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AS FALÁCIAS TRÁGICAS DA GUERRA E DO TERRORISMO

Sem palavras

2019-01-04

Craig Murray*, Reino Unido; edição O Lado Oculto   

Até mesmo um órgão oficioso  dos belicistas neoconservadores como The Guardian, furioso com as tentativas de Trump para retirar as tropas norte-americanas da Síria, apenas conseguiu produzir um curto e incerto risco de tinta numa pequena faixa de território para ilustrar num mapa o seu argumento de que o ISIS ou “Estado Islâmico” ainda controla a fronteira iraquiana da Síria.

Claro que The Guardian defende que a presença militar dos Estados Unidos é necessária para garantir que o ISIS não readquira vida plena na Síria. Mas a falência deste argumento pode ser facilmente demonstrada. No Afeganistão, os Estados Unidos conseguiram arrastar o longo processo de derrota mais até do que no Vietname, sendo que a presença de tropas norte-americanas de ocupação é o processo mais eficaz de recrutamento da resistência. Já anteriormente demonstrei como as linhas das frentes de guerra das alianças tribais são hoje precisamente as mesmas que os britânicos enfrentaram em 1841, apenas com os rótulos “Talibãs” colados nos espaços onde a resistência nacional enfrenta os invasores.

Esquizofrenia não é solução

O segredo para acabar com a existência do ISIS na Síria não é a presença contínua de tropas norte-americanas. O segredo é conseguir que os aliados cada vez mais próximos dos Estados Unidos, a Arábia Saudita e outros Estados do Golfo, cortem as principais vias de abastecimento de dinheiro e arma, que desde a origem, e durante muito tempo, tiveram uma forte componente norte-americana. A existência de uma aliança entre os Estados Unidos, a Arábia Saudita e Israel contra o Irão é hoje o factor geopolítico mais importante da região. Já é tempo de esta aliança deixar de financiar o ISIS e de fingir que o combate; a esquizofrenia não pode ser uma atitude de política externa. 
Durante os anos mais recentes não tem havido significativo terrorismo islâmico xiita ou qualquer outro tipo de ameaça desse tipo contra o Ocidente. O 11 de Setembro foi realizado por terroristas sauditas sunitas. A al-Qaida, o ISIS, a al-Nusra, o Boko Haram são grupos sunitas, todos eles patrocinados pela Arábia Saudita. É uma questão de loucura o facto de o Ocidente ter convencionado que a ameaça no Médio Oriente é o Irão, país que não patrocinou qualquer ataque contra alvos ocidentais nos tempos mais recentes.

A ambição do caos

A origem dessa convenção parece residir no facto de o grupo xiita libanês Hezbollah ter provado ser, entre os vizinhos de Israel, o único capaz de deter uma invasão israelita. Depois da sua desastrosa invasão do Iraque, os Estados Unidos decidiram apoiar os jogos de poder regionais da Arábia Saudita por causa dos equilíbrios governamentais em Bagdade, mas essa opção progride em escalada para um ponto de ruptura desde que Riade caiu nas mãos do belicista psicopata Mohamed bin Salman.
O caos resultante dessa estratégia incoerente e contraproducente é o que os neoconservadores realmente querem. Guerra perpétua e desestabilização no Médio Oriente é o seu objectivo. Uma das descobertas inesperadas que fiz ao realizar a investigação comparada de situações no Afeganistão foi a de que, já em 1836, os britânicos exploraram e exacerbaram a divisão entre sunitas e xiitas para os seus propósitos imperiais. Hoje, mantendo as populações árabes na pobreza e politicamente divididas os neoconservadores acreditam que reforçam a segurança de Israel e facilitam assim o acesso de empresas ocidentais ao petróleo e gás na região, como acontece através das desestabilizações do Iraque e da Líbia.
Os Clinton e Blair foram os dirigentes da apoteótica captura dos principais partidos “de esquerda” para o cumprimento dessa agenda neoimperialista no Médio Oriente. Sanders, Trump e Corbyn foram os primeiros políticos com algumas hipóteses de poder em muitas décadas que não pareciam e não parecem dispostos a cumprir essa agenda neoconservadora. A falta de entusiasmo inicial de Trump pela política de estilo guerra fria foi neutralizada antes de qualquer acção ser possível pela ridícula mentira da interferência da Rússia na sua eleição. Além disso, a sua ganância conduziu-o a acordos com a Arábia Saudita que minaram, em grande parte, as suas declaradas preferências pelo não-intervencionismo. E agora, na Síria, o simples indício de que Trump pode não estar totalmente comprometido com a procura de uma guerra perpétua coloca todo o establishment neoconservador, os media mainstream e as habituais ONG’s unanimemente alvoroçados de ambos os lados do Atlântico.

Um trágico empate

Antes de Trump se ter transformado num presidente podre para os norte-americanos escrevi que ele, ao menos, não iniciou uma guerra, coisa que Hillary Clinton certamente já teria feito. Para um não-norte-americano, a escolha entre Hillary Clinton e Donald Trump terminou com um empate: de um lado, uma nova tragédia de milhões de pessoas mortes e mutiladas no Médio Oriente e o lançamento, sem reservas, de uma nova guerra fria; e, do outro, o aumento das dificuldades dos norte-americanos, empobrecidos, com menos cuidados de saúde, péssimos apoios sociais e a adopção de políticas de imigração racistas. Ao menos que a barragem neoconservadora actual, defendendo tropas norte-americanas no Médio Oriente, ajude as pessoas a lembrar-se de quão pouco atraente é também o lado de Hillary Clinton desta equação.
O quadro é também muito útil para demonstrar a inacreditável unanimidade existente no Reino Unido entre a classe política, os media e as ONG’s compradas e pagas.

*Analista geoestratégico e activista dos direitos humanos; ex-embaixador britânico no Uzbequistão (2002-2004)



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