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RAZÕES DO CARINHO EUROPEU PELO TERRORISMO SAUDITA

Acordo total no carinho pela ditadura terrorista saudita

2019-10-02

Salman Rafi Sheik*, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

Uma declaração conjunta emitida pelas “superpotências europeias”, o chamado Grupo E3 – Reino Unido, Alemanha e França – considerou explicitamente que o Irão foi o responsável pelos ataques às instalações petrolíferas sauditas em meados de Setembro, ignorando em absoluto a reivindicação feita pela resistência iemenita Houthi e todas as outras hipóteses levantadas no meio de uma deliberada confusão.

A posição adoptada pelos três países é, seguramente, perigosa para o Irão porque revela, por um lado, uma crescente tendência europeia para abandonar o acordo nuclear internacional 5+1; e, por outro, uma aproximação em relação às posições dos Estados Unidos e da Arábia Saudita em torno da pretendida qualificação do Irão como “Estado terrorista”.

Na declaração pode ler-se que “é claro, para nós, que a responsabilidade por este ataque pertence ao Irão…” e que “estes ataques podem ter sido contra a Arábia Saudita mas dizem respeito a todos os países e aumentam o risco de um grande conflito; os ataques põem em destaque a importância de desenvolver esforços colectivos para a estabilidade e a segurança regionais”.

Estando implícito o desejo de um maior envolvimento europeu no Médio Oriente, a declaração revela que quando se trata de escolher entre o Irão e a Arábia Saudita, a Europa prefere claramente este último.

Business as usual

Para o grupo europeu E3, a Arábia Saudita é um enorme mercado de armamento. Apesar do facto real de as armas europeias e norte-americanas vendidas a Riade estarem envolvidas na catastrófica e desumana agressão contra o Iémen, provocando enormes danos ao país e às populações, a verdade é que as vendas francesas de armamento à Arábia Saudita aumentaram 50% em 2018: mil milhões de euros de armas remetidas para a petroditadura wahabita, sobretudo barcos-patrulha. Estas embarcações são essenciais para o bloqueio naval do Iémen pela Arábia Saudita, uma táctica que visa atingir a resistência Houthi mas é responsável pela grande crise humanitária no país.

Defendendo a venda de armas francesas ao regime de Riade, a ministra da Defesa de Macron, Florence Parly, afirmou:

“Manter relações económicas com a Arábia Saudita significa manter uma presença em regiões-chave para os nossos interesses de segurança e de abastecimento energético. Trata-se também de combater o terrorismo e de proteger os nossos cidadãos no terreno”.

A principal conclusão a extrair destas palavras é que os interesses geopolíticos franceses não se alinham com o Irão, mas sim com a Arábia Saudita. De facto, a garantia do desenvolvimento desses interesses repousa na continuação dos conflitos na região, situação ideal para aumentar a venda de armas.

O “mau acordo”

O mesmo poderá dizer-se em relação ao Reino Unido. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, defendeu recentemente o estabelecimento de um novo acordo nuclear com o Irão. Partindo do princípio de que o entendimento em vigor é “um mau acordo”, Johnson disse:

“Penso que existe alguém capaz de conseguir um acordo melhor, alguém que sabe muito bem como manter na linha um parceiro difícil como Irão e que é o presidente dos Estados Unidos, um negociador muito, muito brilhante”.

Johnson sugeriu mesmo que o novo “acordo” deveria ter o nome de Trump.

A razão pela qual o Reino Unido, tal como a França, prefere a Arábia Saudita ao Irão é o comércio de armas. Embora essas vendas tenham sido recentemente consideradas ilegais por um tribunal do país, através de uma sentença na qual foram realçadas as violações de direitos humanos praticadas pela Arábia Saudita no Iémen. Segundo a decisão do tribunal, “uma leitura atenta” das provas fornecidas revela que “no início de 2016” existiu uma mudança secreta da política do Reino Unido em relação a Riade. “Houve uma decisão, ou uma mudança de posição, para que não se fizesse uma avaliação das violações do direito humanitário internacional pela Arábia Saudita no Iémen”, pode ler-se na sentença. 

Significativamente, entre as pessoas responsáveis por essa “mudança de posição” esteve o actual primeiro-ministro Boris Johnson, o que explica a posição actual do Reino Unido em todo o cenário.

Porém, mesmo a decisão do tribunal não cobre todo o tipo de armas vendidas por Londres a Riade. Bombas como Paveway, Brimstone e Storm Shadow, usadas pela força aérea saudita no Iémen, são consideradas em autorizações separadas, que não foram suspensas pelo tribunal e estão “em revisão”. O abastecimento dessas bombas continuará a ajudar os sauditas a espalhar o caos no Iémen.

Berlim dribla a suspensão

Embora a venda de armas à Arábia Saudita esteja oficialmente suspensa na Alemanha, o governo de Merkel continua a vendê-las por vias indirectas, vias essas que também incluem a França. Além disso, o facto de a Alemanha ter concordado recentemente com os Estados Unidos numa acção militar conjunta no Estreito de Ormuz, se necessária, mostra que Berlim está, de facto, do lado da Arábia Saudita e contra o Irão. Aliás, também o Reino Unido está a considerar a participação nessa eventual operação, que visa unicamente reforçar as defesas sauditas contra o Irão.

Deste modo, através da venda de armamento e das ameaças de acção militar, o grupo E3 está fundamentalmente a ajudar a Arábia Saudita a combater o seu principal adversário no Médio Oriente, o Irão, apesar de ainda manter a sua presença no acordo nuclear 5+1 de 2015.

Com a Europa a apoiar cada vez mais claramente a posição dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, o que provavelmente acontecerá é o reforço dos vínculos entre o Irão e a China e o Irão e a Rússia, os únicos países que, no cenário actual, poderão dissuadir as ameaças de acções no Golfo e no Estreito de Ormuz e conter a pressão no sentido de forçar negociações para que se consume o “acordo Trump”.

*Analista de relações internacionais de nacionalidade paquistanesa


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