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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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ESTRATÉGIA RUSSA AMEAÇA PETRÓLEO NORTE-AMERICANO

2020-03-19

Umberto Mazzei, America Latina en Movimiento/O Lado Oculto

As empresas petrolíferas norte-americanas estão lívidas de pânico ao inteirar-se de que a Rússia não fará cortes na sua produção. Há uma típica estratégia russa por detrás do anúncio de que Moscovo se negou a estabelecer um acordo para reduzir a produção de petróleo proposta pela Arábia Saudita na recente cimeira da OPEP+ em Viena.

A recusa da Rússia invalidou a proposta, o que provocou uma queda imediata de 10% dos preços nos mercados petrolíferos.

Alguns desses mercados registaram mesmo as suas maiores quedas diárias desde a última crise financeira.

O ousado movimento russo satisfaz os europeus, mas faz conter a respiração entre os norte-americanos e os antigos parceiros da OPEP.

De acordo com o ministro russo da Energia, Alexander Novak, por efeito da decisão russa e com a chegada da Primavera os preços continuarão a cair depois de 1 de Abril.

Apesar de a Rússia e a Arábia Saudita dependerem ambos do petróleo, Moscovo tem uma economia diversificada que deixa uma maior margem de manobra devido às suas vastas reservas de ouro e à rigorosa política orçamental; a qual, devido às sanções norte-americanas, teve de ser adoptada para reduzir a dependência do país em relação às exportações de energia.

A Arábia Saudita, por seu lado, tem um défice orçamental corrente de mais de 50 mil milhões de dólares e possui poucos fundos no estrangeiro.

Ainda que os dois países possam suportar preços baixos de petróleo durante algum tempo, a parte saudita não pode permitir que essa situação se prolongue muito. Alguns analistas calcula esse prazo em um ano, no máximo dois.

O Ministério das Finanças russo afirma que o país pode manter-se à superfície até 10 anos, mesmo que os preços do petróleo se mantenham entre 25 a 30 dólares por barril.

“Parece uma corrida montanha abaixo para ver quem se assusta e desiste primeiro”, comenta Andrew Lipow, da empresa norte-americana Oil Associates LLC; no entanto, um preço do Brent de 40 dólares por barril significa que a Arábia Saudita deixa de ganhar cerca de 120 mil milhões de dólares por ano.

O Kremlin interpreta essas perdas sauditas como 120 mil milhões a menos para comprar armas a países da NATO. O que Lipow não compreende é que estamos perante um golpe de mestre na área da Diplomacia Económica.

Ataque ao petróleo de xisto

A jogada fez cair os preços do petróleo para cerca de 40 dólares por barril; com isso, Putin faz colapsar a indústria petrolífera norte-americana.

É altura de recordar que até 1970 os Estados Unidos foram o principal exportador de petróleo. Nesse ano, porém a produção dos seus esgotados poços não chegou sequer para o próprio consumo. Washington depressa se transformou no principal importador. Em 1971, entretanto, aconteceu o abandono do padrão ouro estabelecido nos Acordos de Bretton Woods (uma onça/35 dólares). E rapidamente surgiu a emissão de dólares sem fundos para pagar o enorme défice comercial de 150 mil milhões de dólares. Uma decisão da OPEP salvou a divisa dos Estados Unidos: cotar o petróleo apenas em dólares.

No final dos anos noventa desenvolveu-se uma técnica conhecida como “fracking”, ou fractura hidráulica, que permite extrair gás e petróleo residuais dos poços esgotados. A aplicação desse método permitiu aos Estados Unidos voltarem a exportar petróleo. Mas o petróleo de xisto obtido através do fracking é muito mais caro do que o extraído por métodos convencionais; necessita de preços elevados para recuperar o investimento. Isto explica a agressiva política externa dos Estados Unidos, que aproveita qualquer pretexto para impor obstáculos e sanções a países exportadores de petróleo para diminuir a oferta do mercado e dificultar o comércio dos seus competidores petrolíferos, como sucede com o Irão, o Iraque, Líbia, Síria ou Venezuela.

Os Estados Unidos não incomodam a Arábia Saudita porque este país é o segundo maior investidor am armas do mundo e o principal cliente do complexo militar e industrial que, na realidade, é quem governa em Washington.

Com este movimento estratégico da sua diplomacia económica Vladimir Putin ameaça a nova indústria petrolífera dos Estados Unidos de colapso; e deixa também em dificuldades o principal cliente da indústria militar norte-americana. A diminuição de receitas sauditas afectará igualmente o financiamento de Riade ao fanatismo islâmico que tenta destruir a Síria, o principal aliado da Rússia no Médio Oriente.

O efeito do movimento diplomático russo sobre a indústria petrolífera norte-americana é devastador e sem trapaças.

A Rússia impõe a vantagem competitiva da maior resistência da sua economia e dos benefícios proporcionados pela Natureza ao dotar o país com jazidas frescas que não necessitam de fracking.

O efeito do movimento de Putin de aguentar os preços baixos para arruinar o adversário é parecido com a estratégia de terra queimada que o general Kutuzov utilizou contra Napoleão.


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