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BRUXELAS USA O BREXIT PARA IMPEDIR SECESSÕES

A humilhação de Theresa May em Salzburgo

2018-12-13

Thierry Meyssan, Reseau Voltaire/O Lado Oculto

Os povos dos Estados membros da União Europeia não parecem estar conscientes das nuvens negras que se concentram sobre as suas cabeças. Mesmo que tenham identificado os graves problemas da União Europeia, abordam-nos com desenvoltura e não compreendem o que está em jogo na secessão britânica, o Brexit. Afundam-se lentamente numa crise que poderá não ter saída, a não ser a violência.

A origem do problema

Durante o processo de dissolução da União Soviética, os membros da Comunidade Europeia aceitaram vergar-se perante os Estados Unidos e integrar os Estados da Europa Central, embora sabendo que não correspondiam a qualquer dos critérios lógicos de adesão. Foi assim que adoptaram o Tratado de Maastricht, que fez transitar o projecto europeu de uma cooperação económica de Estados para um Estado supranacional.
Tratou-se de criar um vasto bloco político que, sob a protecção militar dos Estados Unidos, iria entrar, juntamente com este país, nos caminhos da prosperidade.
Este super-Estado nada tem de democrático. É administrado por um colégio de altos funcionários, a Comissão, cujos membros são designados individualmente por cada um dos chefes de Estado e de governo. Na História, não existe qualquer exemplo de um Império que tenha funcionado desta maneira.
O modelo paritário da Comissão rapidamente desembocou numa gigantesca burocracia paritária, na qual alguns Estados são “mais iguais que outros”.
O projecto supranacional revelou-se desadequado do mundo unipolar. A Comunidade Europeia saíra do pacote civil do Plano Marshall, no qual a NATO era o pacote militar. As burguesias da Europa Ocidental, inquietas com o modelo soviético, tinham-no apoiado desde o congresso convocado por Winston Churchill em Haia, em 1948. E deixaram de ter interesse em seguir este caminho depois do desaparecimento da União Soviética.
Os Estados do Tratado de Varsóvia hesitaram entre comprometer-se com a União ou aliar-se directamente aos Estados Unidos. A Polónia, por exemplo, usou os fundos que a União lhe atribuiu para modernizar a agricultura comprando aviões militares que utilizou no Iraque.
Além do estabelecimento de uma cooperação policial e judiciária, o Tratado de Maastricht criou uma moeda única e uma política externa comum. Todos os Estados membros deveriam adoptar o euro desde que as suas economias nacionais o permitissem. Apenas a Dinamarca e o Reino Unido tiveram consciência dos problemas que isto representava e preferiram manter-se à parte. A política externa parecia óbvia, num mundo que se tornou unipolar e dominado pelos Estados Unidos.
Tendo em conta as diferenças no interior da Zona Euro, os pequenos Estados iriam tornar-se presas do maior, a Alemanha. A moeda única, que no momento em que entrou em circulação foi ajustada ao dólar, transformou-se progressivamente numa versão internacionalizada do marco alemão. Incapazes de rivalizar, Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha foram simbolicamente qualificados como PIGS (“porcos”) nos círculos financeiros. Enquanto Berlim pilhava as suas economias, propunha a Atenas restaurar a sua em troca de parte do território. A adesão à União Europeia, representando uma vantagem para os ex-membros do Tratado de Varsóvia, tornou-se um fardo para os países da Europa Ocidental.
Verificou-se que a União Europeia, embora acompanhando o crescimento económico global, foi ultrapassada por outros Estados cujo crescimento era várias vezes mais rápido.
Extraindo as suas lições deste fracasso, o Reino Unido decidiu retirar-se deste super-Estado (Brexit) para se aliar aos parceiros históricos da Commonwealth e, se possível, com a China. A Comissão receou que esta via abrisse caminho a outras saídas ponto em causa não o Mercado Comum, mas sim a União. Decidiu, portanto, estabelecer exigências dissuasoras das saídas.

