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NATO GLORIFICA NAZIS DO BÁLTICO

Veteranos das Waffen SS, o "berço" dos Irmãos da Floresta, desfilam frequentemente nas ruas da Letónia e demais Estados bálticos

2019-07-26

Os Irmãos da Floresta foram um grupo armado da Estónia, Letónia e Lituânia formado por combatentes originalmente das Waffen SS hitlerianas que tentaram conter o avanço libertador soviético na fase derradeira da Segunda Guerra Mundial. Posteriormente actuaram como grupos de guerrilha anti-soviética sustentados pelos serviços secretos de grandes potências ocidentais. Hoje, no âmbito da guerra psicológica contra a “ameaça russa”, os Irmãos da Floresta são glorificados como heróis num documentário hollywoodesco da NATO no qual, porém, não couberam as suas origens e filiação nazis.

Ben Norton*, AlterNet/O Lado Oculto

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) tem vindo a ser criticada por glorificar colaboracionistas nazis das nações bálticas como heróis anticomunistas num curto filme recentemente divulgado.

“Forest Brothers (Irmãos da Floresta): em luta pelos países bálticos” é uma curta-metragem que a NATO deu a conhecer em 11 de Julho no YouTube e nas suas contas nas redes sociais. O documentário exibe dramáticas recriações de cenas de batalhas, acompanhadas por música ao estilo das superproduções de Hollywood, nas quais um grupo ligado aos nazis alemães, conhecido como Os Irmãos da Floresta, monta uma emboscada e mata oficiais soviéticos.

O filme inclui entrevistas com ex-combatentes e até realça as Forças Especiais da Lituânia de hoje, apresentando-as como destacamentos heróicos na linha da frente contra a Rússia.

“O legado de um combate travado por uma pequena força perante uma desvantagem esmagadora mantém-se hoje nas unidades de Forças Especiais dos três países” bálticos, declara o narrador colocando a voz em modo de epopeia. Então, um oficial das Forças Especiais da Lituânia explica: “Toda a nossa história deriva dos Irmãos da Floresta”.

O que o filme não menciona uma única vez, ao longo dos mais de oito minutos de duração, é que muitos membros dos Irmãos da Floresta lutaram em nome do regime nazi de Hitler. Os membros deste grupo armado anticomunista eram, na sua maior parte, ex-integrantes das Waffen SS.

Por isso, alguns dos principais historiadores e investigadores antinazis condenaram o documentário da NATO por ser um exercício para reescrever a história.

O filme “fecha os olhos ao culto das forças pró-Hitler na Europa Oriental” e, além disso, “atravessa a linha vermelha ao conceder legitimidade moral a forças nazis como as Waffen SS da Letónia”, considera o historiador Dovid Katz.

Por exemplo, para se juntar às SS da Letónia os recrutas faziam um juramento de lealdade ao Fuhrer alemão.

Katz é um dos principais especialistas na investigação da história dos judeus nos Estados bálticos. Na sua opinião, a homenagem da NATO aos Irmãos da Floresta é “profundamente preocupante”, tratando-se mesmo de “uma cumplicidade infeliz com o ultra-nacionalismo da Europa Oriental e com atitudes que ofuscam o Holocausto e procedem ao seu revisionismo”.

Dovid Katz afirma que muitos dos membros dos Irmãos da Floresta “eram fascistas, incluindo alguns assassinos reciclados do genocídio de 1941 no Holocausto da Letónia”. A acção deste grupo serviu para atrasar o avanço soviético (em aliança com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha) que iria libertar os campos de morte mais a oeste”. 

Segundo Katz, “nem todos os membros das Waffen SS eram ‘assassinos por encomenda’ – grande parte dos judeus do país já tinham sido massacrados quando estas unidades foram formadas – mas isso é bastante irrelevante: se descobrissem um judeu escondido certamente não iriam ajudá-lo”.

A AlterNet contactou a assessoria de imprensa da NATO pedindo um comentário ao facto de o vídeo não mencionar as ligações nazis dos Irmãos da Floresta. Uma pessoa que pediu para ser identificada apenas como “um funcionário da NATO” escreveu: “O vídeo é aberto e transparente sobre a história dos Irmãos da Floresta. O guião sublinha que antigos soldados que tinham lutado em ambos os lados da guerra temiam agora pelas suas vidas”.

Reescrever o Holocausto

Dovid Katz escreve de maneira extensa e profunda sobre a reabilitação dos colaboradores nazis do Holocausto, particularmente nos Estados bálticos – Letónia, Estónia e Lituânia – que são membros da NATO e da União Europeia. É um colaborador regular da revista Defending History, um projecto académico cuja missão é “defender a história do Holocausto do ataque da nova direita do Leste Europeu (Estados, seus representantes e outras elites) para rebaixar e ofuscar o Holocausto”.

