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O PENTÁGONO E A GUERRA CONTRA A HUAWEI

Sem palavras

2018-12-13

Manlio Dinucci*, Il Manifesto/O Lado Oculto

As tentativas de Donald Trump para reequilibrar os fluxos financeiros entre a China e os Estados Unidos não corresponde unicamente à sua vontade de fazer regressar os empregos deslocalizados. Com efeito, a entrada em funcionamento de novas infraestruturas de transportes e comunicações ameaçam, a curto prazo, a liderança norte-americana no mundo. O braço de ferro em torno da Huawei ilustra o modo como as preocupações económicas e militares se conjugam. Vários Estados observaram já que Washington ainda não consegue desencriptar aparelhos daquela marca. Por exemplo a Síria, que reequipou os serviços de inteligência com aparelhagem Huawei e proíbe os seus funcionários de utilizar outra marca.

Depois de ter imposto pesadas tarifas sobre mercadorias chinesas no valor de 250 mil milhões de dólares, o presidente Trump aceitou “uma trégua” no G20 ao adiar a adopção de novas medidas, sobretudo porque a economia norte-americana foi atingida pela resposta chinesa.
Porém, existem razões estratégicas além das comerciais. Sob pressão do Pentágono e das agências de espionagem, os Estados Unidos proibiram o uso de smartphones e infraestruturas de telecomunicações da empresa chinesa Huawei, alegando que tais aparelhos podem ser usados para fazer espionagem; e pressionam os seus aliados para que façam o mesmo.
A advertência em relação à espionagem chinesa, dirigida sobretudo a Itália, à Alemanha e ao Japão, países onde existem as mais importantes bases militares norte-americanas, foi proferida pelas mesmas agências dos Estados Unidos que, durante anos, espiaram as comunicações telefónicas dos seus aliados, particularmente em Itália e na Alemanha.
A empresa norte-americana Apple, na época líder absoluto do sector, foi ultrapassada pela Huawei (uma sociedade que é propriedade dos seus assalariados, enquanto accionistas), que se posicionou na segunda posição mundial atrás da sul-coreana Samsung. A situação é exemplar quanto a uma tendência geral.
Os Estados Unidos – cuja supremacia económica se apoia essencialmente no dólar, até aqui a moeda principal das reservas monetárias e comerciais mundiais – sentem-se cada vez mais ultrapassados pela China, simultaneamente em capacidade e qualidade produtivas. “O Ocidente”, escreve o New York Times, “estava seguro de que a abordagem chinesa não iria funcionar. Bastar-lhe-ia esperar. E ainda continua à espera. A China prepara uma vasta rede global de comércio, investimento e infraestruturas que redesenhará as relações financeiras e geopolíticas”.
A situação resulta sobretudo, mas não unicamente, da Nova Rota da Seda que a China está prestes a concretizar através de 70 países da Ásia, da Europa e de África.

Uns constroem, outros destroem

O New York Times debruçou-se sobre 600 projectos realizados pela China em 112 países. Por exemplo: 41 oleodutos e gasodutos; 199 centrais, sobretudo hidroeléctricas (entre as quais sete barragens no Camboja que cobrem metade das necessidades do país em electricidade); 203 pontes, estradas e vias férreas e vários grandes portos no Paquistão, Sri Lanka, Malásia e outros países.
Washington considera tudo isto como “uma agressão contra os nossos interesses vitais”, como pode ler-se na “Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos da América 2018”, elaborada pelo Pentágono. Esta instituição define a China como “um competidor estratégico que utiliza uma economia predadora para intimidar os vizinhos”, esquecendo-se da série de guerras conduzidas pelos Estados Unidos, incluindo contra a China até 1949, para despojar o país dos seus recursos.
Enquanto a China constrói barragens, vias férreas e pontes, úteis não apenas para a sua rede comercial mas também para os países onde são construídas, nas guerras norte-americanas as barragens, as vias férreas e as pontes são os primeiros objectivos a ser destruídos.
A China é acusada pelo Pentágono de “querer impor, a breve prazo, a sua hegemonia na região do Índico e do Pacífico e pretender apanhar os Estados Unidos de surpresa para alcançar um predomínio global no futuro”. Em conjunto com a Rússia, por sua vez acusada de querer “desfazer a NATO em pedaços” e “subverter os processos democráticos na Crimeia e no Leste da Ucrânia”.
Daí o “incidente no Estreito de Kerch, provocado por Kiev sob a direcção do Pentágono para impedir o encontro Trump – Putin no G20 (como aconteceu) e para fazer entrar a Ucrânia na NATO, da qual já membro de facto.
A “competição estratégica a longo prazo com a China e a Rússia” é considerada pelo Pentágono como uma “primeira prioridade”. Para esse efeito “modernizará as suas forças nucleares e reforçará a aliança transatlântica da NATO”.
Atrás da guerra comercial prepara-se a guerra nuclear.

*Geógrafo e geopolitólogo


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