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WASHINGTON FAZ GUERRA À SÍRIA “PARA DEFENDER ISRAEL”

Combater o Daesh? Nada disso: apoiar Israel na guerra que trava contra os vizinhos

2019-07-09

Elias Samo*, Strategic Culture/O Lado Oculto

“Washington não tem uma estratégia clara para a Síria”. Estas palavras foram proferidas recentemente por Robert Ford, o último embaixador norte-americano na Síria e que ocupou o posto entre 2010 e 2014, precisamente os anos dos acontecimentos que conduziram à guerra imposta externamente contra o país. Sendo um homem com um conhecimento da intrincada dinâmica das relações políticas entre os dois países, Ford está suficientemente habilitado para avaliar o comportamento de Washington em relação a Damasco. E prosseguiu dizendo: “É difícil explicar a missão fundamental dos Estados Unidos na Síria… Para lutar contra o Daesh? Ou para ajudar a promover uma região autónoma curda no noroeste da Síria?... Ou para conter a presença iraniana?” Ao que parece um pouco de cada uma destas três hipóteses. No entanto, por incrível que pareça, Ford evita explicitar o objectivo estratégico do envolvimento dos Estados Unidos na Síria: a protecção de Israel.

Como que para aliviar o abandono do poder executivo ao não formular uma estratégia clara para a Síria, como o ex-embaixador Ford afirma, o Congresso decidiu trabalhar nesse sentido de modo a poder fazer recomendações a Trump. No entanto, é legítimo perguntar: o que sabem os congressistas norte-americanos sobre a Síria que os qualifique para identificarem os interesses estratégicos norte-americanos neste país? É muito improvável que os congressistas norte-americanos saibam o suficiente sobre a Síria: os seus conhecimentos são ditados pela narrativa israelita - e isso é tudo o que necessitam saber.

Uma carta e um relatório

Os congressistas desenvolveram as suas acções em duas frentes. Quase 400 membros do Congresso, aproximadamente 75% das duas câmaras e de ambos os partidos, assinaram uma carta dirigida ao presidente e contendo as suas opiniões e recomendações; paralelamente, a Câmara dos Representantes e o Senado solicitaram ao Instituto da Paz dos Estados Unidos (USIP) a criação de um Grupo de Estudo sobre a Síria (SSG) para avaliar a situação neste país e formular recomendações ao presidente Trump.

O SSG foi criado em Fevereiro de 2019 e apresentou um relatório preliminar ao Congresso em 1 de Maio; trata-se de um documento com sete páginas impressas a um espaço.

A carta assinada pelos quase 400 congressistas foi enviada ao presidente em 20 de Maio. Seria natural supor que esta contivesse uma reflexão condensada sobre o conteúdo e as recomendações do SSG. Porém, não foi esse o caso.

O relatório preliminar do grupo de estudo aborda um grande número de questões centradas na segurança nacional dos Estados Unidos. Já a carta dos congressistas ao presidente, ironicamente, prefere focar as fontes de ameaça à segurança israelita: terrorismo, Síria, Líbano (Hezbollah), Irão, Turquia e Rússia.

Apenas uma nota sobre a diferença dos focos de abordagem nos dois documentos: no relatório de sete páginas elaborado pelo grupo de estudo existem quatro menções a Israel; já na carta dos congressistas Israel é mencionado 21 vezes em apenas duas páginas.

“Defender” atacando

No primeiro parágrafo da carta dos congressistas ao presidente pode ler-se: “(…) recomendamos várias medidas específicas para desenvolver as nossas prioridades regionais de segurança, inclusivamente ajudando o nosso aliado Israel a defender-se perante ameaças crescentes, designadamente na sua fronteira norte”.

A fronteira norte é formada pela Síria e o Líbano.

Quanto à Síria, é importante notar que Israel ocupa há 52 anos os territórios dos Montes Golã a este país e, recentemente, os Estados Unidos reconheceram a sua anexação ilegal proclamada anteriormente pelo Estado israelita. Há décadas que a Síria não alveja Israel, enquanto Israel disparou centenas de vezes nos últimos tempos contra território sírio. Não há militares sírios em Israel, mas existem militares israelitas em solo sírio.

Quanto ao cenário libanês, é semelhante ao da Síria mas em menor escala, embora com um factor acrescido: a existência do Hezbollah, que Israel interpreta como uma iminente fonte de ameaça. No entanto, é importante notar que tem sido Israel a fonte de ataques violentos contra o Hezbollah e de invasões do território libanês.

Os parágrafos seguintes da carta ao presidente elaboram sobre as supostas aquisições de armas sofisticadas pela Síria e o Hezbollah, cada vez mais ameaçadoras para a segurança da superpotência nuclear regional: Israel. Haverá limites para o ridículo?

No terceiro parágrafo da carta lê-se: “Enquanto a nossa nação encoraja sistemas políticos mais estáveis e inclusivos no Médio Oriente, o regime de Teerão espalha a sua influência e desestabiliza os vizinhos para seu próprio benefício”.

Trata-se de uma ultrajante distorção da verdade. De facto, são os iraquianos, os sírios, os líbios, os iemenitas e a maioria dos árabes muçulmanos as vítimas de uma desestabilização – e que não é provocada pelo Irão. Na realidade, os Estados Unidos e Israel são encarados como fontes de ameaça à paz e à segurança internacionais. Ambos os países têm botas militares em territórios estrangeiros, mas não há botas militares estrangeiras nos seus territórios.

No quarto parágrafo da carta é a Rússia quem recebe um soco pelo seu papel em “(…) garantir a sobrevivência do regime de Assad”. E acrescenta: “Além disso, ao fornecer a Damasco armas avançadas como os S-300, Moscovo está a dificultar as capacidades de Israel para se defender das acções hostis que emanam da Síria”.

O cúmulo da hipocrisia

A derradeira parte da carta contém três recomendações ao presidente que estão interrelacionadas e convergem, uma vez mais, no tema essencial do documento dos congressistas, a segurança de Israel:

- Destaca o direito de Israel à autodefesa;

- Salienta a necessidade de aumentar a pressão sobre o Irão e a Rússia a propósito das actividades na Síria;

- Destaca a necessidade de aumentar a pressão contra o Hezbollah.

Não existem dúvidas de que a carta foi ditada por israelitas ou defensores dos seus interesses em Washington e depois assinada e enviada por 400 congressistas a Trump. É o cúmulo da hipocrisia.

É muito importante notar ainda que quase nenhuma voz de protesto foi levantada na sociedade norte-americana em geral, ou em segmentos políticos e culturais, contra o facto de 400 congressistas eleitos pelos norte-americanos para servir os interesses dos norte-americanos assinarem uma carta submetida ao presidente dos Estados Unidos quase preocupada em exclusivo com a segurança de Israel; e logo numa altura em que os Estados Unidos estão atolados na região árabe.

Os congressistas signatários tiveram uma oportunidade para fazerem recomendações coerentes sobre a política norte-americana na região árabe numa perspectiva de defender os interesses nacionais norte-americanos; porém, preferiram fazer recomendações para salvaguardar o bem-estar e a segurança de um Estado estrangeiro: Israel.

*Professor de Relações Internacionais em universidades dos Estados Unidos e da Síria



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