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PALESTINA: NASCE ALTERNATIVA À FATAH E AO HAMAS

Dirigentes das cinco organizações constituintes e independentes encabeçam uma das primeiras manifestações promovidas pela nova Aliança Democrática Palestiniana

2019-01-14

José Goulão, com Edward Barnes, Ramallah

Aliança Democrática Palestiniana é a nova força política do povo da Palestina, que pretende quebrar o domínio bipartidário estabelecido pela Fatah e pelo Hamas. Resulta da coligação de cinco organizações da esquerda palestiniana, integra personalidades independentes e tentará conseguir que sejam ultrapassadas as divisões internas enquistadas entre as organizações dominantes.

A coligação será dirigida pelos cinco partidos constituintes e não terá um dirigente único como rosto identificativo. As organizações integrantes, entre elas algumas das mais históricas e carismáticas que deram corpo à resistência palestiniana e à Organização de Libertação da Palestina (OLP), são a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), a Frente Democrática de Libertação da Palestina (FDLP), o Partido Popular Palestiniano (PPP), o Partido Democrático Palestiniano (PDP) e a Iniciativa Nacional Palestiniana (PNI, sigla anglo-saxónica). Entre as personalidades independentes estão Mahmud al-Akr e Omar Assaf.
A apresentação aos jornalistas decorreu simultaneamente em Gaza e em Ramallah, na Cisjordânia. No texto sobre a nova organização lê-se que “a aliança tem o objectivo de se transformar num órgão político capaz de por simultaneamente fim à divisão palestiniana e ao domínio das duas principais forças políticas, a Fatah e o Hamas”.
Mariam Abu Daqqa, membro da Comissão Política da FPLP, declarou à publicação Al-Monitor que a criação de uma terceira força palestiniana, ao lado dos movimentos Fatah e Hamas, visa promover a causa palestiniana e quebrar o monopólio das duas entidades em relação à condução dos assuntos palestinianos.
Mustafa Barghouti, secretário-geral da PNI, declarou à mesma publicação que os mecanismos de intervenção da Aliança Democrática Palestiniana assentarão no princípio de participação colectiva nos processos de decisão.

Concentrações e manifestações

Khaled Mansour, membro da Comissão Política do Partido Popular Palestiniano e da Comissão Fundadora da Aliança Democrática, acrescentou que nas primeiras semanas do ano estão previstas grandes concentrações populares na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Além disso, os palestinianos serão chamados a participar em marchas pacíficas de oposição aos ataques israelitas contra os territórios.
A actividade política nos territórios da Autonomia Palestiniana e da própria Resistência Nacional tem estado estagnada pelo antagonismo cada vez mais expressivo, e incentivado tanto por países árabes como por Israel, entre o Hamas, que governa a Faixa de Gaza, e a Fatah, que domina o poder em Ramallah.
A vida quotidiana das populações está à mercê da violência israelita, enquanto permanece refém, não apenas do antagonismo entre as duas forças principais, como da colaboração de cada uma destas com o próprio poder israelita e países árabes com poder financeiro, como o Qatar e a Arábia Saudita. Além do Egipto, por seu turno mais próximo de Israel do que nunca, sobretudo na asfixia imposta ao território de Gaza.

Perda de independência

A prolongada dicotomia política e o fracasso do processo de autonomia têm tido repercussões gravíssimas na diáspora palestiniana, onde a resistência se dilui enquanto o dinamismo que lhe era inerente se tem transferido para a confrontação entre os dois movimentos e também para o envolvimento em guerras que não têm a causa palestiniana no horizonte imediato, como as do Iraque e da Síria. Conflitos estes que, por acréscimo, têm repercussões negativas nas duas maiores comunidades palestinianas no exílio – as do Líbano e da Jordânia.
Além disso, a aliança cada vez mais evidente entre Israel e Estados da Península Arábica, designadamente do Golfo, tem-se reflectido na existência de enormes pressões, divisões e dependências que caracterizam hoje as práticas políticas em Ramallah e em Gaza.
Por exemplo, as negociações existentes entre o Hamas e Israel têm decorrido através do Qatar, o país onde aquele movimento palestiniano tem a sua sede e do qual recebe cerca de 100 milhões de dólares mensais para administrar o território. A entrega destas verbas agravou o contencioso entre o movimento islâmico palestiniano e a Fatah, que cortou a verba mensal destinada à administração de Gaza.
A criação da Aliança Democrática surge, por isso, também como uma tentativa para restaurar o espírito original da OLP, que é o de gerir a Resistência Palestiniana, enfrentando Israel e salvaguardando a independência em relação a todos os países árabes. Neste facto assentou o segredo da histórica afirmação independente do problema palestiniano, transformando-o na causa central do Médio Oriente.
Os confrontos sem solução entre o Hamas e a Fatah têm contribuído para diluir o problema palestiniano entre muitos outros conflitos surgidos no Médio Oriente, designadamente as guerras provocadas pelos Estados Unidos. Tal facto reduziu a sua projecção interna e externa, protelando uma solução digna para os palestinianos e deixando-os à mercê dos Estados Unidos, de Israel e de um “processo de paz” que ignora os seus direitos legítimos, reconhecidos no Direito Internacional.

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