Os problemas internos do Reino Unido

Como a União Europeia serve os interesses dos ricos contra os pobres, os britânicos mais desfavorecidos votaram pela saída enquanto o sector terciário se pronunciou pela manutenção.
Como a sociedade britânica, tal como as de outros países europeus, tem uma grande burguesia que deve o enriquecimento à União Europeia, possui também, ao contrário de outros grandes países europeus, uma poderosa aristocracia. Esta dispunha, de antes da Segunda Guerra Mundial, de todas as vantagens que a União Europeia proporciona, mas também de uma prosperidade que já não pode esperar de Bruxelas.
Portanto, a aristocracia votou pelo Brexit contra a grande burguesia, abrindo uma crise no seio da classe dirigente.
O objectivo da escolha de Theresa May como primeira-ministra foi o de preservar os interesses das duas partes (“Global Britain”). Mas as coisas não se passaram como foi previsto.
- Em primeiro lugar, May não conseguiu concluir um acordo preferencial com a China e enfrenta dificuldades com a Commonwealth, cujos laços o tempo foi tornando mais fracos.
- Depois, está a ter dificuldades com as minorias escocesa e irlandesa, se bem que a sua maioria governamental inclua os protestantes irlandeses agarrados aos seus privilégios.
- Além disso, deparou com a intransigência cega de Berlim e Bruxelas.
- Por fim, tem de fazer frente ao facto de a “relação especial” do seu país com os Estados Unidos estar a ser posta em causa.

O problema da aplicação do Brexit

Depois de ter tentado, em vão, vários arranjos nos tratados, o Reino Unido votou democraticamente pelo Brexit em 23 de Junho de 2016. A grande burguesia, que não acreditava que isso acontecesse, tentou imediatamente por em causa a decisão. Falou-se na organização de um segundo referendo, como tinha acontecido com a Dinamarca em relação ao Tratado de Maastricht.
Como isso parecia impossível, passou a haver uma distinção entre um “Brexit duro” (sem novos acordos com a UE) e um “Brexit suave” (com a manutenção de alguns compromissos). A imprensa assegura que o Brexit será uma catástrofe económica para os britânicos. Na verdade, os estudos anteriores ao referendo e, portanto, a este debate, atestam todos que os dois primeiros anos após a saída serão recessivos, mas que o Reino Unido não tardará a recuperar e a ultrapassar a União. A oposição ao resultado do referendo – portanto, à vontade popular – conseguiu perturbar a sua aplicação. O governo notificou a Comissão sobre a saída britânica com nove meses de atraso, em 29 de Março de 2017.
A 14 de Novembro de 2018 – isto é, dois anos e quatro meses após o referendo – Theresa May capitula e aceita um mau acordo com a Comissão Europeia. Contudo, quando o apresenta ao seu governo, sete dos ministros demitem-se, entre eles o que tem a pasta do Brexit. Manifestamente, ignorava elementos do texto que a primeira-ministra lhe atribui.
Este documento contém uma disposição totalmente inaceitável por um Estado soberano, seja ele qual for. Institui um período de transição sem prazo de duração e durante o qual o Reino Unido não será considerado membro da União, embora seja obrigado a curvar-se às suas regras, incluindo as que forem entretanto adoptadas.
Por detrás desta decisão escondem-se a França e a Alemanha.
Desde que foi conhecido o resultado do referendo, a Alemanha ficou consciente de que o Brexit provocaria uma quebra de dezenas de milhares de milhões de euros do seu próprio PIB. O governo de Merkel, em vez de adaptar a sua economia dedicou-se a sabotar a saída do Reino Unido.
Quanto ao presidente francês, Emmanuel Macron, representa a grande burguesia europeia. Opõe-se, por natureza, ao Brexit.

