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A EUROPA TORNA-SE REFÉM NUCLEAR DE WASHINGTON

O general Joseph Dunford, a "cara" da nova doutrina de vulgarização das armas nucleares pelos Estados Unidos

2019-06-27

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

A França não dispõe da tríade nuclear (vectores em terra, no ar e no mar) desde 1996 e o Reino Unido nunca a teve. Apenas os Estados Unidos, a Rússia e a China têm essa capacidade. Num novo documento, o comandante da Junta dos Chefes de Estado-maior norte-americana revela a vontade de desarmar nuclearmente os aliados que, a prazo, apenas terão o direito de utilizar bombas norte-americanas, não as suas.

Os ministros da Defesa da NATO foram chamados a Bruxelas em 26 e 27 de Junho para aprovar as novas medidas de “dissuasão” contra a Rússia, acusada, sem qualquer prova, de ter violado o Tratado INF sobre a eliminação de mísseis nucleares de médio alcance. Em substância, os ministros alinharam-se em fila atrás dos Estados Unidos que, retirando-se em definitivo do tratado em 2 de Agosto, se preparam para instalar na Europa mísseis de médio alcance (entre 500 e 5500 quilómetros) com base em terra; armas análogas às dos anos oitenta (os Pershing II e os mísseis de cruzeiro) que foram eliminadas (com os SS-20 soviéticos) graças ao tratado assinado em 1987 pelos presidentes Gorbatchov e Reagan.

As potências europeias mais poderosas, cada vez mais divididas no interior da União Europeia, unem-se na NATO sob comando dos Estados Unidos para apoiarem os seus interesses estratégicos comuns. Esta mesma União Europeia – em que 21 dos 27 membros fazem parte da aliança (como faz parte o Reino Unido, mesmo saindo da UE) – rejeitou nas Nações Unidas a proposta russa de conservar o Tratado INF. Numa questão de tal importância, a opinião pública europeia foi deixada deliberadamente na ignorância pelos governos e os grandes media. Deste modo, não se apercebe do perigo crescente que nos ameaça: aumenta a possibilidade de chegarmos um dia à utilização de armas nucleares.

“Diversificadas, flexíveis, adaptáveis”

É isso que confirma o mais recente documento estratégico das Forças Armadas dos Estados Unidos, Nuclear Operations (11 de Junho), redigido sob a direcção do presidente da Junta de Chefes de Estado-maior. Partindo do princípio de que “as forças nucleares fornecem aos Estados Unidos a capacidade de prosseguirem os seus próprios objectivos nacionais”, o documento sublinha que devem ser “diversificadas, flexíveis e adaptáveis” a “uma vasta gama de adversários, de ameaças e de contextos”. Enquanto a Rússia considera que a utilização apenas de uma arma nuclear de baixa potência cria condições para uma reacção em cadeia que pode conduzir a um conflito nuclear em grande escala, a doutrina norte-americana está em vias de se orientar com base num perigoso conceito de “flexibilidade”.

O documento estratégico afirma que “as forças nucleares norte-americanas fornecem os meios para aplicar a força a uma vasta gama de alvos em tempos e meios escolhidos pelo presidente”. Alvos (especifica o documento) realmente escolhidos por agências de informações, que avaliam a sua vulnerabilidade a um ataque nuclear, prevendo também os efeitos da carga radioactiva. A utilização de armas nucleares – sublinha o documento – “pode criar as condições para obter resultados decisivos: em particular, a utilização de uma arma nuclear alterará fundamentalmente o quadro de uma batalha, criando condições que permitam aos comandantes obter vantagens no conflito”.

Por outro lado, as armas nucleares permitem aos Estados Unidos “proteger os seus aliados e parceiros” que, confiando nestas armas, “renunciam à posse das suas próprias armas nucleares, contribuindo para os objectivos norte-americanos de não-proliferação”.

O documento sublinha, contudo, que “os Estados Unidos e alguns aliados da NATO seleccionados conservarão aviões com dupla capacidade, podendo transportar armas nucleares ou convencionais”. O texto admite, deste modo, que quatro países da União oficialmente não-nucleares – Itália, Alemanha, Bélgica e Holanda – e a Turquia, violando o Tratado de Não-Proliferação, não só acolham armas nucleares norte-americanas (as bombas B-61, que a partir de 2020 serão substituídas pelas mais letais B61-12) como estarão preparados para utilizá-las num ataque nuclear sob comando do Pentágono.

Tudo isto é calado pelos governos e os parlamentos, as televisões e os jornais, com o silêncio cúmplice da esmagadora maioria dos políticos e dos jornalistas; os quais, pelo contrário, repetem todos os dias como a “segurança” é importante para nós, cidadãos europeus da União. “Segurança” que nos é garantida pelos Estados Unidos ao instalarem mais armas nucleares na Europa.



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