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A DISCRETA GUERRA COLONIAL NO SAHEL

2018-09-14

Armando Vicente, Niamey
O Departamento norte-americano da Defesa está a modernizar base militar de Agadez, no Níger, com o objectivo imediato de começar a utilizar drones armados no quadro do reforço da presença militar dos Estados Unidos na região africana do Sahel. A justificação é a habitual: criar condições para tornar mais eficaz o combate ao “terrorismo islâmico” que actua na zona. As verdadeiras razões são outras.

Em Novembro passado, uma patrulha mista constituída por soldados do exército do Níger e forças especiais norte-americanas foi emboscada nas imediações da aldeia de Tongo Tongo por membros de um bando armado. Nove membros da patrulha foram mortos, entre os quais quatro soldados norte-americanos.
O acontecimento não teve a repercussão dramática que seria de esperar entre a comunicação social norte-americana, a não ser quando o presidente Trump fez um comentário considerado despropositado perante a viúva de uma das vítimas.
É que a presença de tropas norte-americanas na região não é um assunto do qual se possa falar abertamente, apesar de se tratar, segundo a porta-voz do Comando Africano (AFRICOM) do Pentágono, do maior destacamento militar em África, logo a seguir ao que se encontra em Djibuti – onde assegura a rectaguarda da intervenção dos Estados Unidos no Iémen, que também não é admitida oficialmente por Washington.
“Posso apenas dizer que há cerca de 800 destacados do Departamento da Defesa no Níger”, declarou Samantha Reho, depois de muitas insistências de alguns jornalistas.
Desde 2013
Essa presença existe desde 2013 - sabe-se por outras vias. No entanto, o assunto continua a ser abafado devido a algumas particularidades da missão. A actividade de tropas norte-americanas no Níger não é do conhecimento do Parlamento deste país – ao contrário do que estipula a Constituição – nem é assunto aberto no Congresso norte-americano. Deputados da oposição declararam-se muito surpreendidos com a morte de quatro soldados de operações especiais dos Estados Unidos numa emboscada no Níger, sobretudo porque não tinham conhecimento de que havia tropas norte-americanas no seu país.
A emboscada contra a patrulha mista nos arredores de Tongo Tongo é apresentada como a razão para o governo de Niamey “ter pedido” ao Pentágono o recurso a drones, de modo a poder combater “os terroristas”.
Porém, já muito antes disso o Departamento da Defesa promovia a modernização da base aérea 201 do Níger, em Agadez, através de um investimento de 110 milhões de dólares. Agadez, durante séculos um importantíssimo entreposto para as caravanas mercantis na orla meridional do Sahara; e, muito recentemente, uma referência para milhares de pessoas carenciadas que, chegadas de vários pontos de África, procuram atingir a Líbia para embarcarem rumo à Europa – nas mãos dos traficantes que proliferam no país tirando proveito da anarquia aqui criada pela NATO.
Situada a relativamente curtas distâncias das fronteiras do Mali, Argélia, Líbia e Chade, Agadez é uma localidade estratégica para combater organizações terroristas – é certo – mas, sobretudo, uma posição ideal para estabelecer mecanismos de domínio militar regional e cuidar de muitos e variados interesses neocoloniais, desde o acesso a minas de urânio até à travagem do fluxo de refugiados, a rogo da União Europeia.
É disto que se trata quando se observam as movimentações de tropas expedicionárias no Sahel, não apenas dos Estados Unidos mas também de outras proeminentes potências da NATO como França, Alemanha e Itália, frequentemente sob cobertura da bandeira da ONU - como “forças de paz”.
Uma teia de interesses e de domínio
No Níger reina há seis anos o presidente Mahmadu Yussufu, considerado um incondicional amigo dos Estados Unidos e demais grandes potências da NATO, que facilmente lhe perdoaram o facto de ter mandado prender o seu principal rival político nas vésperas das eleições de 2016, nas quais foi “reeleito” com mais de 90 por cento dos votos. Muito recentemente, durante uma visita oficial a Niamey, o presidente francês, Emmanuel Macron, fez questão de prestar a sua homenagem a Yussufu, declarando-o como “um democrata exemplar”.
Yussufu fez carreira como engenheiro em minas de urânio do Níger que são estratégicas para o gigante francês da energia AREVA, e cujas concessões foram garantidas graças ao empenhamento de Sarkozy como presidente, pouco tempo antes de se ter destacado no derrube e assassínio do dirigente líbio Muhammar Ghadaffi, que aliás lhe financiara a eleição – como hoje é corriqueiramente sabido.
É a partir de 2013, já com Yussufu como presidente, que as tropas norte-americanas marcam presença no Níger através de elementos de forças especiais cuja missão oficial seria a de treinarem as tropas locais no combate ao terrorismo. A modernização da base aérea de Agadez e o recurso a drones armados para controlo das múltiplas fronteiras do Níger estiveram, desde logo, no centro dos investimentos do Pentágono. A Argélia, a Líbia, o Chade, a Nigéria – onde pontifica o Boko Haram – o Benim, o Burkina Faso e o Mali têm fronteiras com o Níger, pelo que pouco mais haverá a acrescentar sobre a estratégica posição regional deste país em termos territoriais e das apetecíveis riquezas naturais, do petróleo ao urânio e lítio, do ouro aos diamantes.
Na sequência da destruição da Líbia – na qual as forças da NATO se serviram de vários grupos “terroristas islâmicos” – alguns destes prosseguiram as actividades como ramos da al-Qaida e do Estado Islâmico em países adjacentes, designadamente no Mali. Desta feita, em alguns casos entraram em choque com a “estabilidade” e os regimes defendidos pelas potências ex-aliadas, o que causou fricções regionais no Sahel enquanto a cooperação prosseguia, por exemplo, na Síria.