Os homens por detrás das políticas

A chanceler Merkel contou com o presidente da União, o polaco Donald Tusk. Este não ocupa o posto por ter sido antigo primeiro-ministro do seu país, mas por duas razões: a sua família pertence à minoria cassúbia e, durante a guerra fria, colocou-se ao lado dos Estados Unidos contra a União Soviética; por outro lado, é um amigo de infância de Angela Merkel.
Tusk começou por colocar a questão dos compromissos britânicos nos programas plurianuais adoptados pela União. Se Londres fosse obrigada a pagar o que se comprometeu a financiar então não poderia deixar a União sem liquidar um direito de saída compreendido entre 55 e 60 mil milhões de libras.
O antigo ministro e comissário francês Michel Barnier foi designado chefe dos negociadores com o Reino Unido. Barnier tem inimigos que cheguem na City, que tratou mal durante a crise de 2008. Além disso, os financeiros britânicos sonham em estabelecer a convertibilidade do yuan chinês em euros.
Barnier aceitou a alemã Sabine Weyand como adjunta. Na realidade, foi esta quem conduziu as negociações e provocou o seu fracasso.
Simultaneamente, o homem que “fez” a carreira de Emmanuel Macron, o antigo chefe da Inspecção de Finanças, Jean-Pierre Jouyet, foi nomeado embaixador de França no Reino Unido. É um amigo de Barnier, com quem geriu a crise monetária de 2008. Para provocar o falhanço do Brexit, Jouyet apoia-se no dirigente conservador de oposição a Theresa May, o presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Comuns, Tom Tugendhat.
Jouyet escolheu como sua adjunta na Embaixada de França em Londres a antiga aluna da Escola de Administração Nacional Francesa e esposa de Tugendhat, Anissia Tugendhat.
A crise cristaliza-se durante a reunião do Conselho Europeu em Salzburgo, em Setembro de 2018. Theresa May apresenta o consenso que conseguira estabelecer em Londres e que outros teriam interesses em tomar como exemplo: o Plano Chequers, acordado na casa de campo dos primeiros-ministros britânicos (manter unicamente o mercado comum entre as duas entidades, mas não a livre circulação de cidadãos, serviços e capitais e deixar de se submeter à justiça administrativa europeia do Luxemburgo). Donald Tusk rejeitou agressivamente o plano.
Tornou-se então necessário um recuo. Os acordos que puseram termo à revolta do IRA contra o colonialismo inglês não resolveram as causas do conflito. A paz apenas foi instaurada porque a União Europeia permitiu revogar a fronteira entre as duas Irlandas. Tusk exige que para prevenir o ressurgimento desta guerra de libertação nacional a Irlanda do Norte se mantenha na União Aduaneira. O que implica a criação de uma fronteira criada pela União, cortando o Reino Unido em dois, separando a Irlanda do Norte do resto do país.
Durante a segunda reunião do Conselho, perante todos os chefes de Estado e de governo, Tusk fechou a porta na cara de May, deixando-a sozinha do lado de fora. Uma humilhação pública que não poderá ficar sem consequências.
Reflexões sobre a secessão da União Europeia
Todo este cozinhado demonstra a capacidade dos dirigentes europeus para dar troco. Aparentam respeitar as regras da imparcialidade e decidir colectivamente tendo como objectivo único servir o interesse geral (mesmo que esta noção seja refutada pelos próprios britânicos).
Na realidade, alguns defendem os interesses dos seus países em detrimento dos seus parceiros e outros os da sua classe em detrimento de todos os demais. O pior de tudo, evidentemente, é a chantagem exercida contra o Reino Unido: ou se submete às condições económicas de Bruxelas ou então a guerra de independência da Irlanda do Norte reavivar-se-á.
Este comportamento só poderá contribuir para acordar os conflitos inter-europeus que provocaram duas guerras mundiais; os conflitos que a União mascarou no seu próprio território, mas que não foram resolvidos e persistem no exterior da União.
Conscientes de que estão a brincar com o fogo, Emmanuel Macron e Angela Merkel evocaram subitamente a ideia da criação de um exército comum incluindo o Reino Unido. É verdade que se as três grandes potências se aliassem militarmente o problema ficaria resolvido. Mas esta ideia é impossível porque não se constrói um exército sem ter determinado quem será o chefe.
O autoritarismo do Estado supranacional tornou-se de tal ordem que criou três outras frentes durante as negociações sobre o Brexit. A Comissão abriu dois procedimentos de sanções contra a Polónia e a Hungria (a pedido do Parlamento Europeu), nações acusadas de cometerem violações sistemáticas dos valores da União; estes procedimentos têm o objectivo de colocar os dois Estados na situação do Reino Unido durante o período de transição: serem obrigados a respeitar as regras da União sem poderem determiná-las. Por outro lado, indisposto com as reformas em curso em Itália, que vão contra a sua ideologia, o Estado supranacional recusa a Roma o direito de adoptar um orçamento para conduzir a sua própria política.
O Mercado Comum da Comunidade Europeia permitiu reconciliar os europeus ocidentais entre si e reforçar a paz. A sua sucessora, a União Europeia, destrói esta herança, volta a dividir os europeus e vira-os uns contra os outros.

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