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RAZÕES DE WASHINGTON PARA O GOLPE NO BRASIL

O cobiçado Aquífero de Guarani, na Amazónia, que contém as maiores reservas de águas subterrâneas do mundo

2019-06-18

José Álvaro de Lima Cardoso*, Desacato.Info/O Lado Oculto                                                                     

“Moro – Não é muito tempo sem operação?

Deltan – É sim. O problema é que as operações estão com as mesmas pessoas que estão com a denúncia do Lula. Decidimos postergar tudo até sair essa denúncia, menos a op do taccla pelo risco de evasão, mas ela depende de articulação com os americanos

Deltan – (Que está sendo feita)

Deltan – Estamos programados para denunciar dia 14

Moro – Ok”

(Diálogo entre o juiz da Operação Lava Jato, Sérgio Moro, e o procurador da mesma operação, Deltan Dalagnol, publicado pelo The Intercept em 14 de Junho de 2019)

Como revela o diálogo que se reproduz, um dos primeiros dos muitos que, segundo promessa do jornalista Glenn Greenwald, estão a ser divulgados, a participação dos Estados Unidos começa a surgir, aqui na expressão “articulação com os americanos”. Como o material até agora divulgado é uma pequena fracção do volume imenso de dados em poder do website, é fácil prever que a participação decisiva dos EUA no golpe deverá ficar cada vez evidenciada. Afinal de contas, como agora fica claro, a Lava Jato nunca teve nada a ver com corrupção, foi apenas uma ferramenta do golpe no Brasil, controlada pelos norte-americanos, para apropriação das riquezas do Pré-sal**, entre outros objetivos. Portanto, excepto se houver filtragem dos dados, a participação dos EUA irá aparecer cada vez mais.

Guerra híbrida

Como alguns analistas vêm denunciando há algum tempo, o Brasil foi vitimado pela chamada Guerra Híbrida, não-convencional, que se vale de instrumentos linguísticos e simbólicos com metodologia altamente sofisticada. Este tipo de método utiliza “aliados internos” para perpetração do golpe, no judiciário, entre as empresas, no parlamento e demais estruturas do Estado. Esta metodologia de guerra, desenvolvida principalmente pelos Estados Unidos, tem como objectivo central garantir os interesses do império e destruir projectos que, de uma forma ou outra, não se coadunem com os seus interesses. Segundo o jornalista Pablo Escobar, especialista em geopolítica, os países que compõem o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) foram os primeiros alvos da Guerra Híbrida, por uma série de razões, principalmente de caráter geopolítico.

A Guerra Híbrida visa assegurar a perpetuação da hegemonia económica, política e militar dos EUA. Este tipo de guerra surgiu em 2010, a partir do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais do Exército dos EUA. Diz o manual: 

“O objectivo dos esforços dos EUA neste tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, económicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […]. Num futuro previsível, as forças dos EUA envolver-se-ão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)” (no artigo “O Brasil no epicentro da Guerra Híbrida, Escobar, 2016”).

Petróleo, Amazónia e algumas coisas mais

O motivo económico principal do golpe no Brasil foi petróleo, claro, porque esta é uma necessidade (e uma obsessão) dos EUA; e porque o petróleo continua a ser fundamental como fonte energia e matéria-prima. E o Pré-sal contém recursos que podem alcançar a “bagatela” de 30 biliões de reais (7,5 biliões de euros). Outros motivos foram também a água, empresas estatais rentáveis e estratégicas, a riqueza da Amazónia, a aproximação do Brasil com a Rússia e a China, a fundação do Banco de Desenvolvimento do BRICS, e assim por diante. 

Possivelmente um dos elementos decisivos do envolvimento dos EUA no golpe no Brasil foi o crescimento da ideia, no interior dos BRICS, de substituição gradativa do dólar como moeda de referência nas transacções internacionais. A hegemonia mundial dos Estados Unidos, que está tremida há alguns anos, relaciona-se directamente relacionada, e em boa parte, com o facto de poder imprimir dólares à vontade e esta ser a moeda utilizada no grosso do comércio internacional.

