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CONSELHO DE SEGURANÇA DESAUTORIZA GOLPISTAS

O Conselho de Segurança em reunião no palácio de vidro de Nova York

2019-01-28

O Conselho de Segurança da ONU não deu seguimento às pressões de Estados Unidos e aliados no sentido de legitimar a tentativa de golpe de Estado em curso contra a Venezuela, ao contrário do que sucedera antes das chacinas no Iraque e na Líbia. Sete dos 15 países, entre eles Rússia e a China, opuseram-se. A sessão, que deixou a França em xeque e em choque, teve revelações instrutivas sobre os nefastos papéis desempenhados por António Guterres como secretário-geral da ONU e Federica Mogherini como alta representante da União Europeia para a política externa.

Carla Stea, ONU, Nova York; Global Research/O Lado Oculto

O ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, fez no domingo, na ONU, uma brilhante defesa do governo do presidente Nicolás Maduro contra a tentativa de golpe de Estado na Venezuela conduzida pelos Estados Unidos, os seus procuradores na Europa e regimes latino-americanos de extrema-direita como Peru, Brasil, Argentina, Colômbia e Equador.
Os Estados Unidos convocaram uma reunião “de emergência” do Conselho de Segurança à procura de uma autorização deste órgão para intervir nos assuntos internos da Venezuela, de modo a concretizar uma mudança de regime do mesmo tipo das que espalharam o caos na Líbia e no Iraque depois de a ONU autorizar intervenções militares para derrubar os governos de Saddam Hussein e Muammar Khadaffi.
África do Sul, Guiné Equatorial, Rússia, China, Bolívia, S. Vicente e Granadinas e Cuba foram os países que se opuseram ao que agora se tornou evidente como uma transparente violação do direito internacional e uma tentativa de usurpação do papel das Nações Unidas para servir uma manobra de engenharia política praticada pelo imperialismo capitalista.
O secretário de Estado norte-americano, Michael K. Pompeo, atacou a Rússia e a China por se oporem a uma declaração do Conselho de Segurança condenando o governo de Nicolás Maduro; e destacou também o papel de Cuba como se fora um vilão ao serviço de Caracas, o que pode até ser entendido como um elogio à solidariedade de Cuba, país que, de facto, ajudou a Venezuela a construir os sistemas de assistência médica e de educação desde os primeiros dias da presidência do falecido Hugo Chávez.
Na sua intervenção, Jorge Arreaza citou uma lista praticamente interminável de invasões, golpes e intervenções militares da autoria dos Estados Unidos contra países latino-americanos para imposição da Doutrina Monroe; relembrou a invasão do México em 1912, a desestabilização e derrube do presidente Arbenz na Guatemala, os golpes contra João Goulart e Allende, no Brasil e no Chile, e respectiva substituição dos governos democraticamente eleitos por ditadoras fascistas. Regimes cuja barbárie e as violações dos direitos humanos rivalizaram com a selvajaria da Alemanha nazi, salientou o ministro.

França com telhados de vidro

O chefe da diplomacia venezuelana denunciou o bloqueio imposto ao seu país, que privou o povo de muitos milhares de milhões de dólares, além dos 1200 milhões congelados na Bélgica e em outros países europeus – sem contar o ouro depositado no Banco de Inglaterra e que o Reino Unido se recusa a devolver a Caracas. Medidas deste tipo são responsáveis pela fome que alastra entre alguns sectores da população e pela queda dos padrões de vida do povo venezuelano, provocando vagas de emigração.
Quando a França e a Alemanha defenderam uma mudança de regime na Venezuela, com base em algumas manifestações de massas contra Maduro, as quais poriam em causa a sua legitimidade, o embaixador da Federação Russa, Vassily Nebenzia, lembrou ao representante de Paris a actualidade do movimento dos “coletes amarelos”, cuja existência seria, pela mesma ordem de ideias, um motivo a ter em conta para defender a mudança de regime em França. O embaixador acrescentou, porém, que podia a delegação francesa ficar tranquila porque não era sua intenção pedir uma reunião do Conselho de Segurança com esse objectivo.

Guterres e Mogherini recusaram-se a observar as eleições

Talvez a mais demolidora das revelações feitas pelo ministro Jorge Arreaza na sua intervenção sobre as intenções imperiais teve a ver precisamente com a ONU e com a União Europeia. O dirigente venezuelano informou que no ano passado o presidente Maduro convidou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e a alta comissária da União Europeia para as relações externas, Federica Mogherini, para monitorizarem as eleições presidenciais na Venezuela. Deixando muitos dos presentes visivelmente surpreendidos, o ministro acrescentou que tanto Guterres como Mogherini se recusaram a estar presentes para testemunhar os factos, argumentando, muito antes das eleições, que os resultados seriam uma fraude.
Trata-se de comportamentos que manifestam uma intenção premeditada de desacreditar os resultados das eleições presidenciais venezuelanas de Maio passado, fossem ou não legítimas, deduziu Arreaza; e essa cumplicidade com os esforços feitos para demonizar os processos eleitorais venezuelanos representam grosseiras acusações de corrupção – com os inerentes prejuízos – contra as organizações nacionais e internacionais encarregadas de avaliar imparcialmente a qualidade das eleições.
O embaixador russo Vassily Nebenzia afirmou, entretanto, que a tentativa da Alemanha de invocar a “diplomacia preventiva” como um pretexto para interferir nos assuntos internos da Venezuela era, de facto, um deliberado incitamento à guerra civil no país e nada tem de prevenção.
É difícil ainda ter uma ideia dos desenvolvimentos desta reunião do Conselho de Segurança, onde sete dos 15 países que integram este organismo rejeitam a tentativa golpista. Por aí não passará qualquer autorização para uma agressão militar, restando a possibilidade de países vizinhos agirem unilateralmente, enquadrados pelos Estados Unidos. Um cenário, porém, que levanta muitas interrogações, sobretudo depois de a Rússia ter advertido Washington para “tirar as mãos da Venezuela”.

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