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LUZ VERDE DE WASHINGTON À ANEXAÇÃO DA CISJORDÂNIA

Os autores da estratégia para liquidar os direitos palestinianos: Trump com o genro Kushner (à esquerda), Netanyahu e o embaixador Friedman (à direita)

2019-06-11

José Goulão; com Martha Ladesic, Nova York

O embaixador dos Estados Unidos em Israel, o militante e activista sionista David Friedman, declarou em entrevista ao New York Times que o Estado israelita tem “o direito” de anexar os territórios da Cisjordânia ocupada, embora “nem todos” – mas sem especificar que tipo de critério usaria para os definir.

Esta entrevista é interpretada como mais um passo da administração Trump no sentido de apoiar o primeiro-ministro em exercício, Benjamin Netanyahu, quando este passar à fase de anexação formal do território palestiniano, intenção que tem vindo a manifestar publicamente.

As declarações de Friedman são feitas também numa clara manifestação de apoio eleitoral a Netanyahu, que desenvolve campanha para novas eleições depois de não ter conseguido formar governo no quadro do Parlamento saído da consulta de Abril. 

As palavras do embaixador norte-americano testemunham a disponibilidade dos Estados Unidos para violarem frontalmente o direito internacional, uma vez que a Cisjordânia é território ocupado e é também a base do Estado Palestiniano previsto na “solução de dois Estados” reconhecida pela comunidade internacional.

Desconhece-se qualquer posição do secretário-geral da ONU, António Guterres, perante a gravidade do conteúdo da entrevista. Guterres adopta normalmente a posição defensiva segundo a qual as posições norte-americanas não invalidam o direito internacional, como se uma posição de desrespeito tomada pela principal potência mundial fosse irrelevante.

Dirigentes palestinianos condenaram já as posições do embaixador, sublinhando que formalizam a intenção norte-americana de “acabar com a solução de dois Estados” e traduzem a maneira como Washington assumiu a estratégia dos colonos sionistas mais extremistas.

Anexação já em movimento

Netanyahu tem afirmado que se for reeleito irá partir para uma anexação gradual da Cisjordânia. Até ao momento, os Estados Unidos evitaram pronunciar-se abertamente sobre tais intenções; a entrevista de Friedman quebrou esse silêncio e coloca a posição norte-americana ao nível da que reconheceu a anexação dos Montes Golã à Síria, colocando-se assim do lado dos violadores do direito internacional.

Até ao presente, Israel tem utilizado vários métodos para ir anexando gradualmente a Cisjordânia sem assumir que o está a fazer: encorajando a criação e a ampliação de colonatos no território; dividindo as comunidades palestinianas em “ilhas” praticamente sem interligação, através da implantação dos próprios colonatos e respectivas infraestruturas de apoio, do muro de separação e da multiplicação de check-points e outras formas de controlo; estendendo a área de Jerusalém em direcção à Cisjordânia como “capital una, indivisível e eterna de Israel”; procedendo a uma limpeza étnica impondo dramáticas e insuportáveis condições de vida aos palestiniano, de modo a que estes abandonem o território e sigam o caminho do exílio.

Limpeza étnica

Este cenário sai reforçado agora com a intenção explicitada por Netanyahu de passar à anexação de facto. E a posição assumida pelo embaixador dos Estados Unidos garante rectaguarda a estes procedimentos ilegais.

Os dirigentes sionistas pretendem anexar a Cisjordânia mas não os palestinianos que nela vivem. A recente aprovação da lei constitucional que define Israel como o Estado dos judeus veio assegurar que os cidadãos de origem árabe que já vivem no território israelita sejam discriminados em termos de direitos e de cidadania; por maioria de razão, o mesmo acontecerá aos residentes da Cisjordânia em caso de hipotética anexação.

No entanto, é previsível que Israel agrave ainda mais as condições de vida dos palestinianos e aumente a repressão para reduzir ao mínimo o número daqueles que insistam em viver nas suas terras.

Daí também o facto de Israel e os Estados Unidos estarem a prever, no chamado “Acordo do Século”, “resolver” o problema dos milhões de refugiados palestinianos para extinguir o “direito ao regresso” estipulado internacionalmente. A solução pretendida por Washington e Telavive seria a atribuição aos refugiados da nacionalidade dos países onde foram acolhidos, em troca de financiamentos concedidos para o efeito.

A entrevista do embaixador Friedman ao New York Times, um jornal fiel aos lobbies sionistas norte-americanos, enquadra-se nesta estratégia multifacetada.

Se a chamada “comunidade internacional” continuar impávida e serena perante a envergadura das movimentações ilegais em curso, permitindo o isolamento cada vez maior dos indefesos palestinianos, tal estratégia só muito dificilmente será travada.



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