A Defending History relatou que no dia da independência da Lituânia no ano passado os nacionalistas de extrema-direita realizaram uma manifestação ao som de música neonazi e da canção dos Irmãos da Floresta, em direcção ao palácio presidencial, onde realizaram uma cerimónia evocativa. A mesma revista revelou que a mais velha sobrevivente do Holocausto no país, Fania Yocheles Brantsovsky, com 95 anos, se sentiu então “submetida a um processo de difamação pela campanha de revisionismo do Holocausto conduzida pelo Estado”.

Efraim Zuroff, conhecido activista e historiador antinazi, condenou o filme da NATO sobre os Irmãos da Floresta numa mensagem de email enviada para AlterNet. “O problema com a exibição deste filme é que apresenta os Irmãos da Floresta como heróis genuínos com um passado inocente quando, na verdade, muitos deles assassinaram judeus inocentes durante o Holocausto”.

A cumplicidade dos Irmãos da Floresta no Holocausto “foi, de facto, uma das razões pelas quais alguns deles se uniram à resistência anti-soviética – para evitar serem perseguidos pelos soviéticos pela sua colaboração com os nazis”, acrescentou Zuroff. “Eles também cometeram crimes contra civis inocentes”, disse.

Dovid Katz revela que entre os civis assassinados pelos Irmãos da Floresta estiveram os participantes em propriedades rurais colectivas organizadas segundo o modelo soviético na Lituânia. Na verdade, um dos principais directores de uma agência de desenvolvimento em Vilnius, capital da Lituânia, foi demitido já neste mês de Julho por ter publicado uma mensagem no Facebook levantando a dúvida sobre se era moral ou não os Irmãos da Floresta terem assassinado esses civis.

O historiador Samuel D. Gruber denunciou, por seu lado, que foram gastas grandes somas de dinheiro na preservação de locais na Lituânia supostamente associados aos Irmãos da Floresta, “muitos dos quais foram colaboradores fascistas e ‘caçadores de judeus’ que fugiram para as florestas, em 1944, para escapar ao avanço soviético”.

O filme da NATO não é a primeira acção de branqueamento do passado nazi do grupo anticomunista Irmãos da Floresta. O New York Times fez o mesmo na sua nota crítica sobre o documentário The Invisible Front quando se estreou nos cinemas, em 2014. O documentário da NATO, contudo, é o exemplo com maior destaque até ao momento.

Mito do “duplo genocídio”

O historiador Dovid Katz faz notar que a adulação dos Irmãos da Floresta feita pelo filme da NATO “está integrada na disseminação do mito do ‘duplo genocídio’, que ainda não é encarado no Ocidente com a merecida gravidade”.

“Duplo genocídio” é um conceito de revisionismo histórico que pretende colocar no mesmo plano os crimes da Alemanha nazi e as acções da União Soviética. Trata-se de uma tese muito acarinhada não apenas por neofascistas mas também por muitos conservadores e neoliberais: minimiza e justifica os crimes genocidas contra a humanidade praticados pelos nazis e amplifica, de maneira grosseira e sem rigor histórico, algumas acções soviéticas durante a guerra.

“O Eixo de Hitler e os Aliados não foram iguais, pelo que é uma vergonha para a NATO participar nas tentativas para rever a História feitas por ultranacionalistas e de extrema-direita que têm as suas raízes no extremismo, no racismo e no anti-semitismo”, disse Katz.

A União Soviética perdeu mais pessoas na Segunda Grande Guerra do que qualquer outro país: morreram mais de 26 milhões de soviéticos, incluindo quase nove milhões de soldados. A grande maioria dos combates contra a Alemanha nazi foram travados pela União Soviética e os historiadores sublinham que três quartos das baixas nazis na guerra se deveram à acção do Exército Vermelho, lembra Katz. Até o Washington Post reconheceu em 2015 que “a União Soviética salvou o mundo de Hitler”.

Hoje, porém, os governos de extrema-direita da Europa Oriental estão a reescrever activamente a História.

A Letónia é um dos países que aprovaram leis baseadas no mito do “duplo genocídio”, revela Katz. Trata-se, segundo disse, de “políticas vergonhosas” que ameaçam de prisão as pessoas que se pronunciam contra “a falsa equivalência entre crimes nazis e soviéticos”.

Na opinião de Dovid Katz, “na actual política do Leste Europeu e, em boa verdade, na ampla cena geopolítica Leste-Oeste as teses que não obedecem ao revisionismo histórico são rapidamente qualificadas como putinistas e vítimas de atentados contra a democracia e a liberdade de expressão; isto acontece contra os povos da Europa Oriental, que a NATO diz defender”.

A Rússia reagiu com vigor à homenagem da NATO aos Irmãos da Floresta. A Missão Permanente da Rússia na NATO criticou o filme qualificando-o como “mais uma tentativa vergonhosa de reescrever a História e glorificar ignominiosos ex-combatentes das SS e nacionalistas, ao serviço da narrativa política do dia”. Trata-se, acrescentou, de “intolerância e de guerra no seu melhor”.

Maria Zakharova, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, condenou o filme como “uma perversão histórica”, acrescentando que os Irmãos da Floresta eram “remanescentes fascistas” apoiados por agências de inteligência ocidentais na sua guerra de guerrilha contra a União Soviética.

*Jornalista e escritor.



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