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A MÃO COLONIAL NOS DISTÚRBIOS IRAQUIANOS

2019-10-10

As reivindicações dos manifestantes que tomam as ruas de Bagdade e outras cidades iraquianas são justíssimas num país deixado no caos económico pelos invasores e ocupantes. Já os interesses que os manipulam e os incitam à violência e à desestabilização total são os mesmos que querem montar uma espécie de “Primavera árabe”, desta feita para transformar o Iraque em mais uma frente da guerra dos Estados Unidos contra o Irão.

Elijah Magnier, Investig’Action/O Lado Oculto

Os últimos dias demonstraram que o Médio Oriente está longe de imunizado contra uma guerra entre os Estados Unidos e o Irão. O conflito estende-se agora ao Iraque, onde mais de cem pessoas foram mortas e milhares ficaram feridas durante os movimentos de protesto que emergiram em Bagdade e numerosas cidades de maioria xiita do sul do país como Amara, Nasiriya, Bassorá, Nadjaf e Karbala. Manifestações do mesmo tipo poderão estende-se a Beirute e outras cidades do Líbano, tendo em conta a afinidade das reivindicações económicas nos dois países. A crítica situação económica do Médio Oriente é um terreno fértil para levantamentos susceptíveis de conduzir a um caos generalizado.

Um precário equilíbrio

O Iraque é um caso especial desde a ocupação do país pelos Estados Unidos em 2003, devido à sua posição de aliado simultâneo do Irão e de Washington. Até ao momento, o primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi tem-se apoiado no artigo 8º da Constituição, que preconiza a manutenção de um equilíbrio entre o Iraque e os seus aliados e os países vizinhos, tentando evitar que a Mesopotâmia se torne um campo de batalhas entre países em conflito como os Estados Unidos e o Irão ou a Arábia Saudita e o Irão.

Apesar dos esforços dos responsáveis de Bagdade, a deterioração da situação económica no Iraque criou no país uma situação semelhante à de outros países do Médio Oriente que viveram a chamada “Primavera árabe”. Tirando partido de reivindicações legítimas devidas à precarização do emprego e à corrupção endémica, os levantamentos internos foram manipulados para fazer cair regimes e fragilizar Estados, como foi o caso da Síria em 2011. Países regionais e de outras zonas aproveitaram-se das exigências legítimas das populações locais para tentarem impôr os seus próprios pontos de vista, conduzindo à destruição completa dos países envolvidos.

Fontes do gabinete do primeiro-ministro iraquiano afirmaram que:

 “As últimas manifestações foram planeadas há cerca de dois meses. Bagdade tentou acalmar a situação no país, tanto mais que as reivindicações da população são legítimas. O primeiro-ministro herdou um sistema corrompido desde 2003, quando centenas de milhares de milhões de dólares foram desviados para os bolsos de políticos corruptos. Além disso, a guerra contra o terrorismo não só mobilizou todos os recursos do país como obrigou também o Iraque a contrair empréstimos de milhares de milhões de dólares para reconstituir as forças de segurança e responder a outras necessidades essenciais”.

Ainda segundo fontes do gabinete do primeiro- ministro:

“As manifestações mais recentes deveriam ser pacíficas e eram legítimas, porque as pessoas têm o direito de exprimir o seu descontentamento, as suas preocupações e frustrações. Contudo, o desenvolvimento dos acontecimentos fez aparecer um outro objectivo: 16 membros das forças de segurança foram mortos e pelo menos 43 habitações civis e imóveis do governo ou do partido que o constitui foram incendiados e completamente destruídos. Este tipo de comportamento apropriou-se dos desejos legítimos da população a gerou um resultado desastroso: um caos total no país. Mas quem aproveita com a desordem no Iraque?” 

Provocação detonadora

As perturbações nas cidades iraquianas coincidem com a tentativa de assassinato do general iraniano Soleimani. Várias fontes acreditam que “a tentativa de assassinato de Qassem Soleimani, que comanda as Brigadas Al-Qods do corpo de Guardas da Revolução iraniana, não é pura coincidência e está associada ao que se passa no Iraque”.

De acordo com as mesmas fontes, “Soleimani estava no Iraque a pedido dos principais dirigentes do país. Ele tem muita influência, tal como os norte-americanos, que têm a sua gente instalada. Os interesses que manipulam os actuais tumultos estavam convencidos de que o desaparecimento de Soleimani iria criar um clima de confusão no Iraque e no Irão propício a um golpe de Estado militar encorajado por forças estrangeiras, na circunstância os Estados Unidos e a Arábia Saudita. No espírito dos actores estrangeiros estava presente a ideia de que matar Soleimani poderia semear o caos e enfraquecer a influência do Irão no Iraque”.

Decisões que incomodam Washington

As decisões mais recentes do primeiro-ministro Abdel Mahdi tornaram-no extremamente impopular junto dos Estados Unidos. Acusou Israel de ser responsável pela destruição de cinco instalações das forças de segurança iraquianas (Hachd al-Chaabi) e de ter morto um comandante na fronteira do Iraque com a Síria.

