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COMO A NATO APOIA A TURQUIA CONTRA A SÍRIA

O secretário-geral da NATO com o presidente da Turquia em Ancara no dia 11 de Outubro

2019-10-20

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

Muitos membros da NATO derramam todas as lágrimas que conseguem com a sorte dos curdos no nordeste da Síria, escondendo deste modo que validaram previamente a operação turca designada “Fonte de paz”. Para dissipar as dúvidas, o secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg, deslocou-se pessoalmente a Ancara três dias depois do início dos combates para levar o apoio da organização à Turquia.

A Alemanha, a França, a Itália e outros países que, enquanto membros da União Europeia condenam a Turquia pelo seu ataque na Síria, são, tal como a Turquia, membros da NATO; a qual, já com o ataque em curso, renovou o seu apoio a Ancara. Foi o secretário-geral da aliança quem o fez oficialmente durante um encontro com o presidente Erdogan e com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Çavusoglu, realizado em 11 de Outubro. 

“A Turquia está na primeira linha nesta região tão volátil, nenhum outro aliado sofreu tantos ataques terroristas como a Turquia, nenhum outro está tão exposto à violência e às turbulências provenientes do Médio Oriente”, começou por dizer Stoltenberg, reconhecendo que se trata de um país que tem “legítimas preocupações com a sua segurança”. Depois de ter aconselhado, diplomaticamente, a “agir com moderação”, Stoltenberg realçou que a Turquia é “um poderoso aliado da NATO, importante para a nossa segurança colectiva”; e que a aliança “está fortemente empenhada em defender a sua segurança”. Para esse efeito – sublinhou o secretário-geral – a NATO aumentou a sua presença aérea e naval na Turquia e investiu mais de cinco mil milhões de dólares em bases e infraestruturas militares. Além disso, embora tal não tenha sido lembrado por Stoltenberg, a NATO instalou em território turco um importante comando: o LandCom, responsável pela coordenação de todas as forças terrestres da aliança.

O cinismo do teatro político

Jens Stoltenberg destacou a importância “dos sistemas de defesa através de mísseis” instalados pela NATO para “proteger a fronteira meridional da Turquia”, armas fornecidas pelos aliados em rotação. A propósito, o ministro Çavusoglu agradeceu especialmente a Itália, que desde 2016 instalou na província sul de Kahramanmaras o “sistema de defesa antiaéreo” Samp-T, coproduzido com a França.

Uma unidade Samp-T integra um veículo de comando e controlo e seis veículos de lançamento, cada um equipado com oito mísseis. Situados na fronteira com a Síria, podem abater qualquer aeronave no interior do espaço aéreo sírio. No passado mês de Julho, a Câmara e o Senado italianos, com base em decisões tomadas pelas comissões conjuntas dos Negócios Estrangeiros, deliberaram prolongar até 31 de Dezembro a presença de unidades de mísseis italianos na Turquia. Stoltenberg informou, por outro lado, que estão em curso negociações entre a Itália e a França, coprodutores do sistema, e a Turquia, que pretende comprá-lo. Portanto, com base no decreto anunciado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Di Maio, que bloqueia a exportação de armamentos para a Turquia, a Itália deveria retirar imediatamente o sistrema de mísseis Samp-T do território turco e não o vender a Ancara.

Continua, desde modo, o trágico teatrinho da política, enquanto o sangue continua a correr na Síria. Aqueles que se horrorizam perante os novos massacres e pedem que sejam bloqueadas as entregas de armas à Turquia são os mesmos que olham para o lado quando o próprio New York Times publica uma investigação pormenorizada sobre a rede da CIA através da qual chegam à Turquia, incluindo a partir da Croácia, torrentes de armas para a guerra secreta na Síria. Depois de ter demolido a Federação Jugoslava e a Líbia, a NATO tenta fazer a mesma coisa na Síria. A força de choque é constituída por uma turba armada de grupos islamitas (até há pouco tempo definidos por Washington como terroristas) oriundos do Afeganistão, da Bósnia, da Chechénia, da Líbia e de outros países. Convergem para as províncias turcas de Adana e Hatay, que fazem fronteira com a Síria, onde a CIA abriu centros de formação militar. O comando de operações, sublinha o New York Times, funciona a bordo de navios da NATO no porto de Iskenderum (Alexandrette).

Tudo isto foi apagado e a Turquia é apresentada pelo secretário-geral da NATO como o aliado “mais exposto à violência e às turbulências provenientes do Médio Oriente”.



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