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IDEIA DAS “SABOTAGENS IRANIANAS” JÁ TEM 10 ANOS

Um petroleiro "vítima do Irão" no Golfo de Omã, não existindo uma única prova que permita identificar os autores do crime.

2019-06-14

Tony Cartalucci, New Eastern Outlook; adaptação de O Lado Oculto

“…Seria bastante preferível, antes de lançar os ataques aéreos, que os Estados Unidos pudessem citar uma provocação iraniana como justificação para realizá-los. Claramente, quanto mais sensacionalista, mais mortífera e mais improvável for a acção iraniana melhor será para os Estados Unidos. É claro que será muito difícil aos Estados Unidos incitarem o Irão a fazer tal provocação sem que o resto do mundo reconheça esse jogo, o que a prejudicaria”

                                                                                                                   Brookings Institution, “Que caminho para a Pérsia?”, 2009

Pela segunda vez desde que os Estados Unidos se retiraram unilateralmente do chamado Acordo Nuclear do Irão, relatos ocidentais sobre “ataques suspeitos” contra petroleiros perto do Estreito de Ormuz tentam implicar o Irão.

O Guardian de Londres, num artigo intitulado “Dois petroleiros envolvidos em supostos ataques no Golfo de Omã”, afirma:

“Dois petroleiros foram atingidos em supostos ataques no Golfo de Omã e as tripulações foram evacuadas um mês depois de um incidente semelhante no qual quatro petroleiros foram atingidos na região”.

Ainda de acordo com o mesmo artigo:

“Há semanas que as tensões no Golfo têm estado próximas do ponto de ebulição, enquanto os Estados Unidos pressionam ao máximo Teerão na tentativa de forçar a reabertura das negociações do acordo nuclear de 2015 que Washington abandonou o ano passado. O Irão afirma repetidamente que não tem conhecimento dos incidentes, que não instruiu qualquer entidade a atacar os navios no Golfo ou instalações petrolíferas sauditas”.

O Guardian sublinhou ainda que as “investigações” sobre os supostos ataques anteriores, realizados em Maio nas proximidades dos Emirados Árabes Unidos, descobriram que foram usadas “minas sofisticadas”, mas não chegou a implicar o Irão nos acontecimentos.

Ainda de acordo com o artigo, o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, afirmou – sem provas – que “o Irão está quase certamente envolvido”.

Entretanto, numa conferência de imprensa o secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, afirmou que “o Irão está por detrás dos ataques”. Para isso baseou-se em “informações de inteligência” das quais não apresentou uma única prova.

Tudo muito conveniente

As notícias sobre petroleiros “atacados” perto do Estreito de Ormuz e as acusações norte-americanas contra o Irão surgem de maneira muito conveniente na esteira das medidas adicionais de Washington para pressionar a economia iraniana e minar ainda mais o governo do país.

Muito recentemente, os Estados Unidos encerraram o período de excepção que permitia a algumas nações comprar petróleo iraniano. Isto significa que países como o Japão, a Coreia do Sul, a Turquia, a China e a Índia ficam sujeitos a sanções norte-americanas se continuarem a importar petróleo iraniano. Coincidentemente, um dos navios agora “atacados” transportava “carga destinada ao Japão”, segundo o Guardian. Além disso, os acontecimentos ocorreram quando o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, se encontrava no Irão servindo de intermediário entre este país e os Estados Unidos, designado por Donald Trump. Também parece muito conveniente, perante este cenário, o facto de muito recentemente os Estados Unidos terem declarado os “Guardas da Revolução” iranianos como “organização terrorista”.

Num artigo publicado em Maio passado intitulado “O presidente Trump adverte o Irão sobre os ‘petroleiros sabotados’ no Golfo, a agência Associated Press (AP) informou que:

“Quatro petroleiros ancorados no Médio Oriente foram danificados de uma maneira que as autoridades do Golfo descreveram como sabotagem, apesar de as imagens de satélite obtidas pela Associated Press não mostrarem grandes danos visíveis nos navios”.

