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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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OS FASCISMOS “BONS” E “MAUS” NA SAGA DO IMPEACHMENT

Joe Biden com um dos "ideólogos" no nazismo ucraniano, Oleg Tyahnybok, em Kiev em 22 de Abril de 2014

2019-11-23

O impeachment contra Donald Trump faz correr muita tinta e preenche horas e horas das emissões de televisão. E, no entanto, por obra e graça de quem ataca e quem defende, democratas, republicanos ou antes pelo contrário, o processo é uma refrega de baixa política sobre interesses de castas que tem como pretexto o envolvimento imperial de Washington na Ucrânia. Os depoimentos são obras de ficção, deliberadamente afastados do nó do problema ucraniano. Se fossem analisados à luz dos comportamentos norte-americanos reais e da situação no terreno nenhum dos envolvidos, fosse de que lado fosse, escaparia a um higiénico impeachment.

Daniel Lazare, Strategic Culture/O Lado Oculto

Se as únicas pessoas que o leitor ouve a propósito da Ucrânia forem os papagaios das TV’s ou os porta-vozes do governo em Kiev ficará com a sensação de que as regiões do leste ucraniano controladas por rebeldes gemem sob o jugo da opressão russa – ocupadas, roubadas e torturadas a todo o momento.

No fim de contas foi apenas há quatro anos que o então vice-presidente dos Estados Unidos, Joseph (Joe) Biden, afirmou na Rada ou Parlamento ucraniano que “a Rússia continua a enviar os seus bandidos, as suas tropas, os seus mercenários através da fronteira”; e que os rebeldes apoiados pela Rússia “dispõem de tanques e mísseis russos, negam ajuda humanitária, expulsam organizações como os Médicos sem Fronteiras e roubam medicamentos que salvam vidas para os vender no mercado negro. Isto não é o futuro”, acrescentou o vice-presidente de Obama; “não acredito que este seja o futuro que qualquer ucraniano queira para os seus filhos”.

Isto foi o que disse Biden, mas não coincide com o que relatam as pessoas vivendo nessas áreas. Longe de culparem a Rússia pelos seus problemas, ainda se dão como felizes por viverem em território controlado por rebeldes, longe dos incompetentes e militantes fascistas que lançaram o caos em outras regiões do país.

Situação descrita por quem a vive

Não, não estamos perante propaganda do Kremlin. O que divulgamos são os resultados de uma nova sondagem realizada pela New Image Marketing, uma empresa privada de pesquisas de opinião de Kharkov, cidade situada a cerca de 350 quilómetros a leste de Kiev, e pelo Dzerkalo Tyzhnia, semanário independente em ucraniano e russo descrito como a publicação “de análise política mais influente da Ucrânia” e “amplamente lida pelas elites ucranianas”.

A sondagem, baseada em entrevistas pessoais com mais de 1600 inquiridos, escolhidos em amostras proporcionais nas províncias de Donetsk e Luhansk, controladas por rebeldes, apurou que 76% qualificam o conflito mais como uma guerra civil e não como uma invasão russa; e 86% acreditam que não foi o Kremlin quem iniciou as hostilidades. Aproximadamente a mesma percentagem considera que o retorno da Crimeia à Rússia, em 2014, representou “um esforço para defender legalmente cidadãos de língua russa hostilizados pela Ucrânia”.

A esmagadora maioria dos entrevistados consideram que, em vez da Rússia, os principais responsáveis pela situação actual são o governo da Ucrânia, os Estados Unidos e os manifestantes que apoiaram o golpe de Estado comandado por fascistas em 2014, que derrubou o presidente legalmente eleito, Viktor Yanukovich, e montou um regime de substituição escolhido a dedo por Washington. Interrogados sobre quem deveria ser financeiramente responsável pelos custos da reconstrução, 64% dos participantes responderam que tem de ser a Ucrânia, desde que as operações decorram sob controlo local.

Apenas cinco por cento dos entrevistados admitiram que poderiam mudar-se para áreas controladas por Kiev. Os que rejeitam essa possibilidade dão como razão principal o facto de as condições nessas áreas estarem estagnadas ou mesmo piores do que antes. O rendimento per capita caiu mais de 25% desde o golpe de Fevereiro de 2014, segundo dados do Banco Mundial. As duas personalidades mais respeitadas por estes inquiridos são Vladimir Putin e Vladimir Solovyov, figura da TV russa que denunciou o regime de Kiev como “nazi”.

