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AMNISTIA INTERNACIONAL AFINADA COM O IMPÉRIO

A chefe da Amnistia Internacional para as Américas com o seu delegado junto de Guaidó

2019-06-18

Roger D. Harris, Global Research/O Lado Oculto

O Tio Sam tem um problema no seu quintal das traseiras criado por aqueles arrogantes venezuelanos que insistiram em eleger democraticamente Nicolás Maduro como presidente, em vez de contornar o processo eleitoral e instalar o activo norte-americano não eleito Juan Guaidó? Não faz mal, a Amnistia Internacional vem acudir à situação com uma defesa total do imperialismo dos Estados Unidos:

“Perante graves violações dos direitos humanos, escassez de medicamentos e alimentos e violência generalizada na Venezuela, há uma fome urgente de justiça. Os crimes contra a humanidade provavelmente cometidos pelas autoridades não devem ficar impunes” – Erika Guevara-Rosas, directora para as Américas da Amnistia Internacional.

A Amnistia Internacional apresenta as suas reivindicações contra o governo de Maduro no contexto de uma campanha integrada para a mudança de regime que corresponde a uma guerra conduzida pelos valentões do norte. Os Estados Unidos estão a travar uma guerra ilegal contra a Venezuela e a Amnistia Internacional não alude a esse facto inconveniente, omitindo qualquer menção a sanções. 

Como afirmou Chuck Kaufman, activista de direitos humanos da Aliança para a Justiça Global, a propósito da Amnistia Internacional, “parece que eles deixaram de se preocupar com a própria credibilidade”. Caso contrário teriam apresentado um trabalho mais confiável e honesto do que a nota produzida em 14 de Maio, na Venezuela: “Crimes contra a humanidade exigem uma resposta vigorosa do sistema de justiça internacional”.

Vejamos então alguns aspectos das supostas transgressões que a Amnistia Internacional atribui ao governo de Maduro

Graves violações dos direitos humanos

Os economistas Mark Weisbrot, do Centro de Investigação económica e Política dos Estados Unidos e Jeffrey Sachs, da Universidade de Colúmbia, revelaram recentemente que as sanções impostas pelos Estados Unidos à Venezuela são responsáveis por dezenas de milhares de mortes. Este é o preço exigido aos venezuelanos, com tendência para ser ainda mais elevado, pela mudança de regime que a Amnistia Internacional está implicitamente a promover.

Carência de medicamentos e alimentos

Desde 2015, quando o presidente Obama as instaurou, os Estados Unidos aplicam sanções ilegais cada vez mais incapacitantes à Venezuela, com o objectivo de espalhar a miséria entre a população na esperança de que esta se vire contra o seu próprio governo democraticamente eleito. As sanções destinam-se especificamente a sufocar a economia, de modo a que a Venezuela não consiga resolver os seus problemas. O governo dos Estados Unidos orgulha-se do impacto das sanções. A Amnistia Internacional lamenta as condições resultantes das sanções que ela apoia tacitamente e pede “punições” cada vez maiores contra o governo de Caracas. Aliás, novas sanções foram impostas ainda recentemente, durante o mês de Maio.

Violência generalizada

O governo dos Estados Unidos tem ameaçado repetidamente, e sem pedir licença, com uma intervenção militar na Venezuela se o governo não se demitir. Além dessa ameaça militar, os Estados Unidos travam uma guerra contra a Venezuela por meios económicos e diplomáticos, sem mencionar a guerra de baixa intensidade, como ataques cibernéticos. A oposição de extrema-direita exige o derrube extra-legal do governo e evita meios eleitorais para efectuar as pretendidas mudanças políticas. A Amnistia Internacional tem toda a razão em notar que a partir de 2017 foi infligida uma nova violência contra o povo venezuelano, mas omite o papel da oposição ao provocar essa situação com as suas guarimbas (tumultos agressivos e desestabilizadores) e outras acções. Enquanto isso, Juan Guaidó, cujo apoio popular está pelas ruas da amargura, pede ao Comando Sul dos Estados Unidos para “coordenar” a agressão.

Como é possível que uma organização que se propõe defender os direitos humanos e a justiça global possa ignorar tão abertamente os factos que não se encaixam na sua narrativa? E que tão obsequiosamente papagueie os tópicos de propaganda de Trump-Pompeo-Bolton-Abrams?

Esqueceu-se de um dos lados do conflito

Por que vai a Amnistia Internacional tão longe, a ponto de se encontrar com Guaidó e dias depois emitir um comunicado condenando o governo de Maduro sem investigar também o outro lado do conflito?

Infelizmente esta não é a primeira vez que a Amnistia Internacional exibe uma tendência imperial associada a esforços de mudança de regime: o mesmo aconteceu e acontece com as situações no Iraque, Líbia, Síria e Nicarágua.

Ainda é necessário desconstruir objectivamente as muitas acusações feitas pela Amnistia Internacional contra a Venezuela, por exemplo “mais de oito mil execuções extra-judiciais cometidas pelas forças de segurança”. O império tem abundância de recursos para produzir propaganda em comparação com a capacidade de combatê-la através de genuínos grupos humanitários. Só a Amnistia Internacional tem um orçamento anual de 300 milhões de dólares e, segundo a Wikipedia, recebe doações do Departamento de Estado norte-americano, da Comissão Europeia e de outros governos, além da Fundação Rockefeller.

São muitas as vezes em que a Amnistia Internacional defende a aplicação da “justiça” através da punição das vítimas do império. Se de facto estivesse preocupada com a justiça, em vez de justificar operações de mudança de regime poderia defender o seguinte:

A suspensão das sanções unilaterais dos Estados Unidos contra a Venezuela, que são ilegais segundo as Cartas das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos; 

Apoiar o diálogo entre o governo eleito venezuelano e a oposição promovido pelo México, pelo Uruguai, pelo Papa Francisco e, mais recentemente, pela Noruega;

Condenar as actividades para mudança de regime e a interferência nos assuntos internos da Venezuela; 

Rejeitar activamente a posição agressiva do governo dos Estados Unidos expressa pelo vice-presidente norte-americano, Michael Pence: “Não é hora de dialogar, é hora de agir”;

Respeitar a soberania da Venezuela e defender o restabelecimento de relações diplomáticas normais entre os Estados Unidos e a Venezuela.

*Membro da direcção de Task Force on the Americas, organização anti-imperialista e de defesa dos direitos humanos com 32 anos de actividade ininterrupta.


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