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A NATO NO DIVÃ: ESQUIZOFRENIA

A nova "ameaça russa": Putin mexendo os cordelinhos em todo o mundo, a começar pelo presidente dos Estados Unidos

2018-12-20

Patrick Armstrong*, Strategic Culture/O Lado Oculto

No seu site oficial, a NATO explica, com um lamento, os seus problemas com a Rússia:
“Há duas décadas que a NATO trabalha para construir uma parceria com a Rússia, desenvolvendo o diálogo e a cooperação prática em áreas de interesse comum. A cooperação foi suspensa em 2014, como resposta à intervenção militar russa na Ucrânia, mas os canais políticos e militares de comunicação continuam abertos. As preocupações sobre o constante padrão desestabilizador das actividades militares e a retórica agressiva da Rússia vão muito além da Ucrânia.”

Nada disto acontece – é claro - por culpa da NATO; pelo contrário, a NATO está preocupada:
“As actividades militares da Rússia, particularmente ao longo das fronteiras da NATO, aumentaram e o seu comportamento continua a tornar o ambiente de segurança euro-atlântico menos estável e previsível, sobretudo a sua prática de fazer exercícios rápidos, de se deslocar para perto das fronteiras da NATO, de realizar formações e exercícios em grande escala, violando o espaço aéreo aliado.”
Será suficiente dizer que esta declaração teria uma relação muito mais próxima com a realidade se a expressão “fronteiras da NATO” fosse substituída por “no interior da Rússia”. Estaríamos até tentados a conhecer em pormenor o significado das palavras “violar o espaço aéreo aliado”. Porque o próprio jornal Daily Telegraph, numa sugestiva manchete de 2015 – “Quantas incursões no espaço aéreo da NATO foram feitas por militares russos?” – teve de admitir que “o Ministério da Defesa (britânico) afirma que os bombardeiros russos nunca violaram o espaço aéreo soberano da Grã-Bretanha, que se estende até 12 milhas náuticas da costa”. Porém, aviões russos violaram o espaço aéreo dos Estados Unidos 16 vezes nos últimos dez dias para testar respostas norte-americanas (Zero Hedge, 8/7/2014); se bem que, segundo um general da NATO, a maioria das vezes que aviões russos interceptam aviões nos países bálticos fazem-no “por engano”. De onde se pode aferir que as declarações da Aliança Atlântico necessitam de ser melhor calibradas quanto se trata de “violar o espaço aéreo dos Aliados”, porque pode tratar-se de voar no espaço aéreo internacional nas imediações dos espaços aéreos dos países aliados.

Mirando-se ao espelho

De tudo o que foi escrito e citado poderá deduzir-se que a NATO acusa a Rússia de: realizar exercícios militares no próprio território russo; voar em espaço aéreo internacional; apoiar movimentos secessionistas em territórios que não integravam a Jugoslávia ou não se situam no Médio Oriente e no Norte de África. A Aliança Atlântica acusa ainda Moscovo de invadir países que ela própria não invadiu primeiro. Isto é, a NATO projecta nos outros o seu próprio comportamento, manipula psicologicamente, ignora as objecções alheia depois de afirmar as suas convicções. Isto é a Natolândia, onde os unicórnios vagueiam livremente, sob sol radioso, até que o urso sorria.
Os membros da NATO sofrem de impressionante esquizofrenia: a Rússia é, simultaneamente, tão fraca que está “condenada” e tão forte que é capaz de destroçar a Natolândia.