O primeiro-ministro abriu também o posto fronteiriço de al-Qaem, na fronteira do Iraque com a Síria, contra a opinião da embaixada dos Estados Unidos em Bagdade, cujo pessoal expressou o seu descontentamento aos responsáveis iraquianos. Exprimiu a vontade de comprar sistemas defensivos S-400 e outro material militar à Rússia. Abdel Mahdi chegou a acordo com a China para a reconstrução de infraestruturas essenciais do Iraque em troca de petróleo; e fê-lo depois de ter estabelecido um contrato de electricidade no valor de 284 milhões de dólares com uma empresa alemã e não norte-americana.

Acresce que o primeiro-ministro iraquiano recusou-se a respeitar as sanções determinadas pelos Estados Unidos, continuando a comprar electricidade ao Irão e autorizando trocas comerciais que injectam elevados montantes na economia iraniana. Por fim, Abdel Mahdi rejeitou o chamado “acordo do século” apresentado pelos Estados Unidos em relação à questão palestiniana e tenta estabelecer uma mediação entre a Arábia Saudita e o Irão, revelando assim que não tem intenção de se conformar com os objectivos e as políticas dos Estados Unidos no Médio Oriente.

Os responsáveis norte-americanos exprimiram o seu grande descontentamento em relação à política de Abdel Mahdi junto de numerosos responsáveis iraquianos. Os norte-americanos consideram que o seu fracasso em fazer do Iraque um país em confronto com o Irão é uma vitória para Teerão. Contudo, o que o primeiro-ministro tenta fazer é uma coisa completamente diferente. Tenta simplesmente ficar à distância do conflito entre os Estados Unidos e o Irão, mas tem pela frente dificuldades gigantescas.

Divisões na comunidade xiita

Abdel Mahdi chegou ao poder no Iraque numa altura em que a economia se encontrava em estado catastrófico. Sofreu muito durante o primeiro ano de governo, apesar de as reservas petrolíferas iraquianas serem as quartas em importância no mundo; um quarto da população do país – avaliada em 40 milhões de pessoas – vive em situação de pobreza.

A Marjava – corpo religioso supremo dos ayatollah na confissão xiita – de Nadjav conseguiu intervir para acalmar a situação decorrente das manifestações, mostrando capacidade para controlar as multidões. O seu representante em Kerbala, Sayyed Ahmad al-Safi, sublinha a importância de combater a corrupção e de criar uma comissão encarregada de recolocar o país nos trilhos. Al-Safi afirma que é necessário desenvolver reformas sérias e pediu ao Parlamento, sobretudo à “maior coligação”, que assuma as suas responsabilidades.

A coligação principal, que inclui 53 deputados, está sob influência do líder xiita Sayyed Moqtada al-Sadr, que anunciou, contrariamente ao parecer da Marjava, a suspensão da sua participação do seu grupo nos trabalhos parlamentares. Moqtada apela a eleições antecipadas, que não deverão dar-lhe mais do que 12 a 15 deputados. Al-Sadr, que se desloca entre a Arábia Saudita e o Irão sem ter objectivo estratégico, procura apenas seguir a vaga de descontentamento para extrair vantagens das exigências legítimas dos manifestantes.

Moqtada e os outros grupos xiitas que hoje dirigem o país, em aliança com os curdos e minorias sunitas, deveriam antes responder às exigências do povo em vez de se esconderem atrás dos que tomam de assalto as ruas para exigir o fim da corrupção, a criação de emprego e uma melhoria da qualidade de vida.

O primeiro-ministro Abdel Mahdi não possui uma varinha mágica e o povo não consegue esperar muito mais tempo. As reivindicações dos manifestantes são justas, mas eles “não são os únicos nas ruas”. A maioria dos criadores de hashtags nas redes sociais são sauditas. Segundo uma fonte, “é bastante revelador o facto de as visitas de Abdel Mahdi à Arábia Saudita e a sua mediação entre Riade e Teerão não o imunizarem contra a mudança de regime em Bagdade pretendida pelos sauditas”. O comportamento dos vizinhos do Iraque já deixou perceber claramente ao primeiro-ministro que as relações com o Irão são as mais saudáveis e as mais estáveis. Teerão não conspirou contra ele, ainda que a bandeira iraniana tenho sido a única queimada e espezinhada por alguns manifestantes nas ruas de Bagdade durante os últimos dias de levantamento.

Estados Unidos não desarmam

A situação económica crítica do Médio Oriente torna a região mais vulnerável ao descontentamento social. A maior parte dos países sofrem com as sanções impostas pelos Estados Unidos ao Irão e com as despesas astronómicas para se abastecerem com armas norte-americanas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz tudo quanto pode para esvaziar os bolsos dos dirigentes árabes e para fazer do Irão um espantalho, de modo a drenar as finanças dos países do Golfo. A guerra que os sauditas impõem ao Iémen é outro factor desestabilizador no Médio Oriente porque favorece as tensões e os confrontos.

O Iraque parece encaminhar-se para a instabilidade como uma frente da guerra multidimensional dos Estados Unidos contra o Irão; os Estados Unidos exigem a solidariedade dos países árabes e do Golfo para com os seus planos.

O Iraque não se submete às exigências norte-americanas. Com o Parlamento e os partidos políticos iraquianos representando a maioria da população, a mudança de regime é improvável, mas os países vizinhos e os Estados Unidos vão continuar a explorar as carências dos cidadãos iraquianos. Não se sabe se Abdel Mahdi conseguirá manter a estabilidade no Iraque. Mas uma coisa está muito clara: A tensão entre os Estados Unidos e o Irão não poupará qualquer país do Médio Oriente. 



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