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COMEÇO DA GUERRA TRAVADO À JUSTA

O momento em que, segundo a agência oficial iraniana IRNA, o drone-espião norte-americano foi abatido por um míssil SAM

2019-06-21

José Goulão; com Martha Ladesic, Washington e Christopher Barnes, Damasco

O início de um conflito armado entre os Estados Unidos e o Irão esteve por muito pouco às primeiras horas de sexta-feira, 21 de Junho, quando o presidente Donald Trump ordenou um bombardeamento cuja execução suspendeu apenas a dez minutos de ser desencadeado e os militares iranianos evitaram abater um avião-espião norte-americano, com 35 pessoas a bordo, que invadira o espaço aéreo de Teerão. Apesar destes desfechos, o clima guerra iminente mantém-se na região.

Não são ainda claras as razões que levaram o presidente norte-americano a suspender o bombardeamento que ordenara cerca da meia-noite (TMG) e que, segundo fontes militares citadas pela imprensa, tinha como alvos instalações de radar e sistemas de defesa antiaérea. As instruções para o cancelamento chegaram apenas a dez minutos da execução, quando o porta-aviões Abraham Lincoln e o seu grupo de combate já tinham tomado as respectivas posições ofensivas. Os motivos invocados pelo presidente, só algumas horas depois do cancelamento, foi o facto de o ataque previsto ser “desproporcionado” em relação ao “erro cometido” pelo Irão, o derrube de um drone-espião norte-americano que violou o espaço aéreo iraniano, segundo provas “indesmentíveis” que Teerão fez chegar às Nações Unidas. Trump invocou ainda a preocupação com o facto de o ataque poder provocar 150 vítimas, consequências que já estariam calculadas no momento em que foi dada a ordem de atacar. O clima dominante em torno das explicações presidenciais é de incredulidade, estando ainda por conhecer as razões reais que levaram Trump a recuar.

Sabe-se que o Congresso de Washington ainda não autorizou operações militares contra o Irão e que, muito provavelmente, existe uma maioria que não considera válido o argumento de que a legislação aprovada em 2001 por ocasião da “guerra contra o terrorismo” cobre as acções pretendidas contra Teerão.

Os defensores de que a lei de 2001 não pode funcionar como autorização para atacar o Irão têm feito valer as suas opiniões de forma cada vez mais audível e entre eles não estão apenas os democratas, maioritários no Congresso, mas também republicanos. E Trump não está em condições de entrar em choque com sectores do seu próprio partido se quer manter nos carris o processo de recandidatura nas eleições do próximo ano.

A origem: drone abatido

Depois do fracasso de todas as tentativas para tirar proveito bélico dos ataques ainda misteriosos de que foram vítimas seis petroleiros em águas do Médio Oriente, no espaço de uma semana, os Estados Unidos invocaram como motivo para um ataque o derrube, pelo Irão, de um drone de espionagem norte-americano Northtrop Gumman Global Hawk em pleno Estreito de Ormuz.

As autoridades de Teerão apresentaram alegados restos da nave aos jornalistas, explicando que foram recolhidos em águas territoriais iranianas. Segundo a versão iraniana, enviada com elementos de prova às Nações Unidas, o drone foi abatido quando penetrou no espaço aéreo do Irão numa área costeira a sul da província de Hormozgan e depois de terem sido feitos dois avisos contra a intrusão.

Em sua defesa, os Estados Unidos oferecem uma linha amarela num mapa que seria a suposta rota da nave através de uma estreita faixa de espaço aéreo internacional. 

Nas imediações do drone voava igualmente um avião “de reconhecimento” tripulado norte-americano, um Boeing P-8 Poseidon com 35 pessoas a bordo, que invadiu igualmente o espaço aéreo iraniano. Os responsáveis de Teerão decidiram não alvejar o aparelho.

“Poderíamos tê-lo abatido, tal como aconteceu com o drone, mas não o fizemos”, afirmou o comandante da força aérea da Guarda Revolucionária, brigadeiro-general Amir Ali Hajizadeh. “Achamos que abatendo um drone já tínhamos enviado uma advertência às forças terroristas norte-americanas”, acrescentou.

Potencial nuclear

Apesar de as primeiras escaramuças terem ficado por aqui, o clima e os meios militares na região continuam a um nível muito perigoso, sobretudo por se ignorarem ainda, de facto, as verdadeiras intenções de Washington.

O caso do drone confirma a tendência dos estrategos norte-americanos para apostarem em provocações que possam servir de elemento susceptível de desencadear uma ofensiva.

Analistas militares em Washington consideram, porém, que o passo em frente e o passa atrás dados por Trump na noite de quinta-feira já invalidaram o efeito que poderia ter sido proporcionado pelo derrube do drone. Não faria sentido, alegam, ir rebuscar o incidente com a nave não tripulada para realizar agora um ataque que foi anteriormente suspenso.

No entanto, o clima de tensão e os meios militares envolvidos na região são de um nível que poderá suscitar uma qualquer provocação e a qualquer momento.

O Pentágono confirmou que depois de o presidente ter dado a ordem de ataque não foram apenas o porta-aviões Abraham Lincoln e o seu grupo de combate que ficaram prontos para a acção. Da base de Al-Udeida, ocupada pelos Estados Unidos no Qatar, saíram dois bombardeiros B-52 Stratofortress escoltados por quatro caças F-15 C. Os bombardeiros em causa podem ser equipados com dezenas de milhares de quilos de munições, mísseis de longo alcance e bombas nucleares.

Este aspecto ganha uma nova importância com a doutrina agora adoptada pela Junta de Chefes de Estado Maior norte-americanos, segundo a qual o recurso a bombas nucleares pode ser “decisivo” em conflitos. Existe pois, segundo analistas militares, uma “luz verde” para uso de bombas nucleares substituindo armas convencionais – uma realidade que é completamente nova nos cenários de guerra.

O papel dos falcões

De acordo com relatos relacionados com os bastidores dos acontecimentos das últimas horas, Donald Trump está a ver-se pressionado entre os sectores institucionais que se opõem ao conflito e os falcões que o rodeiam, tanto a nível da administração como do Congresso.

Na tarde de quinta-feira o presidente recebeu na Casa Branca os líderes republicanos no Congresso e foi incitado para o conflito. O chefe da maioria no Senado, o senador Lindsay Graham, aconselhou uma estratégia radical, designadamente a destruição de toda a marinha iraniana seguida do bombardeamento das refinarias de petróleo.

Posições deste tipo – que, além disso, minimizam em absoluto os riscos da resposta iraniana - estão em sintonia com o vice-presidente, Michael Pence, e também com os dois mais próximos colaboradores de Trump, o secretário de Estado, Michael Pompeo, e o conselheiro de segurança nacional, John Bolton.

O sector dos falcões não tem em conta algumas preocupações de índole eleitoral que o presidente começa a ter, e destas contradições pode ter surgido a decisão final de suspender um ataque que, presumivelmente, poderia não ser muito bem recebido tanto a nível interno como externo, mesmo entre muitos aliados membros da NATO.


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