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KERCH: EUA TESTARAM RESPOSTAS DA RÚSSIA (2)

Kurt Volker, embaixador norte-americano em Kiev, coordenou a operação desencadeada pela Marinha ucraniana no Estreito de Kerch; é um colaborador frequente das forças armadas ucranianas e da Guarda Nacional.

2018-12-07

Valentin Vasilesco*, Reseau Voltaire; com Castro Gomez, Moscovo

Os dados sobre o papel de aviões de reconhecimento dos Estados Unidos e Israel no incidente de Kerch  foram confirmados pelos serviços de informação militares da Rússia (FSB) - dos quais depende a Guarda Costeira - que divulgaram os vídeos dos interrogatórios dos marinheiros ucranianos detidos a bordo de um dos navios.

Destes dados deve concluir-se que a comunicação social internacional abordou de maneira deficiente os acontecimentos de 25 de Novembro do Estreito de Kerch ao fazer crer que a Rússia limitara os direitos do tráfego marítimo internacional. Em minha opinião, este incidente poderá ter graves consequências militares para a Rússia, incluindo a possibilidade de se arriscar a perder a Crimeia.
As tropas terrestres nem sempre dispõem de suficientes informações sobre o inimigo e recorrem a um processo de “reconhecimento” para obterem dados suplementares. Por exemplo, um grupo de reconhecimento a bordo de veículos de grande mobilidade trava o combate contra o inimigo durante alguns minutos e retira-se rapidamente, se não for capturado.
Durante o incidente ocorrido no Estreito de Kerch, em 25 de Novembro de 2018, os dois pequenos couraçados ucranianos (Berdiansk e Nikopol), da classe Gyurza-M, efectuavam uma operação de reconhecimento. O seu objectivo não era o de cruzar o Estreito de Kerch, mas sim desencadear uma reacção do dispositivo de combate russo encarregado de defender a ponte sobre o estreito. As duas embarcações eram ideais para este tipo de missão, porque são rápidas e mais manobráveis do que os navios da Guarda Costeira e a Marinha bem armada.

A parte invisível do incidente

Esta foi a parte visível do incidente. Existe um outro aspecto, invisível, bem mais importante que o conteúdo divulgado pelos media.
De facto, as informações resultantes de uma “operação de reconhecimento” não são recolhidas pelo grupo que estabelece contacto com o inimigo, isto é, no caso presente, os pequenos navios Berdiansk e Nikopol da Marinha Militar ucraniana; a tarefa compete a uma outra estrutura de reconhecimento, que age secretamente.
Esta é montada especialmente para vigiar a reacção do inimigo (isto é, o dispositivo russo de defesa da ponte e do Estreito de Kerch), recorrendo a meios de observação terrestres, aéreos, navais, sistemas de detecção de emissões em frequências rádio, sistemas de detecção de radar, infravermelhos e outros. O Exército ucraniano não instalou um dispositivo com essa complexidade no Estreito de Kerch porque não tem meios para isso. Porém, como ficou demonstrado no artigo anterior, aviões norte-americanos e israelitas estiveram muito activos na região um pouco antes do incidente.
Em 5 de Novembro, um avião russo SU-27 interceptou um avião norte-americano ELINT EP-3E da série 157316, que descolara da base de Souda, na ilha de Creta, voando nas proximidades das águas territoriais da Crimeia. A 19 de Novembro, um avião de reconhecimento israelita Gulfstream G-550 Nachshon Aitam (identificação de voo 537) sobrevoou o Mar Negro em redor do Estreito de Kerch.
O incidente aconteceu a 25 e foi vigiado durante todo o dia por aviões de reconhecimento norte-americano SIGINT. Um deles, de tipo RC-135V, série 6414841, identificação JONAS 21, da base de Souda em Creta, evoluiu no litoral do Mar Negro, perto da Crimeia. Um segundo aparelho, um drone de elevada altitude do tipo RQ-4B, série 11-204 e a identificação FORTE10, voou na região leste da Ucrânia perto do Mar de Azov. O RQ-4B foi expedido da base naval norte-americana de Sigonella, na Sicília.
Dois dias depois, a 27, um outro avião de reconhecimento P-8A série 168859 fez um voo de reconhecimento no Estreito de Kerch e na Crimeia, a partir da base de Sigonella.
O SIGINT (sinais de inteligência) é um processo de vigilância integrando a intercepção de comunicações (rádio, telefones móveis, linhas de dados, Internet), isto é, COMINT (comunicações de inteligência) e a intercepção de sinais de radares e outros dispositivos de navegação, de detecção ou de interferência (infravermelhos, laser) denominados ELINT (electrónica de inteligência).
Graças a estes equipamentos montados em aviões de reconhecimento, o incidente provocado pelos navios ucranianos no Estreito de Kerch permitiu aos Estados Unidos conhecer ao pormenor: a composição e a localização do dispositivo terrestre e marítimo russo destinado a proteger o estreito; a estrutura de gestão e as frequências de rádio utilizadas; os passos do procedimento de intervenção e as responsabilidades das várias subunidades russas - aérea, terrestre e naval - de acordo com o plano de cooperação; as direcções e os sectores mal defendidos ou vulneráveis.
Apesar de os pequenos navios ucranianos e as suas tripulações terem sido detidos pelas forças russas, fizeram o seu trabalho. Uma missão que só poderia ter sido atribuída pelos Estados Unidos.
                                                                                                        
**Analista militar; ex-comandante adjunto do aeroporto militar de Otopeni, Roménia

ASPECTOS COMPLEMENTARES
A Rússia divulgou três interrogatórios de marinheiros ucranianos feitos prisioneiros no incidente do Estreito de Kerch e um documento apreendido nos navios.
Segundo os dados apurados, a operação foi planeada pela Ucrânia em cooperação com potências estrangeiras. Dois oficiais dos serviços de informações militares ucranianos estavam a bordo para coordenar a missão. Foram eles que proibiram os marinheiros de responder às mensagens russas quando os navios de guerra penetraram nas águas territoriais russas reivindicadas pela Ucrânia numa distorção do Direito Marítimo Internacional.
A participação de Israel da missão não é estranha. O país não é não é membro da NATO, mas tem um gabinete de ligação na sede da aliança, em Bruxelas. Quatro oficiais e 31 soldados israelitas participaram nos confrontos na Praça Maidan integrados nas hostes do partido nazi Svoboda, no quadro dos serviços secretos clandestinos (stay-behind) da NATO.
A supervisão da operação esteve a cargo do embaixador norte-americano na Ucrânia, Kurt Volker, recrutado pela CIA quando ainda era aluno da Universidade de Georgetown, em Washington. Antes de ser integrado no serviço diplomático trabalhou na sede da CIA, em Langley. Iniciou a carreira diplomática como “conselheiro” de Richard Holbrook durante a guerra para desmantelamento da Jugoslávia. Posteriormente tornou-se assistente de Victoria Nuland, então embaixadora norte-americana na NATO, herdando dela esta posição. Nuland desempenhou as principais responsabilidades estratégicas no golpe fascista na Ucrânia, em 2014, juntamente com o então embaixador em Kiev, Geoffrey R. Pyatt, agora em missão na Grécia e estendendo as actividades intervencionistas através dos Balcãs. Volker sucedeu-lhe em Kiev, depois de ter sido o representante do Departamento de Estado para acompanhar as ofensivas das tropas de Kiev contra as populações da região de Donbass; e desenvolve agora, como embaixador, o trabalho dos antecessores num quadro de interligação entre a diplomacia e a agência de espionagem aplicando o guião de uma estratégia intervencionista e provocatória.

 Castro Gomez



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