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A COMISSÃO EUROPEIA É ELE

Em primeiro plano, embora prefira a sombra dos bastidores

2018-12-27

José Goulão, com Pilar Camacho, Bruxelas

A Comissão Europeia é ele. Entrou por golpe palaciano; o Parlamento Europeu exige-lhe, provavelmente em vão, que se vá embora; nenhum comissário lhe faz frente; chamam-lhe “O Monstro”,"Rasputine de Bruxelas", põe e dispõe de Juncker enquanto este titubeia de reunião em reunião, está de pedra e cal e dispôs as pedras do xadrez para assegurar o futuro. Martin Selmyr – secretário-geral da Comissão, alemão, ao serviço do governo alemão, num órgão alemão que dirige uma comunidade germânica.

Martin Selmyr personifica como poucos o que é a Comissão Europeia, a sua relação com os cidadãos, com os restantes órgãos da União, com as leis que a deveriam reger: uma autocracia burocrática e tecnocrática.
O Parlamento Europeu chegou agora à conclusão, por esmagadora maioria, de que Martin Selmyr “deve demitir-se”. Do cargo oficial que desempenha, o de secretário-geral da Comissão Europeia, porque “não respeita os princípios da transparência, da ética e do Estado direito”. Uma coisa é o Parlamento decidir e outra coisa, nesta União Europeia, seria o Parlamento alimentar a ilusão de que a sua exigência irá cumprir-se. Era como acreditar no Pai Natal.

“O Monstro”

Martin Selmyr é secretário-geral mas também chefe de gabinete, de facto, do presidente da Comissão Europeia, seu enviado para as negociações internacionais. Entrou em Fevereiro de 2018 mercê de um golpe palaciano logo denunciado em Abril pelo Parlamento Europeu, mas sem quaisquer consequências práticas.
Está em toda a parte, desmantelou os serviços jurídicos da Comissão, distribuiu cargos pelos seus peões, afastou quem não lhe convinha ou não lhe agradava, comanda os múltiplos processos de caça às bruxas. Faz tudo o que interesse ao governo alemão: quando Donald Trump decidiu carregar os produtos europeus com tarifas alfandegárias foi Selmyr quem realmente negociou com Washington a isenção temporária dos seus efeitos sobre a indústria automóvel, isto é, os grandes impérios alemães do sector. Selmyr cedo granjeou o cognome de “O Monstro”, com o qual vive confortavelmente.
Na posição tomada em Abril, o Parlamento Europeu “lamentou vivamente” que a Comissão tenha decidido manter Selmyr no cargo, “apesar das numerosas críticas dos cidadãos da União e dos prejuízos que tem causado ao prestígio da União”. Há um óbvio exagero de avaliação do Parlamento Europeu, porque ninguém desprestigia mais a União do que o seu próprio funcionamento geral, mas não foi certamente por isso que Selmyr prosseguiu e prossegue a sua tarefa.
Já com os olhos no futuro próximo, em que vai haver eleições e mudanças em alguns órgãos da União, que não seguramente nos seus procedimentos e guiadas pela vontade dos cidadãos.

Um homem com futuro

Martin Selmyr foi-se prevenindo a tempo. Contribuiu a fundo para que o principal candidato a substituir Jean-Claude Juncker seja o direitista alemão Manfred Weber, com o qual terá o cargo de secretário-geral assegurado por inerência. Um dos seus principais parceiros políticos alemães, na esteira de Angela Merkel e respectiva sucessora, é o ministro da Economia, Peter Altmaier, que deverá ser o próximo comissário alemão.
Porém, pode dar-se o caso – improvável, é certo – de o próximo presidente da Comissão não ser alemão, mas sim francês. Ao contrário das previsões iniciais perante eventuais favoritos, o principal candidato dessa área é agora Michel Barnier, sobretudo depois de ser o titular da pasta de negociação do Brexit, que caiu nas suas mãos graças aos esforços diligentes de Martin Selmyr.
Entretanto, prevenindo-se de uma hipotética derrota perante a França, a Alemanha conseguiu um antídoto nos bastidores palacianos: garantir o cargo de secretário-geral da Comissão para um alemão, isto é, Martin Selmyr, a quem Michel Barnier deve o grande favor da ascensão. Uma mão não se lava sozinha…
A política da Comissão Europeia é ele, Martin Selmyr. E assim se faz a política da União Europeia, em nome, naturalmente, dos cidadãos, da democracia e dos direitos humanos.
Martin Selmyr é o homem certo, no lugar certo, por ser o mais apetrechado para lá chegar. Não apenas por ser alemão, requisito indispensável; mas também porque é, segundo as palavras com as quais se apresenta a visitantes, “o homem mais inteligente da Comissão”, e também aquele sem o qual “nada disto funcionava”.



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