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“NITRO ZEUS” E O APAGÃO NA VENEZUELA

Familiares de um doente tentam encontrar caminho num hospital de Caracas durante o apagão de 7 de Março (Ariana Cubillos, AP)

2019-03-15

A Venezuela e o seu povo estão a ser submetidos a profundas e prolongadas faltas de energia eléctrica que afectam milhões de pessoas e o funcionamento dos serviços essenciais, como os de alimentação e saúde. As investigações sobre as causas do fenómeno conduzem, sem qualquer dúvida, à ocorrência de uma nova fase da guerra terrorista conduzida contra a Venezuela pelos Estados Unidos e os seus agentes internos, à cabeça dos quais se encontra o “presidente interino” Juan Guaidó. A ocasião parece propícia para desvendar a existência do projecto de agressão imperial conhecido pelo nome de código “Nitro Zeus”.

Whitney Webb, MintPress/O Lado Oculto

Durante quase quatro dias, grande parte da Venezuela esteve sem energia, situação que paralisou a economia do país. Embora o abastecimento esteja a regressar – e o governo de Caracas tenha recebido ofertas de ajuda de muitos países, designadamente da China – políticos e autoridades dos Estados Unidos aproveitaram os acontecimentos para acusar o executivo de Nicolás Maduro pela crise; este, por seu turno, não tem dúvidas de que se trata de “sabotagem” de origem norte-americana, realizada através de ataques cibernéticos contra a rede de energia, utilizando também agentes infiltrados dentro de Venezuela.
Embora muitos meios de comunicação norte-americanos tenham feito apenas eco da versão oficial do governo de Washington, até alguns jornalistas de meios mainstream se afastaram desta corrente. Um notável exemplo é o de Kalev Leetaru, ao escrever na revista Forbes que a possibilidade de “intervenção remota dos Estados Unidos na rede energética venezuelana é, de facto, bastante realista”.

Planos de guerra híbrida

Leetaru observou também que “o momento em que os apagões acontecem, numa fase de agitação social criada para retirar legitimidade ao governo em funções, de modo a permitir a imposição de um governo alternativo, é, na verdade, uma das táticas previstas” nos planos de guerra híbrida do governo dos Estados Unidos; estes deverão contribuir “para enfraquecer um adversário antes da invasão convencional ou para efectuar uma mudança forçada e indiscutível de um governo estrangeiro”.
Para lá das afirmações de Leetaru, outros jornalistas abordaram o possível envolvimento da administração Trump depois de constatarem que o senador Marco Rubio – profundamente envolvido na política do presidente contra a Venezuela – pareceu ter conhecimento prévio do apagão, uma vez que publicou um tweet sobre o assunto apenas três minutos depois de o corte de energia ter sido efectuado.
Embora vários jornalistas tenham abordado a alta possibilidade de o governo Trump ser responsável pelo blackout, poucos – ou nenhum – revelaram que os Estados Unidos têm planos muito avançados para recorrer a ataques cibernéticos contra infraestruturas críticas de redes eléctricas em países que são alvo de operações de mudança de regime por parte de Washington.

