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GUERRAS DO GÁS AGRAVAM TENSÕES NO MEDITERRÂNEO

Navios turcos ameaçando a exploração de gás natural em zonas das águas de Chipre sobre as quais Ancara diz ter direitos

2018-12-06

Louise Nyman, Nicósia

Os conflitos em torno da exploração do gás natural do importante campo descoberto em 2011 no Mediterrâneo Oriental têm vindo a intensificar-se nos últimos meses, polarizados em posições antagónicas protagonizadas por Israel e a Grécia, por um lado, e a Turquia, pelo outro. O gás natural veio aumentar o potencial de conflitos em torno de Chipre, estendendo-se agora a outros países europeus e do Médio Oriente.

O Chipre, a Grécia, Itália e Israel estabeleceram recentemente um acordo para construção de um gasoduto comum no Mediterrâneo destinado a escoar o gás em exploração nos blocos já definidos no interior do campo de gás natural. Nos bastidores diplomáticos é ponto assente que o entendimento envolve outras partes, como o Egipto e o Hamas – neste caso, usurpando a parcela que caberia a toda a Palestina através de um acordo indirecto com Israel intermediado pelo Qatar. Este país e a União Europeia são os altos patrocinadores do negócio.
O gasoduto será a mais longa estrutura de sempre deste tipo em percurso marítimo. Custará oito mil milhões de dólares, ignora-se a data de início da construção e terá uma capacidade de transporte considerada modesta: 12 mil milhões de metros cúbicos por ano.
A Turquia, em princípio, não teria a ver com este campo. Mas como ocupa militarmente o Norte de Chipre, invoca os seus direitos através dos que dizem respeito à comunidade turca daquele território. Reivindica também que quatro dos blocos definidos estão no interior das suas fronteiras marítimas.
A marginalização de Ancara em relação ao negócio tem vindo a suscitar represálias que provocam tensão militar em vasta região do leste do Mediterrâneo.

Os velhos e o novo problemas de Chipre

O regime turco não reconhece o governo de Nicósia e, por inerência, a Zona Económica Exclusiva (ZEE) traçada para Chipre. Em Fevereiro, o governo de Ancara enviou um navio de guerra para impedir a empresa italiana ENI de fazer sondagens em águas do Norte de Chipre; a Itália reagiu imediatamente e enviou uma fragata para o local. Como existem outras empresas petrolíferas a fazer prospecção no campo, como a Total e a Exxon, se cada país de bandeira reagir da mesma maneira tudo indica que a situação venha a ter um reforçado potencial de conflito.
Posteriormente, o presidente Erdogan afirmou que não haverá exploração de gás nessa zona sem autorização do seu governo.


Além das áreas em torno do sector Norte da ilha de Chipre, o lado turco reivindica o direito de exploração de quatro (4,5,6,7) blocos dos 12 em que o campo de gás natural foi dividido até ao momento, alegando que estão no interior das suas fronteiras marítimas. Quando, no passado mês de Outubro, Chipre começou a exploração num desses blocos (7), a Turquia iniciou idênticas actividades em dois dos que lhe estão próximos e, para o efeito, enviou um barco para fazer a prospecção, enquadrado por quatro navios militares.
Nicósia e Atenas protestaram imediatamente, qualificando o acto como uma violação da ZEE cipriota; em 18 de Outubro, a Grécia acusou a Turquia de violar a sua plataforma continental com um dos navios, pelo que respondeu enviando a fragata Nikiforos para o expulsar. Ancara alega, por seu turno, que Atenas tem vindo a demarcar arbitrariamente as fronteiras marítimas na região. Dois países da NATO voltam, assim, a recorrer a meios militares para dirimir as suas múltiplas divergências, desta feita agravadas com a inclusão do gás natural.

O Hamas também ganha

As potenciais causas de conflito não ficam por aqui, a partir do momento em que passou a ser conhecido que o Hamas e o Egipto são partes secretas no acordo de gasoduto – o que coloca a União Europeia, como patrocinadora do negócio, na posição de parceira de um grupo que considera “terrorista”.
Ao invés, a Palestina, a Síria e o Líbano não estão envolvidos num acordo que lhes diz muito directamente respeito, porque o campo de gás natural se estende até às suas fronteiras.
O Hamas não pode assumir a totalidade dos interesses palestinianos, apesar de a situação dizer respeito às fronteiras da Faixa de Gaza, território que governa. O acordo implica que o Hamas aceitou as fronteiras marítimas definidas unilateralmente por Israel, servindo o Qatar como intermediário. Como contrapartida, Israel aceitou que o regime de Doha passe a substituir-se à Autoridade Palestiniana no pagamento dos salários da administração pública da Faixa de Gaza – o que isolou ainda mais o governo de Ramallah e, por outro lado, agrava as cisões no campo palestiniano. O gás palestiniano obtido nas águas territoriais de Gaza será exportado para Israel, que pagará os respectivos direitos incluídos nos financiamentos do Qatar ao Hamas.
Israel e o Egipto assinaram um acordo paralelo, envolvendo, do lado do Cairo, a empresa East Gas, que tem como accionista maioritário os serviços secretos egípcios. O gás será explorado por Israel, que o reencaminhará para o Egipto, onde será liquefeito e exportado.
Entre as retóricas contraditórias e o “pragmatismo” destes entendimentos prevalecem os interesses associados aos abastecimentos de energia, tudo sob a tutela geral da União Europeia e do Qatar, cada qual pretendendo assegurar, desde já, as respectivas vantagens.

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