As consequências da emboscada montada pelo Boko Haram, em Novembro de 2017, divulgando a presença de tropas norte-americanas no terreno, tornou também explícita a existência dos cerca de 200 drones MQ-9 Reapers, que aguardam em Niamey o fim das obras em Agadez. Entretanto, os aparelhos têm vindo a ser utilizados em modo de recolha de informações alegadamente sobre as actividades dos “grupos terroristas”.
Um “treino” muito especial
As circunstâncias demonstram, porém, que a presença de forças especiais norte-americanas no Níger não se limita à missão oficial declarada – a de treinar as tropas locais.
A não ser que o treino inclua patrulhamentos conjuntos através do país, designadamente nas múltiplas zonas fronteiriças. Recorrendo ao testemunho de vários jornalistas que observaram as movimentações de patrulhas mistas, assistindo inclusivamente a capturas por elas efectuadas, foi possível detectar a sua presença em regiões tão diversificadas como Uallam, junto à fronteira com o Mali; em Aguelal, na fronteira com a Argélia; em Dirku, por onde passam as principais vias de transporte entre o Níger e a Líbia; e em Diffa, zona ao longo da fronteira sudeste com a Nigéria e o Chade.
Seria de supor que tais actividades tivessem realmente como foco principal as movimentações dos grupos terroristas, que ocorrem sobretudo nas zonas fronteiriças. Porém, os resultados parecem ser escassos nessa matéria. Não se nota diminuição da operacionalidade dos bandos armados, designadamente do Boko Haram, que permanece com os seus santuários praticamente incólumes.
“Se pusermos guardas à porta de nossas casas para impedir o acesso de criminosos e eles entrarem na mesma, para que é que precisamos dos guardas”, interroga-se Seydu Bubacar Turé, secretário-geral da Universidade Islâmica do Níger, comentando a utilidade das tropas especiais norte-americanas no alegado combate contra o terrorismo. “Temos uma base norte-americana, uma base francesa, mas o Boko Haram continua a entrar e a matar a nossa gente… Não vejo qual a utilidade que têm”, acrescenta.
Abbas Yahya, um prestigiado imã da zona de Agadez, observa a questão segundo outra perspectiva: não vê como os drones norte-americanos, uma vez armados e em missão, poderão distinguir entre os terroristas e as caravanas de mercadores no deserto, que também se deslocam armadas para se protegerem dos assaltos. “Um drone é dirigido por alguém numa base militar na América e frequentemente comete erros matando pessoas que não são extremistas”, diz. “Isso não resolve problema algum, apenas provocará mais instabilidade.
Uma vaga de corpos expedicionários
O Níger é um dos mais pobres países de África, mas está cada vez mais rico de hóspedes que não são propriamente desejados, a não ser pelo presidente e “democrata exemplar” Mahmadu Yussufu.
Tropas especiais norte-americanas estão presentes no território, à revelia até do próprio Parlamento de Niamey, desconhecendo-se, no fundo, qual a verdadeira missão.
Existem também tropas francesas, que chegaram igualmente em 2013, no âmbito da “Operação Serval”, montada para garantir um regime fiel a Paris no vizinho Mali. Milhares de soldados franceses mantêm posições em vários países da África Central e Ocidental que foram colónias francesas – e agora mais não são do que colónias. Quando Muammar Ghadaffi sugeriu a alguns desses países a adopção de uma moeda alternativa ao Franco CFA, que mantém paridade em relação ao Euro, veja-se o que lhe aconteceu.
No Níger, a tropa francesa não hesitou mesmo em reabrir o forte colonial em Madama, junto à fronteira com a Líbia, logo que Ghadaffi foi posto fora de cena.
Entretanto, também a Alemanha mandou tropas para o Níger, neste caso sob a bandeira das forças de manutenção de paz da ONU que actuam ao longo da fronteira com o Mali. A chanceler Merkel fez questão de visitar o corpo expedicionário germânico durante o ano de 2017.
Mais recentemente, também a Itália mandou os seus soldados – para junto dos colegas franceses, no forte colonial reactivado.
Não surpreende, portanto, que nos últimos anos se tenham consolidado no Burkina Faso e no Mali os golpes dados por militares com formação em países da NATO, movimentos logo de seguida “democratizados” por eleições rigorosamente vigiadas pelas tropas auto-mandatadas para tal
Ao que consta, a crer nas declarações oficiais, estes contingentes ocupam-se de travar os fluxos de refugiados que pretendem atingir a Líbia para depois embarcarem na aventura da travessia do Mediterrâneo, rumo à Europa.
Constata-se, portanto, que a União Europeia envia tropas coloniais para África com o objectivo de combater os refugiados que pretendem sobreviver fugindo à miséria, a guerras e à fome. Uma miséria que, em África como noutros pontos do mundo – na Síria, por exemplo – é, em grande parte, da responsabilidade das potências dominantes na União Europeia.
Sabe-se que Bruxelas paga três mil milhões de euros anuais à ditadura turca para aferrolhar os refugiados do Médio Oriente de maneira a que não cheguem ao espaço da União. Através do que se passa no Níger, fica a saber-se que outro dos métodos da União Europeia para se proteger dos imigrantes é a reactivação de guerras coloniais em África.
Refugiados, terrorismo, tráficos de armas, de drogas, de pessoas são muitas as actividades que surgem no discurso oficial de dirigentes de países da União Europeia e da NATO para justificar a presença de tropas em África – quando chega ao conhecimento dos cidadãos, o que nem sempre acontece.
Desse discurso, porém, não constam as verdadeiras razões – as de sempre, a eternização de relações de dominação. As guerras, mesmo as que são embrulhadas em objectivos nobres, por exemplo a democracia e o humanitarismo, continuam a servir para isso.


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