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QUANDO O CONE SUL É ARRASTADO CONTRA O IRÃO

2019-07-24

Débora Mabaires, Buenos Aires; Desacato.Info/O Lado Oculto

Na República Argentina, a semana que passou não foi apenas mais uma -como também não o foi para o Brasil ou para o Paraguai.

Em 18 de Julho cumpriram-se 25 anos sobre o atentado à Associação Mutual Israelita Argentina -AMIA- acontecido em Buenos Aires em 1994.

Durante os 25 anos o Poder Judiciário argentino encobriu os autores, formulando teorias absurdas sobre as explosões que causaram a morte de 85 pessoas. Um dos presidentes que realizou mais manobras foi Mauricio Macri, quando retirou os advogados do Estado na acusação do julgamento por encobrimento que aconteceu neste ano de 2019. Hoje ainda não existe qualquer prova no processo judicial que possa guiar em direcção aos autores de tão brutal ataque.

A maior mostra de cinismo foi o acto oficial que se realizou para assinalar o atentado, cerimónia a que Macri não compareceu. Com certeza queria estar repousado para apresentar na tarde desse dia, na Casa Rosada, o livro “Justiça Perseguirás”, editado pelo Congresso Judeu Latino-Americano, resignando mais uma vez más ao seu papel de Chefe de Estado para se tornar promotor de vendas.

Submissão

Porém, a venda de livros com a palavra alheia não foi mais que uma manobra de diversão para poder continuar com sua política externa de submissão aos Estados Unidos e aos seus interesses no outro lado do mundo. Macri assinou um decreto para criar um Registo Nacional de Pessoas e Entidades Terroristas, em que qualquer cidadão pode ser cadastrado, bastando a menção do nome numa resolução judicial.

Num país onde o ministro da Justiça – que será responsável pelo registo – é quem escreve o roteiro para que delinquentes culpem políticos opositores por crimes que não cometeram, este decreto é aterrador.

A trama está a ser urdida há meses. Em Junho, na sede das Nações Unidas, e sob pretexto de assinalar antecipadamente o atentado contra a AMIA, o chanceler argentino Jorge Faurie, em conjunto com delegados do Congresso Mundial Judaico, dirigido pelo norte-americano Robert Singer, anunciou a realização do Encontro Hemisférico Contra o Terrorismo, que finalmente aconteceu em 19 de Julho, em Buenos Aires.

É claro que contou com a presença do guionista-mor, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo.

O Irão, é claro

“Hoje, na Argentina, vivemos um momento terrível quando pensamos que passaram 25 anos desde que o Irão realizou um atentado terrorista aqui mesmo, na sede da AMIA, assassinando 85 pessoas. Não só argentinos, mas também cidadãos de outros países. Creio que isto é uma indicação da razão pela qual viemos aqui para trabalhar em antiterrorismo”, disse Pompeo. E continuou a desfiar o roteiro geopolítico que seu país escreveu para a Argentina:

“O propósito da minha visita hoje à Argentina é ajudar toda a região a acabar com a ameaça do terrorismo de uma série de fontes mas, sem dúvida, do Irão. Vi com satisfação a decisão do presidente Macri de definir o Hezbollah como uma organização terrorista. Nos Estados Unidos estamos a fazer tudo o que podemos para reduzir as tensões com o Irão. Só queremos que deixe de ser o maior Estado do mundo patrocinador do terrorismo”. 

Pompeo mencionou por três vezes o Irão em apenas dois parágrafos do seu discurso.

Com estas palavras, o secretário de Estado norte-americano selou assim o pacto de sangue com a Argentina, o Brasil e o Paraguai, recuperando o projecto 3 + 1 que os Estados Unidos tentaram impor desde o atentado contra a AMIA. Os três países da chamada Tríplice Fonteira mais os Estados Unidos. 

“Este acordo permitirá exercer uma maior coordenação de tarefas entre os países numa zona tão complexa como a Tríplice Fronteira”, disse o chanceler argentino Jorge Faurie perante os ministros dos Negócios Estrangeiros das Bahamas, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Estados Unidos da América, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai e Peru; os do México, Uruguai e o Comité Interamericano Contra o Terrorismo (CICTE) estiveram presentes na qualidade de observadores.

E depois a Venezuela

Pompeo, com o aplauso dos acólitos, não teve dúvidas em vincular o Irão ao atentado de 1994; em relação ao qual, segundo a Justiça, se desconhecem os motivos, além de não existirem indícios sobre quem foram os autores. E o secretário de Estado norte-americano também não corou ao associar Teerão com Nicolás Maduro, acusando o presidente da Venezuela de “trabalhar com o Irão para destruir a região” e “desenvolver acções terroristas”.

Enquanto, na Argentina, se exige justiça sobre a tragédia de 1994, os conspiradores vão cedendo soberania jurídica e territorial usando o Irão e a Venezuela como desculpa.

O Brasil e o Paraguai fazem o mesmo, mantendo os seus cidadãos e as suas instituições às escuras: este acordo assinado na Argentina, por ser “de colaboração”, também não necessita de passar pelos respectivos congressos legislativos.

Quando o sábado 20 de Julho amanheceu, os habitantes do Cone Sul acordaram convertidos em alvos móveis de uma suposta guerra que não escolheram.

Nem Kafka, em “A Metamorfose”, foi tão ousado.


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