xinjiang e a “libertação" do povo uigure surgem nos menus ocidentais para “democratizar” a China, mas a realidade nada tem a ver com as intenções proclamadas e a verdadeira situação no território. Além de Xinjiang ter dado o salto do feudalismo para a modernidade em algumas décadas, a região desempenha um papel fulcral nas acções chinesas de internacionalização. Daí que os Estados Unidos e aliados não tenham hesitado em criar e manipular grupos terroristas “uigures” da família da al-Qaida que tanto estão activos internamente como podem ser exportados temporariamente, como aconteceu na guerra contra a Síria.

Diego Pautasso, Gaio Dória e Tiago Soares Nogara, Carta Maior/O Lado Oculto

A China difere das demais nações do mundo por se configurar um Estado-civilização. Um Estado-civilização, na sua acepção mais simples, é um país que representa não apenas um território histórico, um grupo étnico e linguístico, mas uma civilização única por si só. Diferencia-se do conceito de Estado-nação pelo conteúdo das suas diversas dimensões, ultrapassando os valores universais – liberais - estabelecidos como padrões na era dos Estado-nação. No caso de Xinjiang, a região turcófona e islamizada tem uma história registada no âmbito da civilização chinesa que remonta há mais de 2000 anos, quando a antiga Rota da Seda ligou a China à Europa.

Com o êxito da estratégia de desenvolvimento chinês, a região de Xinjiang também beneficiou de taxas expressivas de crescimento. O mundo ocidental, porém, encara esta região autónoma como um território a explorar como elemento desestabilizador do sistema político chinês. A questão de Xinjiang, que compreende diversas dimensões e complexidades, foi internacionalizada para se enquadrar no âmbito das disputas geopolíticas entre os Estados Unidos e a China. Assim, devemos considerar os seguintes pontos para compreender e avançar no debate:

a) A revolução que conduziu o Partido Comunista ao poder na China ocorreu em 1949. De carácter anti-feudal e anti-imperialista desde o princípio, enunciou o imperativo da reconstrução nacional, vide o papel do Partido Comunista no confronto contra a ocupação japonesa, ao longo da Segunda Guerra Mundial. Deste modo, ciente do caráter multiétnico do país e visando recompor a integridade territorial, ainda em 1954 o Congresso Nacional do Povo estabeleceu um sistema de autonomia regional para as minorias étnicas na Constituição da República Popular da China. A Região Autónoma Uigure de Xinjiang foi estabelecida em 1955.

b) Na época da revolução, territórios como os de Xinjiang e o Tibete não tinham, sequer, vias férreas. O desenvolvimento das regiões marcadas pela presença de minorias éticas é, desde então, uma realidade inquestionável: na sua totalidade, o PIB aumentou de 5790 milhões de RMB, em 1952, para 3,06 biliões (milhões de milhões) em 2008. Em 1985, o número de pessoas em situação de pobreza nessas regiões era de cerca de 40 milhões; em 2008 descera para de 7,7 milhões. Apenas em Xinjiang, o PIB aumentou mais de 86 vezes entre 1995 e 2008, saltando de 1200 milhões para 420300 milhões de RMB, com crescimento anual acima de 8%. Tamanho crescimento resultou num PIB que ultrapassou um bilião de RMB em 2017.


Conspiração da CIA

c) Desde a década de 1990 foram criados o World Uyghur Congress (WUC), financiado pelo National Endowment for Democracy (NED), e o East Turkistan Islamic Movement (ETIM), com apoio da CIA, ambos com reivindicações separatistas na região de Xinjiang. Desde 2002, a ONU considera oficialmente o ETIM como uma organização terrorista ligada à al-Qaida. Aliás, milhares destes terroristas (cerca de 18 mil) vincularam-se ao Isis, ou Estado Islâmico, durante a guerra na Síria.

d) Inegavelmente, a China é um país complexo. São 56 etnias, 1400 milhões de pessoas e mais de nove milhões de quilómetros quadrados em virtuoso processo de modernização - incluindo o mais notável processo de mobilidade social da história (740 milhões de pessoas de áreas rurais foram retiradas de situação de pobreza apenas entre 1978 e 2017). Obviamente que, ainda assim, se entrelaçam desigualdades e assimetrias sociais, regionais e étnicas - muitas de natureza secular cuja superação será intergeracional.

e) Além dos desafios domésticos, a China enfrenta toda a espécie de tensões com a superpotência norte-americana. Washington tem trabalhado sistematicamente para não perder o controlo sobre as estruturas hegemónicas de poder. Como a China é o principal poder desafiador, os Estados Unidos actuam apoiando o separatismo (Taiwan, Tibete, Xinjiang), estimulando conflitos no Mar do Sul da China e fomentando posições anti-chinesas através do mundo. Tudo isso enquanto reforça a sua presença militar no Pacífico (Guam, Filipinas, Coreia do Sul, etc.), sabota a estabilidade política do sistema de governo chinês (de Tiananmen até Hong Kong) e reactiva a guerra comercial. É irónico que as críticas sobre a região autónoma de Xinjiang partam dos Estados Unidos, país marcado por um racismo estrutural e excludente, possuidor da maior população carcerária do mundo. Em pleno século XXI, o país dito “da liberdade” colecciona prisões como Guantánamo, cárceres clandestinos e campos de concentração - que destroem famílias, sem quaisquer escrúpulos, para “resolver” o problema de imigrantes em situação irregular.

Em suma, a China investiu em Xinjiang como em qualquer outra parte de seu território, modernizando as suas cidades, construindo 21 aeroportos, estradas, escolas, hospitais, vias férreas, entre muitas outras infraestruturas. Xinjiang está em sintonia com as últimas tendências da modernidade. Não é por acaso que a China tem actuado nitidamente para dar forma a um projecto chinês de globalização a partir da Nova Rota da Seda, ou Iniciativa Cintura e Estrada (ICE) liderando processos de integração regional como a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e ASEAN 1 e reconfigurando um sistema sinocêntrico.


Xinjiang, uma peça fulcral

Nesse sentido, Xinjiang é uma peça-chave nesse projecto. A maioria das rotas que transportam mercadorias entre a China e a Europa passam por Xinjiang. Também existem muitos oleodutos/gasodutos da Ásia Central que passam por Xinjiang para alimentar a economia industrial da China. É por isso que os Estados Unidos se concentram em desestabilizar Xinjiang. Os prejuízos na economia chinesa podem ser catastróficos.


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