Dois barcos eram supostamente sauditas, um dos Emirados e outro norueguês.

Um funcionário dos Estados Unidos em Washington, sem apresentar qualquer prova, disse à AP que a avaliação inicial feita por uma equipa militar norte-americana revelou que iranianos ou aliados iraquianos do Irão usaram explosivos para danificar os navios”. 

A Associated Press prossegue a notícia:

“Os Estados Unidos já tinham advertido os navios de que ‘o Irão ou entidades ligadas a este país’ poderiam estar a visar o tráfego marítimo na região. Washington instalou um porta-aviões e bombardeiros B-52 no Golfo para combater ameaças iranianas ainda não especificadas”.

Por tudo isto, é muito provável que o recente incidente venha a ser ainda mais explorado pelos Estados Unidos para continuarem a aumentar as suas forças militares na região, pressionando o Irão e deixando o mundo inteiro muito mais perto de uma guerra contra este país.

Os Estados Unidos têm vindo a mobilizar forças militares em toda a região do Médio Oriente para participarem em guerras por procuração contra o Irão e seus aliados, além de estarem a preparar-se para uma guerra convencional contra Teerão.

O cenário agora reforçado com novos acontecimentos traduz um impulso renovado em direcção a um conflito mais directo entre os Estados Unidos e o Irão depois de anos de guerra por procuração contra a Síria, onde as forças apoiadas por Washington definitivamente perderam.

É também a continuação da política externa norte-americana de longa data contra o Irão que foi posta em movimento há mais de uma década e seguida por todas as presidências.

Planos de Washington a longo prazo

As sanções contínuas e o encerramento do período de excepção fazem parte da situação criada pela retirada unilateral norte-americana do Plano de Acção Integral Conjunta (JCPOA ou 5+1), conhecido ainda como “Acordo Nuclear do Irão”. O acordo foi assinado em 2015 e os Estados Unidos retiraram-se em 2018.

Embora a decisão seja interpretada como traduzindo diferenças políticas entre Barack Obama e o actual presidente, Donald Trump, na realidade a proposta de acordo, a sua assinatura e posterior retirada foram planeadas ao pormenor já em 2009 como meio de justificar a muito procurada guerra contra o Irão.

No seu artigo de 2009 intitulado “Que caminho para a Pérsia? Opções para uma nova estratégia norte-americana em relação ao Irão”, a Brookings Institution, um think tank financiado pelas grandes corporações, reconhece, em primeiro lugar, os problemas da uma agressão militar dirigida pelos Estados Unidos contra o Irão:

“Qualquer operação militar contra o Irão será provavelmente muito impopular em todo o mundo e exigirá um contexto internacional apropriado – tanto para garantir o apoio logístico que a operação exige como para minimizar os efeitos da resposta”.

O documento revela então de que maneira os Estados Unidos podem apresentar-se ao mundo como pacificadores, expondo a traição do Irão em relação a “um muito bom acordo” como pretexto para uma resposta militar norte-americana, ainda que relutante:

“A melhor maneira de minimizar a impopularidade internacional e maximizar o apoio (mesmo relutante ou encoberto) é atacar o Irão apenas quando houver uma convicção generalizada de que os iranianos tiveram em mãos, mas rejeitaram, uma oferta soberba, tão boa que só um regime determinado a adquirir armas e a adquiri-las pelas razões erradas iria desprezar. Nessas circunstâncias, os Estados Unidos (ou Israel) poderiam apresentar as suas operações como motivadas pela tristeza, não pela raiva, e pelo menos alguns sectores da comunidade internacional concluiriam que os iranianos ‘foram vítimas de si próprios’ recusando um bom acordo”.

E, a partir de 2009, foi precisamente isso que os Estados Unidos se propuseram alcançar. 

Em primeiro lugar, com a assinatura do Acordo Nuclear pelo presidente Obama, incluindo depois as diligências do presidente Trump para voltar atrás com base em alegações falsas de que Teerão não honrou o acordo.

