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URSULA VON DER LEYEN: ODEIA A RÚSSIA, ADORA A NATO, AMA WASHINGTON

Dos areópagos da NATO para a presidência da Comissão Europeia

2019-07-08

Grete Mautner*, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

As temperaturas máximas deste Verão coincidiram com as acaloradas discussões através da Europa sobre as nomeações para cargos de topo da União Europeia, designadamente o de presidente da Comissão Europeia. Aquilo a que se assistiu revelou que a democracia ao estilo europeu afinal não difere muito dos métodos da tão condenável democracia norte-americana.

Enquanto a velha guarda de Bruxelas vai saindo de cena ouve-se dizer que é tempo de deixar no passado as práticas antidemocráticas que se tornaram comuns durante a sua gestão. No entanto, as recentes controvérsias revelaram que podemos esperar das novas elites o mesmo tipo de comportamentos das antigas.

Subrepticiamente, a coberto da noite, os burocratas europeus não eleitos escolheram a sucessora de Jean-Claude Juncker à cabeça da Comissão Europeia, a alemã Ursula Gertrud von der Leyen. Obviamente, nas manobras que conduziram a este desfecho em nada foram levados em conta os resultados das recentes eleições para o Parlamento Europeu. Falando à comunicação social no encerramento da cimeira de três dias em Estrasburgo, o presidente do Conselho, Donald Tusk, apresentou-se naturalmente tranquilo com o facto de conseguirem substituir o chefe da Comissão Europeia sem terem necessidade de pedir a opinião a alguém.

É particularmente digno de nota que este golpe silencioso aconteceu depois de uma série de “reformas democráticas” que supostamente foram concebidas para tornar a União Europeia uma instituição mais próxima dos mecanismos da democracia. As alterações às regras existentes, introduzidas em 2014, estipulam que a burocracia não eleita da União deve dar prioridade ao candidato a presidente da Comissão apresentado pela força política mais votada nas anteriores eleições para o Parlamento Europeu.

Pelo que o inesperado aparecimento da ministra alemã da Defesa como candidata à presidência da Comissão Europeia foi de tal modo controverso que até mesmo as forças políticas alemãs manifestaram desacordo com os desenvolvimentos. O presidente da União Social Cristã (CSU) e ministro-presidente da Baviera, Markus Soder, insistiu que o candidato original, Manfred Weber, deveria ter sido legitimado na presidência da Comissão mas terá sido vítima de truques de bastidores que afectam a transparência global das instituições da União Europeia.

O Partido Social Democrata da Alemanha (PSD), que faz parte da coligação governante, opôs-se veementemente à nomeação de Ursula Gertrud von der Leyen, uma decisão que, segundo o comunicado do partido, anula todos os esforços desenvolvidos no sentido de fortalecer a democracia na Europa. O PSD considera que a opção assumida põe em risco os interesses dos cidadãos europeus e também as tentativas para reforçar o papel do Parlamento Europeu.

Não se candidatou a nada

O que parece particularmente perturbador é que ninguém conhece as ideias de Ursula von der Leyen para desempenhar o seu novo cargo. Não há que esperar um tal cuidado informativo por parte da burocracia não eleita, apesar de a nova presidente da Comissão Europeia não ter apresentado qualquer programa porque nem sequer se candidatou a deputada do Parlamento Europeu. As únicas características que podem garantir-se sobre Ursula von der Leyen é a de ser militantemente russófoba, adicta da NATO e não fazer segredo das suas tendências para agradar a Washington. Parece, no entanto, que no actual ponto de vista de Bruxelas estas são as qualidades mais recomendáveis que um político pode ter.

Então como chegou Ursula von der Leyen à candidatura e à nomeação como presidente da Comissão Europeia?