Definitivamente condenada

A Rússia está infinitamente, eternamente condenada. Sempre à beira do colapso (Stop, 26/8/2015). Mas a Rússia há muito que está condenada (Time, 1927) e desmoronou-se em 2001 (The Atlantic). O seu destino está sempre em mãos alheias. Uma “sociedade aberta” condenou a Rússia ao fracasso? (Futurity, Setembro de 2012); a Rússia está condenada (The Diplomat, Março de 2014); também a aventura de Putin na Ucrânia está condenada (The Fiscal Times, Abril de 2014); tal como a sua estratégia nacionalista e de expansão está votada ao fracasso (Moscow Times, Setembro de 2014). Por isso, desculpe Putin, a economia da Rússia está condenada (Washington Post, Dezembro de 2014). Outra vez o Washington Post, mas em Janeiro de 2015: “Lembram-se da Rússia? Ainda está condenada”. Aliás a Morgan Stanley achava o mesmo no mês seguinte. E o secretário da Defesa em funções em Setembro de 2015 garantia que “a Rússia está condenada ao fracasso” na Síria; tal como a economia russa (The National Interest, Julho de 2016) e, por inerência, o acordo russo-saudita sobre o petróleo (Forbes, Setembro de 2016). A Newsweek, por seu lado, afiançava em Janeiro de 2017 que também “a ponte de Putin para a Crimeia está condenada ao colapso”, destino que parece igualmente reservado ao caça furtivo Su-57 (War is Boring, 2015).
O mal é epidémico; condenados estão igualmente o projecto académico 5-100 anunciado por Putin e até a equipa de futebol da Rússia. A economia russa parece condenada, insistia Mocronomics Global em Março de 2018, até chegar o momento de o Moscow Times sentenciar, em definitivo, que a Rússia está firmemente condenada a ficar para trás em relação ao resto do mundo (Outubro de 2018).

Um condenado com super-poderes

Com tamanha desgraça seria de pensar que ninguém tivesse preocupações com o que a Rússia será capaz de fazer; exceptuando, claro, o risco sofrer os efeitos dos estilhaços quando finalmente explodir. Um colapso, aliás, previsto há três anos, e com toda a confiança, por Alexander Motyl em Worl Affairs: fazendo dos seus desejos a fonte das suas previsões sentenciou que “a Rússia pode até desaparecer”.
Com o passar do tempo, a Ucrânia e a Rússia continuam a evoluir nas suas trajectórias. Mas em sentidos opostos. Enquanto a Ucrânia caminha lentamente, com maior ou menor segurança, adoptando uma série de reformas sistémicas que farão do país uma democracia comum de modelo ocidental, a Rússia está a transformar-se num Estado falhado. Se as tendências se mantiverem, razão terá quem previu o seu desaparecimento.
Surpreendentemente, porém, a Rússia tornou-se mais poderosa que nunca. Nem mesmo Estaline, nos seus sonhos mais loucos, imaginou escolher o presidente dos Estados Unidos da América. No entanto, foi isso que Putin conseguiu, mesmo à frente de um país a desmoronar-se, fraco e a morrer. “Vladimir Putin tem um plano para destruir o Ocidente – e esse plano parece-se muito com Donald Trump”, informou a publicação Slate em 4 de Julho de 2016. Trata-se de “minar os interesses norte-americanos e sobrepor-lhes os interesses russos”. Por isso, denuncia News Empires, “Trump é o aliado de Putin na guerra contra o Ocidente”.
Mas antes ainda de animar a sua “Trumpenpuppet”, já os tentáculos do presidente russo deslizavam pelos corredores de Washington. A muito credenciada Foreign Policy apurara em Junho de 2012 que “Putin tem a América exactamente onde quer, o que é uma má notícia para Obama”. Isto quer dizer que embora Putin nada tenha de génio, “apenas um outro Brejnev”, ainda segundo Foreign Policy, consegue introduzir marionetas na Casa Branca.
Mas não apenas aí. Mesmo com síndrome de Asperger, andar de pistoleiro e psicopata solitário, segundo o diagnóstico de Russia Observer, ele consegue estender a sua influência a toda a parte, através dos seus “idiotas úteis”. Brexit, eleições francesas, eleições italianas, eleições alemãs, eleições austríacas, eleições holandesas, próximas eleições no Canadá, separatismo catalão, coletes amarelos. O primeiro-ministro da Hungria é um putinista, garante a Newsweek. E mais, muito mais… Rússia e a ameaça à democracia liberal: como Vladimir Putin está a tornar o mundo seguro para uma autocracia, exploca The Atlantic. Ou, como garante a National Review, a imparável “guerra híbrida” de Putin armadilha a informação, a cultura e o dinheiro. Ou ainda, em estilo de remate pela NBC, o dedo de Moscovo está em fenómenos como os do separatismo desde a Irlanda do Norte ao Hawai, passando pela Catalunha, Porto Rico e até o Texas; e também nas movimentações de migrantes e nas actividades de grupos que tanto podem orientar-se como sendo de esquerda ou direita.
Parece que estamos condenados.
E nesta marcha de condenados quem será atingido primeiro pelo juízo final?

*Ex-analista do Departamento de Defesa Nacional do Canadá e conselheiro da Embaixada do Canadá em Moscovo. Analista de assuntos internacionais envolvendo a Rússia.



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