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POMPEO, OS F-35 E A CAÇA AOS INFIÉIS

Defensor da tortura e conferencista sobre a fé no Vaticano

2019-10-14

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

A venda de caças F-35 esteve na ementa da viagem a Itália do secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, ainda que o assunto não conste da lista oficial. O mesmo aconteceu com a deslocação ao Vaticano: não teve nada a ver com questões teológicas, mas sim com a tentativa de mobilizar a Santa Sé contra a China, Cuba, o Irão e a Síria.

O caça furtivo (stealth) F-35 torna-se invisível não apenas aos radares mas também à política: nos comunicados das reuniões do secretário de Estado norte-americano em Roma não encontramos traços dele. O diário Corriere della Sera, no entanto, revelou que Pompeo pediu a Itália para fazer os pagamentos em atraso das compras do aparelho já contratadas e também para desbloquear a ordem para mais aquisições; o visitante terá recebido do primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, a promessa de que “somos fiéis aos nossos acordos”.

Até ao momento, a Itália comprou 14 caças F-35 à empresa norte-americana Lockheed Martin, dos quais 13 já foram entregues e “estão totalmente financiados”. A clarificação foi feita no Senado, em 3 de Junho, pela então ministra da Defesa, Elisabetta Trenta, do Movimento Cinco Estrelas, que anunciou novas compras para perfazer 28 aparelhos até 2022. A Itália comprometeu-se a comprar 90, por um preço calculado em 14 mil milhões de euros. A esta despesa acresce a da actualização contínua do software (o conjunto dos programas operacionais) dos aparelhos, do qual a Lockheed mantém a exclusividade. A despesa desta rubrica relacionada com os 14 aviões já adquiridos deve ascender a 500 milhões de euros.

A Itália não é apenas comprador mas também fabricante de F-35, enquanto parceiro de segundo nível. A empresa Leonardo (ex-Finmeccanica) – a maior indústria militar italiana e da qual o Ministério da Economia e Finanças é o principal accionista, com uma cota de 30% - gere a linha de montagem e de ensaio dos F-35 em Faco de Cameri (Piemonte), de onde saem os caças destinados a Itália e à Holanda. 

A empresa Leonardo produz também as asas completas para os aviões montados nos Estados Unidos, utilizando materiais produzidos nas fábricas de Foggia (Apúlia), Nola (Campânia) e Venegono (Lombardia). O governo norte-americano escolheu a fábrica de Cameri como centro regional europeu de revisão e actualização da fuselagem.

70 milhões de euros por dia

A fábrica de Faco emprega cerca de mil trabalhadores - um grande número dos quais precários - o que equivale a um sexto do previsto. As despesas para realização do que ficou estabelecido e para compra dos caças são, de longe, superiores aos montantes estipulados para as empresas italianas nos contratos de produção dos F-35. Não esqueçamos que enquanto os lucros vão quase na totalidade para as contas de empresas privadas, as despesas saem dos cofres públicos, fazendo inchar os gastos militares italianos para o nível dos 70 milhões de euros por dia.

O secretário de Estado, Michael Pompeo, nos encontros com o presidente italiano, Giuseppe Mattarella, e o primeiro-ministro Conte sublinhou a necessidade de a Itália e os outros países europeus “aumentarem os seus investimentos na defesa colectiva da NATO”. Durante os encontros reservados este pedido não foi feito por Pompeo em tons diplomáticos, mas certamente bem mais peremptórios. Enquanto o Departamento de Estado elogia Itália porque “acolhe mais de 30 mil militares italianos e assalariados do Pentágono em cinco grandes bases e mais de 50 instalações intermédias”, Michael Pompeo certamente pediu, nos encontros privados, para instalar outras bases militares em Itália (talvez em troca de algum aligeiramento das taxas alfandegárias sobre o queijo parmesão italiano).

Certamente ainda, na agenda secreta de Pompeo esteve também o ponto da situação sobre a próxima chegada a Itália das novas bombas nucleares norte-americanas B61-12, que substituirão as actuais B61.

Trata-se de uma nova arma nuclear projectada especialmente para os caças-bombardeiros F-35A, dos quais seis, pertencendo à Força Aérea italiana, receberam recentemente o atestado NATO de total capacidade operacional.

Um piedoso torturador

Michael Pompeo não se ocupou apenas de coisas materiais em Roma, como os F-35 ou o queijo parmesão. Num simpósio realizado no Vaticano, este fundamentalista “cristão sionista” pronunciou, em 1 de Outubro, uma comunicação sobre a dignidade humana e a fé “nas sociedades livres”. Afirmou que “os Estados Unidos chegaram um pouco depois de S. Pedro mas protegeram desde sempre a liberdade religiosa” e, com ela, “a dignidade humana”; acusou a China, Cuba, o Irão e a Síria de reprimirem essas liberdades. Palavras proferidas, tendo uma grande cruz em pano de fundo, por um santo homem que, no momento em que se tornou chefe da CIA, declarou ao Congresso que iria considerar a “reintrodução do waterboarding (simulação de afogamento, suplício com água) e outras medidas de interrogatório”, isto é, a reintrodução da tortura.


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