É filha de um proeminente político da União Denocrata Cristã (CDU) da Alemanha, Ernst Albrecht, oriundo da London School of Economics and Political Science. Estudou medicina na Universidade de Hanover e, a partir de 1992, ocupou o cargo de médica assistente no Departamento de Ginecologia do Hospital Universitário de Hanover. No entanto, o seu doutoramento ficou sob escrutínio em 2016, uma vez que os professores encarregados de apreciar o trabalho concluíram que este estava seriamente comprometido por plágio.

No seu país, Ursula é conhecida como “Mãe da Alemanha”, devido ao facto de ter sete filhos. Surgiu no cenário político em 1990 como protegida de Angela Merkel na CDU. Ao longo dos anos seguintes seguiu na esteira de Merkel sem lhe dar uma única razão para duvidar da sua lealdade incondicional. Em 2005, Ursula von der Leyen assumiu a sua primeira pasta ministerial, o Ministério Federal da Família, Idosos, Mulheres e Jovens. Em 2009 recebeu uma ocupação mais exigente, o Ministério do Trabalho. Finalmente, quatro anos depois a chanceler permitiu que a sua protegida acedesse ao comando do Ministério Federal da Defesa, decisão que se revelou um passo desastroso devido à acumulação de escândalos, decisões controversas e declarações ambíguas. 

A imagem da incompetência

No início, Ursula von der Leyen conseguiu que o governo aumentasse as despesas militares, o que lhe garantiu o apoio dos comandos das forças armadas; porém, as coisas vieram a alterar-se drasticamente. Desde 2014, a forças armadas federais assinaram cerca de 3800 contratos associados à reorganização do sector, de modo a torná-lo mais actual do ponto de vista das tecnologias da informação. Três partidos denunciaram o processo como um modo de favorecer “amigos e familiares” da elite dominante. Além disso, os Verdes, o PSD e o Die Link (A Esquerda) demonstraram que as formas armadas contrataram numerosos consultores estrangeiros recebendo salários totais de 700 milhões de euros, de acordo com a rádio Deutsche Wella.

À parte destes gastos e investimentos, o jornal Bild citou o Tribunal Federal de Contas para acusar a ministra von der Leyen de ocultar o nível inaceitavelmente baixo de prontidão da Bundeswher. De acordo com a mesma fonte, a partir de 2017 os submarinos alemães deixaram de navegar, menos de metade de todas as fragatas e tanques estão operacionais e apenas um terço de todos os helicópteros de combate estão aptos a descolar. A este cenário acresce o facto de as corvetas alemãs, que segundo a ministra “estão perfeitamente aptas para o combate”, não terem armas montadas e carecerem de tripulação para operarem no mar.

Torna-se claro que, no contexto de uma “história de sucesso”, a saída de Ursula Gertrud von der Leyen do Ministério Federal da Defesa é uma boa notícia para os militares. Entretanto a ministra da Defesa já se tornara um fardo para os democratas cristãos, uma vez que as mais recentes sondagens de opinião revelam que a maioria dos alemães são profundamente críticos em relação aos desempenhos do ministério. Após as recentes eleições alemãs houve boas razões para Ursula von der Leyen tentar negociar outro posto no governo de coligação, mas não houve vagas para ela.

Será inútil argumentar que uma pessoa com este histórico desastroso poderá ser bem-sucedida no cargo mais elevado da União Europeia; é evidente, portando, que alguma força poderosa está por detrás da sua promoção. Até nem será difícil identificar esta “força misteriosa”, já que nem a Europa nem os cidadãos comuns terão alguma coisa a ganhar com o tipo de liderança previsível. É digno de nota que, por outro lado, como rescaldo do Brexit Washington perdeu um meio – o Reino Unido – capaz de influenciar directamente a política europeia através de Londres. Sabe-se que os Estados Unidos não têm qualquer interesse em observar uma união forte de Estados do outro lado do Atlântico e nada farão nesse sentido.

É por isso que a qualidade principal que um político deve ter hoje para assumir posições de liderança no Ocidente é a incompetência – o que mostra como a União Europeia foi capaz de descer tão baixo.

*Jornalista e investigadora alemã independente


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