A falsidade destas alegações foi mais uma vez ilustrada há poucos dias com a publicação de mais um relatório trimestral das inspecções da Agência Internacional de Energia Atómica testemunhando que o Irão se mantém dentro dos termos do acordo.

O documento de 2009 também se orientou no sentido do “incitamento” à guerra por parte do Irão:

“Com uma provocação, as exigências políticas e diplomáticas internas e internacionais relacionadas com as consequências de uma invasão seriam mitigadas, e quanto mais grave fosse a provocação iraniana (quanto menos os Estados Unidos precisassem de acusar o Irão) menos impacto teriam essas exigências. Na falta de uma provocação suficientemente emotiva, ter de respeitar os requisitos internacionais seria desanimador”.

Não mencionando directamente a hipótese, mas sendo esse um método óbvio para alcançar o objectivo de provocar uma guerra contra o Irão, fica clara a possibilidade de os Estados Unidos encenarem “uma provocação iraniana”.

Com o que os Estados Unidos fizeram no Vietname, após o incidente no Golfo de Tonquim, ou com as “armas de destruição massiva” que o Iraque teria em seu poder, os Estados Unidos têm um conhecido histórico de encenação de pretextos e provocações.

O documento da Brookings Institution chega a admitir a improbabilidade de o Irão cair nas armadilhas norte-americanas:

“… No caso de Washington pretender tal provocação, poderia tomar acções que tornassem mais provável a possibilidade de o Irão a fazer (embora o risco de o processo ser demasiado óbvio poder anular a provocação). No entanto, se for deixado apenas ao Irão o movimento de criação da provocação, uma coisa em relação à qual o Irão tem sido muito reservado no passado, os Estados Unidos nunca saberão ao certo se virão a dispor da necessária provocação iraniana. De facto, ela poderá mesmo não acontecer de todo”.

A alegada sabotagem de petroleiros ao largo da costa dos Emirados Árabes Unidos e os “ataques” mais recentes podem ser o início de uma série de provocações encenadas com o objectivo de tirar proveito da recente inclusão dos “Guardas da Revolução” na lista de organizações terroristas; e também para alavancar a pressão económica como resultado das sanções reiniciadas com o abandono unilateral do Acordo Nuclear.

Sinergias de guerra

Os Estados Unidos já tentaram anteriormente tirar partido da “sabotagem iraniana” de Maio para continuar a construir o seu caso contra o Irão. Washington espera que a guerra – ou, pelo menos, a ameaça iminente de guerra – associada a sanções económicas incapacitantes e ao apoio contínuo à sedição armada no interior do próprio Irão possa criar as sinergias necessárias para dividir e destruir a ordem política no país.

Num contexto regional mais amplo, os Estados Unidos têm vindo a sofrer perdas políticas, sobretudo no Iraque, onde a influência política iraniana tem aumentado. Militarmente, os grupos armados apoiados por Washington foram derrotados na Síria, onde tanto o Irão como a Rússia estabeleceram significativos e permanentes pontos de apoio.

Apesar destes contratempos, o êxito dos planos norte-americanos contra Teerão ainda depende muito da capacidade dos Estados Unidos de oferecerem incentivos políticos e económicos, em paralelo com ameaças efectivas, a amigos e inimigos – a fim de isolar o Irão.

A probabilidade de esta estratégia ser bem-sucedida continua a ser uma incógnita: décadas de sanções norte-americanas, agressão encoberta e aberta e guerras por procuração deixaram o Irão resistente e com uma influência em toda a região maior do que nunca.

A retirada unilateral do Acordo Nuclear, a persistente presença militar norte-americana no Médio Oriente e as sanções revelam que os criadores de políticas dos Estados Unidos continuam dedicados a isolar e enfraquecer o Irão. Continuarão a fazê-lo até que as suas metas geopolíticas sejam alcançadas ou então que uma nova ordem internacional seja capaz de criar condições no Médio Oriente, e em toda a economia global, que tornem impossível e mudança de regime no Irão provocada pelos Estados Unidos.




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