Primeiro foi o Irão…

O mais conhecido programa desse tipo tem o nome de código “Nitro Zeus”, foi criado durante o governo de George W. Bush e teve como alvo original o Irão. Com tantos ex-funcionários de Bush dando agora ordens na administração Trump, especialmente na política para a Venezuela, o possível retorno do vírus “Nitro Zeus”, desta feita concebido por medida para a situação venezuelana, parece cada vez mais provável.
A existência do projecto “Nitro Zeus” tornou-se do conhecimento público em Novembro de 2016, quando o New York Times o descreveu como um “plano elaborado” para usar contra o Irão porque as negociações sobre o programa nuclear deste país falharam. O programa teve como alvo “as defesas aéreas do Irão, sistemas de comunicações e partes cruciais da sua rede eléctrica”. No ponto mais alto da sua aplicação “envolveu milhares de militares norte-americanos e pessoal de inteligência”, acreditando-se que tenha custado dezenas de milhões de dólares. A acção mobilizou intimamente a unidade de operações de acesso sob medida da Agência Nacional de Segurança (NSA) e o Ciber-Comando dos Estados Unidos.
O programa foi desactivado quando se concretizou o Plano de Acção Integral Conjunto (JCPOA ou 5+1); porém, quando o governo de Trump decidiu retirar-se unilateralmente do acordo voltaram a surgir especulações sobre a sua reactivação. Embora isso possa não ter acontecido em relação ao Irão, existe a possibilidade de ter sido adaptado à Venezuela, em função das acusações proferidas pelo governo de Caracas sobre um ataque cibernético feito pelos Estados Unidos.
De facto, Kalev Leetaru sublinhou no seu recente artigo na Forbes que, “dada a preocupação de longa data do governo dos Estados Unidos com o governo da Venezuela, é provável que Washington mantenha já uma presença profunda nas infraestruturas da rede energética nacional”, como aconteceu com o programa “Nitro Zeus” para o Irão.
Este programa “Nitro Zeus” não é tão conhecido como o seu parente Stuxnet, desenvolvido em conjunto pelos Estados Unidos e Israel para ser usado contra o software iraniano que controla as centrais de enriquecimento de urânio. No entanto, apesar da sua relativa falta de fama, o “Nitro Zeus” é notável por várias razões.

Novo patamar de guerra cibernética

Em primeiro lugar, “elevou as guerras cibernéticas praticadas pelos Estados Unidos para um novo nível”, de acordo com um ex-funcionário do projecto citado pelo New York Times. Porque, antes dele, “os Estados Unidos nunca tinham montado um plano combinado de ataques cibernéticos e convencionais a essa escala; e também porque a execução do programa teria “efeitos significativos sobre civis, sobretudo se Washington tivesse de cortar muitos sectores das redes eléctrica e de comunicações do país”.
Outra razão pela qual o “Nitro Zeus” é notável, designadamente à luz dos esforços dos Estados Unidos para interferir na Venezuela, é o motivo da sua criação. De facto, embora o “Nitro Zeus” se tenha tornado, durante o governo Obama, o programa “enorme e enormemente complexo” pormenorizado pelo New York Times, a sua actividade tinha-se iniciado durante a administração de George W. Bush. De acordo com uma reportagem da publicação Daily Beast, Bush considerava o “Nitro Zeus” como “uma alternativa tática necessária depois de a guerra do Iraque ter sabotado as suas hipóteses de iniciar outra invasão no Médio Oriente”. Por outras palavras, após o desastre da guerra do Iraque, tornou-se mais difícil para os Estados Unidos lançar outras intervenções militares unilaterais; por isso, a administração optou por desenvolver ferramentas militares “não-convencionais” que não incomodem tanto a opinião pública nos Estados Unidos e nos países aliados.
Além disso, como escreveu Tyler Rogoway no Foxtrot Alpha:
“Programas como o ‘Nitro Zeus’ podem ser combinados com outros para obter sinergias, deixando os militares do país-alvo cegos e surdos e a população em sofrimento, o que pode ser alcançado sem nunca ter deixado cair uma bomba e até mesmo sob um plausível véu de negação”.
Estas características, segundo Rogoway, fizeram com que programas deste tipo se tornem “uma alternativa cada vez mais viável às formas tradicionais de ataque, uma vez que os Estados Unidos podem negar o seu envolvimento, evitando potenciais consequências diplomáticas, e porque podem causar danos não apenas na estrutura militar de um país mas também entre a sua população civil”.

Há planos para todas as contingências

Embora o “Nitro Zeus” nunca tenha sido utilizado contra o Irão, é provável que o programa tenha gerado alternativas semelhantes contra redes de energia de outras nações sob mira, tendo em vista o precedente estabelecido. Como o New York Times sublinhou nas suas páginas:

 “Os militares dos Estados Unidos desenvolvem planos de contingência para todos os tipos possíveis de conflitos, como um ataque norte-coreano contra a Coreia do Sul, a utilização de armas nucleares no Sudeste Asiático, revoltas em África ou na América Latina. A maioria desses planos fica na prateleira, mas são actualizados de tempos a tempos”.