A versão ficcional

Os media corporativos e democratas como Biden ou republicanos neoconservadores como Adam Schiff entendem que não devemos acreditar nesta realidade exposta pelos que vivem no Leste da Ucrânia. Schiff, um dos responsáveis pelo processo de impeachment de Donald Trump em curso na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, foi uma das primeiras vozes a defender ajuda militar letal às forças ucranianas que reprimem as populações do Leste. Também Biden se comportou como um “falcão” ao defender ajuda letal e apoiar com firmeza o presidente Petro Porochenko, que assumiu o cargo dois meses de Yanukovich ter sido deposto mas sofreu recentemente uma derrota esmagadora às mãos de Volodymyr Zelensky.

Charlottesville e Kiev

Joseph Biden, que é concorrente de Donald Trump nas eleições de 2020, atacou o actual presidente a propósito das suas posições perante os graves incidentes de Charlottesville, em 2017, quando grupos fascistas e supremacistas brancos se lançaram violentamente sobre manifestantes que se opõem ao seu ideário e práticas. Trump disse que “havia pessoas muito boas de ambos os lados”. Biden alegou que essas palavras “chocaram a consciência da nação” porque implicam “uma equivalência moral entre os que espalham o ódio e os que têm a coragem de lhes resistir”.

Uma louvável posição de princípio exposta assim por Biden. E que levanta a questão de saber por que razões não se expressou dessa maneira quando idênticas forças fascistas atacaram Kiev. Afinal, Oleg Tyahnybok, um dos líderes dos protestos que levaram ao golpe contra Yanukovich, é conhecido pela sua acção contra “a mafia judaica de Moscovo” e pelo seu envolvimento nos desfiles à luz de tochas homenageando o nacionalista ucraniano Stepan Bandera, colaborador de Hitler e comandante de forças que chacinaram milhares de polacos e judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Os seguidores de Tyahnybok e outros neofascistas penduraram bandeiras nazis das SS e instalaram símbolos do “poder branco” na Câmara Municipal de Kiev logo que ocuparam o edifício, ainda durante o golpe.

Fica, pois, por conhecer a razão pela qual Biden não denunciou estes comportamentos tal como criticou os fascistas de Charlottesville. Pelo contrário, qual o motivo por que elogiou os fascistas de Kiev como “patriotas pacíficos” reacendendo uma “chama de esperança”.

No seu discurso perante o Parlamento de Kiev, o então vice-presidente dos Estados Unidos elogiou os manifestantes que “no meio do fogo, do gelo, dos atiradores de elite instalados nos telhados pagaram o preço final dos patriotas em todo o mundo; o seu sangue e a sua coragem proporcionaram uma segunda oportunidade de liberdade ao povo ucraniano”.

Joe Biden condena Trump por elogiar os fascistas de Charlottesville enquanto ele próprio faz o mesmo com os fascistas de Kiev. Se está contra os ataques contra judeus e negros num local porque elogia os que atacam judeus e pretensos “adeptos de Moscovo” noutro lugar?

Trump está em pleno processo de impeachment por reter temporariamente 391 milhões de dólares de auxílio militar ao governo da Ucrânia, sustentado por organizações fascistas. O seu verdadeiro crime, porém, não é a retenção do apoio mas sim o facto de ter permitido que ele prosseguisse durante a sua administração. 

Caso haja dúvidas, basta perguntar às pessoas de Donetsk e Luhansk que são vítimas de munições, mísseis Javelin e outros tipos de armamento fornecido pelos Estados Unidos. Elas recomendam que se observem as práticas das forças ao serviço do governo ucraniano, que qualificam como “naziki”, pequenos nazis.

Ora estas posições dos que são vítimas dos amigos fascistas das administrações de Washington – tanto democráticas como republicanas – não coincidem com os conteúdos dos depoimentos das testemunhas do Departamento de Estado que vão desfilando nas audiências do impeachment e pelas câmaras que os transmitem em directo.


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