Outra explicação crucial do envolvimento dos EUA no golpe, como apontou o historiador Moniz Bandeira (falecido em Novembro de 2017), é a tentativa permanente daquele país de impedir que se crie outra potência no continente americano. Uma potência na América do Sul e ligada comercial e militarmente à China e à Rússia é tudo o que os Estados Unidos não querem. Não é por acaso que, entre as centenas de acções destrutivas dos golpistas, uma das primeiras foi prender o Almirante Othon da Silva, ainda em 2015, coordenador do projecto nuclear do Brasil, e alvejar o projecto de construção do submarino a propulsão nuclear, fundamental para a guarda e a segurança da chamada Amazónia Azul (território marítimo brasileiro cuja área corresponde aproximadamente a 3,6 milhões de quilómetros quadrados – equivalente à superfície da floresta Amazónica).

Em 2013, o próprio jornalista norte-americano Glenn Greenwald já havia denunciado que o Brasil era o grande alvo das acções de espionagem dos Estados Unidos. Segundo o jornalista, o governo norte-americano espiou inclusive as mensagens de e-mails da presidente Dilma Rousseff e dos seus assessores mais próximos, além da própria Petrobrás. O objectivo da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês), segundo Greenwald, era obter pormenores da comunicação da presidente com a sua equipa. O Brasil, naquele período, era o principal alvo dos Estados Unidos, entre outras razões pelo anúncio das descobertas do Pré-sal poucos anos antes (final de 2006).

O que sempre esteve em jogo na participação dos EUA no golpe é muito mais que petróleo, ainda que este esteja no centro do processo. Os Estados Unidos não têm interesse num desenvolvimento autónomo e soberano do Brasil, pelo potencial que o país tem para rivalizar com os seus interesses estratégicos na região. Processos como a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) confrontavam os Estados Unidos no hemisfério; e novas instituições, como o Banco do BRICS e o Acordo Contingente de Reservas do BRICS ajudavam a construir alternativas às hegemonias do Banco Mundial e do FMI, instituições sobre as quais os EUA têm controlo quase absoluto.

A água, recurso estratégico

Por exemplo, o problema das reservas de água. A ONU prevê que, ao ritmo actual, as reservas hídricas do globo reduzir-se-ão 40% até 2030, o que poderá provocar uma “guerra pela água” no mundo. Os EUA e a Europa enfrentam grave problema de falta de água porque a maioria dos rios dos Estados Unidos e do Velho Continente estão contaminados. É neste contexto que também tem de ser entendido o golpe de Estado no Brasil. 

Logo após o golpe, em 2016, surgiram rumores muito fortes de que o governo Temer estava a negociar o acesso das multinacionais do sector alimentar ao Aquífero Guarani, a maior reserva subterrânea de água doce do mundo. Apesar das negativas do governo da época, todos os indícios apontavam para a veracidade da informação, a começar pelo nível de entreguismo do Governo Temer. O Aquífero, localizado na parte sul da América do Sul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), coloca a região como detentora de 47% das reservas superficiais e subterrâneas de água do mundo. Os Estados Unidos sabem que não há nação que consiga manter-se dominante sem água potável em abundância; por isso o seu interesse em intensificar o domínio político e militar na região, além do acesso à água existente em abundância no Canadá, garantida por acordos como o do NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), entre EUA, Canadá e México. Cabe lembrar que o golpe tem características subcontinentais, ou seja, a maioria dos países da América do Sul estão a ser alvo de golpes, com métodos adaptados a cada caso.

Como se sabia há alguns anos, e as denúncias do The Intercept agora confirmam, não foram os ineptos procuradores golpistas, ou um juiz medíocre e entreguista de primeira instância – ambos os grupos em busca de fama e dinheiro e ao serviço do Império – que destruíram, sozinhos, o sector de engenharia nacional e colocaram o Almirante Othon na cadeia. Assim como não foram os operadores visíveis da Lava Jato que colocaram na cadeia, cometendo as maiores atrocidades legais, alguns dos maiores capitalistas do país, proprietários de grandes empresas que investem em todos os continentes. Só existe um poder que está acima desses: o imperialismo norte-americano.

*Economista e supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconómicos (DIEESE) em Santa Catarina, no Brasil

**Reservas petrolíferas detectadas sob uma camada de sal em rochas resultantes de um perfil geológico anterior à deposição de sal mais recente nos fundos marinhos. As primeiras reservas de petróleo pré-sal, e as maiores existentes até agora, foram detectadas nas águas territoriais brasileiras. Foram descobertas reservas de 33 mil milhões de barris, que podem ascender a uma quantidade entre 50 e 100 mil milhões de barris. As maiores reservas petrolíferas mundiais são as da Venezuela, da ordem dos 300 mil milhões de barris.


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