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ESTAGNAÇÃO OU RECESSÃO: UMA EUROPA SOMBRIA EM 2019/2020

2019-07-28

Jorge Fonseca de Almeida*, especial para O Lado Oculto

As previsões divulgadas pela FocusEconomics, uma das empresas líderes de previsões macroeconómicas na Europa, apontam para um ano de 2019 de estagnação. E as perspectivas para 2020 não são melhores, além de dependerem de muitos "ses". 

Para 2020 as previsões dependem, em grande medida, da forma como se desenvolverem três importantes temas: a saída do Reino Unido da União Europeia, as negociações sino-americanas e as ameaças norte-americanas ao Irão. 

Se a saída britânica for ordenada, se norte-americanos e chineses encontrarem uma plataforma de entendimento e se os Estados Unidos recuarem na sua intenção de intimidar e provocar uma guerra com o Irão as economias europeias poderão continuar em estagnação; se algo correr mal, então poderemos mesmo entrar num período de aguda recessão. Demasiados “ses” para que possamos estar optimistas. Nuvens carregadas no horizonte.

2019 – Afinal não tão difícil de prever

                                                                           


Estando a seis meses do final do ano, as previsões para 2019 não pertencem ao reino da bola de cristal, podendo já ser feitas com pequena margem de erro.

A FocusEconomics prevê um crescimento de 1,1% para a zona Euro, um crescimento de 0,7% para a Alemanha e de 0,1% para a Itália. 

A crescer efectivamente, isto é, de 2%, temos apenas a Espanha, a Estónia, a Irlanda e a Eslováquia, a Lituânia e o Luxemburgo. Destes apenas a Espanha é uma economia com alguma dimensão, sendo os restantes pequenos países.

A inflação continua controlada e bem inferior ao limite dos 2%.

Portugal deve chegar a um PIB de 207 mil milhões de Euros em 2019, valor que compara com 341 mil milhões da Irlanda, um país com apenas 5 milhões de habitantes (menos de metade de Portugal), ou com 412 mil milhões na Áustria, que tem 9 milhões de habitantes. Nada brilhante para a nossa dimensão.

2020 – Nuvens Carregadas

                


A FocusEconomics prevê para o ano de 2020 que se avizinha a continuação da estagnação na Zona Euro, muito embora com pequena subida do crescimento económico, situando-o num patamar abaixo dos 1,3%. 

Para Portugal estas previsões apontam um crescimento de aproximadamente 1,6%, que também não chega para nos colocar fora deste clima geral europeu de estagnação.

Mas mesmo esta estagnação está ameaçada pela evolução de diversos problemas de grande envergadura que continuam a pesar sobre a economia mundial.

                     


A saída do Reino Unido da União Europeia – a recente eleição de Boris Johnson para primeiro-ministro indica a forte determinação de o país se libertar do espartilho alemão e aumenta a probabilidade de tudo se concretizar na data prevista: Outubro deste ano. Nesse sentido, parece retirar alguma incerteza a este processo que Theresa May arrastou por demasiado tempo. Contudo, aumenta também a possibilidade de uma retirada unilateral e desordenada se a União Europeia se mantiver inflexível sobre a razoável preocupação do Reino Unido de não ter uma fronteira externa no interior do seu país. Entre Setembro e Outubro teremos então um período de intensas negociações que determinarão a solução política que se adoptará e que condiciona as perspectivas económicas para 2020.

                                            

Trump tem mantido, desde o seu primeiro dia na Casa Branca, uma absurda atitude agressiva para com o Irão – recordemos que um dos seus primeiros actos enquanto presidente foi o de rasgar o acordo multilateral do Irão com várias potências ocidentais, incluindo a União Europeia, sobre a questão nuclear. Depois obrigou os restantes parceiros europeus a desrespeitar esse acordo através de sanções às empresas que negociassem com os iranianos. Mais recentemente escalou a sua postura ao acusar falsamente o Irão de ter sabotado um petroleiro japonês, no que foi desmentido até pelo Japão. Por pressão norte-americana, o Reino Unido apresou ilegalmente um petroleiro iraniano no Mediterrâneo. 

Uma guerra que feche o Estreito de Ormuz significa uma crise de proporções gigantescas na economia mundial, pois deixa sem abastecimento energético uma parte importante da Ásia, incluindo o Japão, a Coreia do Sul, e também parcialmente a China. Rotas alternativas significam aumentos de custos consideráveis. 

Este não seria um conflito de consequências regionais, mas um severo golpe que pode levar a uma recessão mundial de grande amplitude e ao eclodir de outros conflitos pelo abastecimento energético. O aparente recuo de Trump é, obviamente, bem-vindo, mas a pressão israelita e a animosidade norte-americana continuam.

         


A postura proteccionista norte-americana relativamente à China tem aumentado com uma escalada das taxas aduaneiras e com sucessivas proibições às empresas norte-americanas de negociar/exportar para a China. Esta postura tem como contrapartida a exigência à União Europeia de que absorva parte das exportações americanas para a China que, por virtude da atitude de Trump, se perderam e para que exporte menos para os Estados Unidos. Estas exigências muito têm contribuído para o clima de estagnação económica europeia.

Continuando esta pressão norte-americana, a União Europeia poderá ver as exportações alemãs para os Estados Unidos limitadas, sendo que algumas destas exportações alemãs são produzidas em Portugal; e muita da agricultura europeia substituída por importações norte-americanas, como já está a acontecer com a soja italiana.

Conclusões

O ano de 2020 que se aproxima será, em termos económicos na Europa, na melhor das hipóteses, um ano de continuação da actual estagnação; e, se algumas das ameaças que pairam no ar se vierem a concretizar, um ano de recessão.

*Economista, MBA

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