Este ponto de vista foi desenvolvido por Rogoway, que escreveu:

“O ‘Nitro Zeus’ é, provavelmente, um dos muitos programas para atacar potenciais inimigos através de armas cibernéticas. Programas que certamente existem para todos os potenciais adversários dos Estados Unidos e, possivelmente, alguns serão muito mais elaborados e mortais do que qualquer coisa que tenha sido divulgada até agora”.

Existem mais do que simples indicações de que muitos “planos de contingência” mais agressivos passaram para o topo da caixa de ferramentas da administração Trump. Por exemplo, os principais ex-funcionários da administração Bush que estão agora na equipa de Trump, particularmente John Bolton e Elliot Abrams, são conhecidos pelas suas posições agressivas e pela disponibilidade de promoverem políticas extremas contra os adversários, recorrendo mesmo às que prejudicam ou matam numerosos civis inocentes. Assim sendo, vozes como aquelas que se ouviram no Departamento de Estado ou no Conselho de Segurança Nacional durante o tempo de Obama, alertando sobre os eventuais efeitos adversos que um apagão provocado pelo “Nitro Zeus” pode causar sobre civis, provavelmente não influenciarão Bolton e Abrams – que têm um papel de enorme dimensão na definição da política a aplicar contra a Venezuela.
Acresce que um programa como este tem tudo para ser considerado como valioso por Bolton e Abrams, da mesma forma que Bush valorizou o “Nitro Zeus” quando ficou “com as mãos amarradas” após o desastre da guerra do Iraque.

O passo mais provável

Em relação à Venezuela, Bolton e Abrams também parecem de mãos atadas em termos de uma operação militar, uma vez que a intervenção militar de qualquer tipo foi rejeitada, de maneira inequívoca, pelos aliados dos Estados Unidos na América Latina e noutros lugares. E não foi apenas isso que fracassou: o mesmo aconteceu em relação à tática favorita de Abrams, que é a de fornecer armas disfarçadas de “ajuda humanitária” aos insurgentes, restringindo as acções agressivas ao dispor da administração.
Perante a incapacidade de iniciar uma intervenção militar – aberta ou encoberta – o recurso a um ataque cibernético com o “Nitro Zeus” seria, provavelmente, o passo seguinte a dar depois do fracassado golpe da “ajuda humanitária” e da rejeição de qualquer tipo de intervenção militar por parte de aliados dos Estados Unidos.
Além de tudo isto, muitos dos responsáveis pela criação do “Nitro Zeus” partilham ligações com neoconservadores influentes na administração Trump. Por exemplo, Keith Alexander era director da NSA na época em que o “Nitro Zeus” começou a ser desenvolvido e desempenha agora as funções de presidente da administração da IronNet Cybersecurity, a sua nova empresa consultora de segurança cibernética. Sentado ao lado de Alexander na administração da IronNet está Jack Keane, um zeloso general na reserva que Trump aprecia a ponto de lhe ter oferecido o cargo de secretário da Defesa, que ele recusou. Keane é um colaborador próximo da família neoconservadora Kagan; actualmente é presidente do Instituto de Estudos de Guerra, fundado por Kimberly Kagan e financiado pelos principais fabricantes de armas dos Estados Unidos.

É obra de Trump

Uma vez que os belicistas da era Bush dominam agora a política de Trump para a Venezuela, parece cada vez mais provável que tenham existido esforços para ressuscitar o programa “Nitro Zeus” dos tempos de Bush e Obama. De facto, um programa tão complexo e de tanto impacto, reforçado com planos dele derivados e desenvolvidos na última década, poderiam constituir o caminho mais fácil para nova medida agressiva apoiada pelos Estados Unidos a adoptar contra a Venezuela.
No entanto, se os Estados Unidos estão a realizar ataques cibernéticos contra a rede energética venezuelana os culpados não são os poderosos neoconservadores integrados na administração Trump, uma vez que apenas o presidente pode autorizar operações ofensivas desse tipo. Portanto, se partes do apagão na Venezuela resultaram de sabotagem dirigida pelos Estados Unidos foi porque o presidente Donald Trump mandou atacar infraestruturas civis na Venezuela, coisa estranha para alguém que diz preocupar-se tanto com o povo venezuelano.




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