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VISÃO DO TERROR: UCRÂNIA COM ARMAS NUCLEARES

Foto de época de um míssil intercontinental nuclear soviético no silo em Dnipro, território da Ucrânia

2018-12-20

Federico Pieraccini*, Strategic Culture/O Lado Oculto

Esforços para prevenir a proliferação nuclear têm sido das poucas coisas capazes de suscitar acordos entre as grandes potências, tanto para limitar a disseminação de armas desse tipo como para travar novas entradas no restrito clube dos possuidores.

Porém, o ex-representante da Ucrânia na NATO, o major-general Petro Garashchuk, declarou recentemente durante uma entrevista à estação de TV Obozrevatel:
“Digo-o mais uma vez. Temos a capacidade para desenvolver e produzir as nossas próprias armas nucleares, sejam dos modelos existentes no mundo ou como as que eram fabricadas na antiga União Soviética, em instalações localizadas na cidade de Dnipro (antiga Dnipropetrovsk), capazes de produzir mísseis balísticos intercontinentais. Nem os Estados Unidos, nem a Rússia nem a China produziram um míssil chamado Satã (…) Ao mesmo tempo, a Ucrânia não precisa de se incomodar com sanções internacionais quando criar armas nucleares”.
A questão das armas nucleares uniu muitas vezes as grandes potências, especialmente após a assinatura do Tratado de Não Proliferação (TNP). A decisão de reduzir o número de armas nucleares no final da guerra fria foi acompanhada pela necessidade de evitar a disseminação desse tipo de armas de destruição massiva por outros países, correspondendo aos interesses da humanidade.
No período derradeiro da guerra fria foram notáveis os esforços da comunidade científica para convencer os dirigentes norte-americanos e soviéticos de que um conflito com armas nucleares, ainda que limitado, poderia liquidar a humanidade. Moscovo e Washington iniciaram as conversações START (Tratado de Redução de Armas Estratégicas) com o objectivo de reduzir os riscos de criar um inverno nuclear. A seguir à dissolução da União Soviética, o Memorando de Budapeste sobre Segurança permitiu que a Ucrânia renunciasse às suas armas nucleares e aderisse ao TNP, mercê de garantias outorgadas pelos signatários.

O perigo não desapareceu

Nos últimos anos começaram a circular rumores de que a Ucrânia poderia regressar ao clube nuclear, especialmente sob o pretexto de comportamentos atribuídos à Coreia do Norte. De acordo com essas alegações, Kim Jong-un considera que a dissuasão nuclear continua a ser a única maneira de garantir a protecção total contra ambições de hegemonia regional. Entretanto, a situação da Ucrânia é diferente da que caracteriza a Coreia do Norte, sobretudo em termos de alianças e relações de poder. O actual governo de Kiev resultou de um golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos, a NATO e a União Europeia, golpe esse realizado por nacionalistas extremistas que têm a sua inspiração no colaboracionista nazi Stepan Bandera.
O longo braço da NATO esteve profundamente envolvido nas maquinações sombrias que conduziram à ascensão de Petro Porochenko à presidência ucraniana. Do ponto de vista geopolítico, a operação da NATO na Ucrânia – instigando uma guerra civil na sequência do golpe – é uma réplica do que aconteceu na Geórgia. A NATO procura organizar países explorando os sentimentos anti-russos existentes em extractos da população, canalizando a russofobia para acções concretas com o objectivo de minar Moscovo. A guerra imposta na região do Donbass é um excelente exemplo.

À beira do abismo

No entanto, Kiev tem sido incapaz de subjugar os rebeldes nessa região; o conflito caiu num impasse e a popularidade do governo continua a desmoronar-se à medida que a qualidade de vida da população sofre quebras vertiginosas. Os Estados Unidos e a União Europeia parecem não ter apoiado Porochenko como este previa, o que o tem deixado desesperado e tentado a recorrer a provocações, como o incidente no Estreito de Kerch e outras que têm vindo a ser relatadas pelos responsáveis da República Popular de Donbass.
A ideia do regresso da Ucrânia à produção de armas nucleares tem vindo a ser impulsionada por sectores com influência ainda reduzida mas que poderão ganhar capacidade de manobra durante os próximos meses, sobretudo se o conflito continuar estagnado e o regime de Kiev se sentir frustrado e desesperado.
A ala neoconservadora da elite governante norte-americana, absolutamente comprometida com a destruição da Federação Russa, poderá eventualmente encorajar Kiev nesse caminho, apesar dos incalculáveis riscos que isso representa. A União Europeia, por seu lado, poderia vir a sentir-se inquieta com tal possibilidade, que a colocaria entre a espada e a parede. O governo ucraniano poderá sentir-se tentado, por um lado, a extrair da União a assistência económica de que tanto necessita; por outro lado, os neoconservadores continuariam a incitar irresponsavelmente os governantes de Kiev.
Moscovo, se vier a ser confrontado com tal possibilidade, não ficaria imóvel. Mesmo tendo boas relações com a Coreia do Norte, a Rússia não estava propriamente encantada pela perspectiva de ter um vizinho com armas nucleares. Previsivelmente, a resposta em relação à Ucrânia seria bastante mais severa. Uma Ucrânia com armas nucleares representaria uma linha vermelha para Moscovo, tal como são a Crimeia e Sebastopol. Recordam-se as palavras do presidente russo ao abordar a possibilidade de uma invasão da Crimeia pela NATO durante o golpe de 2014:
“Estávamos prontos para isso (colocar o arsenal nuclear russo em estado de alerta). Nessa região vivem russos, estão em perigo, não podemos abandoná-los. Não fomos nós demos qualquer golpe, foram nacionalistas e outras pessoas guiadas pelo extremismo. Acredito que ninguém deseja que a situação se transforme num conflito global”.
Como Kiev está à beira do abismo, será aconselhável que os neoconservadores, os neoliberais e os seus seguidores europeus pesem as consequências de aconselhar ou não o governo ucraniano a saltar. Dar o aval nuclear a uma direcção ucraniana tão instável e afastada da realidade pode ser uma faísca capaz de desencadear o Juízo Final.

*Especialista em assuntos internacionais, conflitos, políticas e estratégias


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