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VENEZUELA: O ATENTADO, OS EXECUTORES, OS MANDANTES

2018-08-15

César Augusto Carnoto, Caracas; Mário Ramírez, Miami

A operação para assassinar o presidente Nicolás Maduro e outros membros dos órgãos de soberania da Venezuela, em 4 de Agosto, foi treinada numa propriedade em território colombiano e financiada por residentes neste país e nos Estados Unidos, de acordo com provas apresentadas pelas autoridades venezuelanas. É dado igualmente como provado que dirigentes máximos colombianos e norte-americanos sabiam da conspiração.

“Não há, na história deste país, a figura de magnicídio na luta pelo poder”, declarou o presidente Maduro nas horas que se seguiram ao atentado falhado, chamando a atenção para circunstâncias próprias de um crime articulado a partir do estrangeiro, se bem que com a participação da oposição terrorista interna. Durante todos estes anos”, disse Nicolás Maduro, “a oposição venezuelana navegou em duas águas: nas águas infectas do golpismo, da conspiração permanente, e nas águas da luta política e eleitoral”.

No entanto, as autoridades de Caracas encontraram provas do envolvimento de Estados e organizações estrangeiras a partir das investigações físicas para desmontagem da tentativa de assassínio e das declarações dos operacionais que foram detidos nas horas imediatas. Altos dirigentes colombianos, norte-americanos e o presidente da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luís Almagro, estão entre os responsáveis directos e indirectos do crime.

Em termos operacionais, o atentado com drones foi cometido por um grupo terrorista treinado numa propriedade chamada Atalanta, em Chinacóta, um município situado no departamento colombiano de Norte de Santander. Os criminosos foram enquadrados por esquadrões da morte que fazem parte do aparelho terrorista clandestino ao serviço do governo da Colômbia, país que tem, na prática, um estatuto de membro da NATO.

O financiador visível da operação foi Julio Borges, opositor venezuelano que vive numa mansão colombiana e terá oferecido 50 milhões de dólares e residência nos Estados Unidos a todos os executores. Programas televisivos emitidos a partir de Miami criaram, antes e depois, o ambiente para enquadrar o atentado e garantir que os mandantes não ficarão por aqui, apesar do fracasso.

A utilização da entidade “Soldados de Flanela” para reivindicar a autoria de operação é considerada uma cortina de fumo para tentar centrar o epicentro da “revolta” na chamada “resistência” venezuelana.

“Maduro que se prepare, porque este grupo constituído por amigos meus é formado por pessoas bastante competentes; já apanhou um primeiro susto, mas haverá mais”, declarou e prometeu Jaime Bayly, um peruano radicado em Miami que dirige um programa de televisão anti venezuelano.

Na emissão de 6 de Agosto do seu programa, Bayly revelou que participara numa reunião conspirativa na qual lhe foi transmitido: “No sábado vamos matar Maduro com drones; já experimentámos os drones em Caracas e funcionam”.

Os mandantes em Washington e Bogotá

Até aqui, a história do golpe tem sido a dos protagonistas directos.

Porém, os intérpretes mais importantes, os mandantes do crime, são outros.

Há um ano, também em Agosto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump quis conhecer junto dos seus colaboradores de então as razões pelas quais o Pentágono não invadia a Venezuela, uma vez que a “ditadura” continua a dar provas de resistir “à democracia”. Tanto mais, lembrou o presidente, que existem duas histórias de invasões de sucesso: as de Grenada e do Panamá.

O secretário de Estado e o conselheiro de segurança nacional da altura, respectivamente Rex Tillerson e HR McMaster, explicaram a Trump que tal aventura não era aconselhável, tanto do ponto de vista militar como diplomático; e que as invasões citadas aconteceram em circunstâncias diferentes e em países com outras dimensões, além de reconhecidamente incapazes de resistir militarmente ao exército imperial.

Mesmo assim, Trump assumiu publicamente a hipótese de “opção militar” contra a Venezuela, encontrando então algumas reservas da parte do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e de outros presidentes latino-americanos com os quais se reuniu.

Neste quadro, um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional norte-americano resumiu então que Washington mantém “todas as opções à sua disposição para restaurar a democracia e instaurar a estabilidade na Venezuela” – o país com mais abundantes reservas de petróleo do mundo.

De então para cá, as operações de desestabilização económica e política contra a Venezuela continuaram a suceder-se, designadamente a imposição de sanções pelos Estados Unidos, Canadá e União Europeia atingindo entidades e dirigentes venezuelanos, a propósito de supostas violações de direitos humanos e acusações de tráfico de droga. O ex-secretário de Estado adjunto norte-americano para os Assuntos do Hemisfério Ocidental, Roger Noriega, escreveu em editorial do New York Times dedicado à Venezuela que “um regime impregnado de corrupção e narcotráfico nunca cederá o poder voluntariamente”. Entretanto, as entidades “não-governamentais” que funcionam como máscaras da CIA continuaram a enviar milhões de dólares para as organizações venezuelanas de oposição, principalmente as que dão primazia ao terrorismo e à desestabilização.

Ou profetas ou bem informados

Num dos últimos dias de Julho passado, o presidente cessante da Colômbia, Juan Manuel Santos, declarou à comunicação social que “vejo próxima a queda de Nicolás Maduro”. E “oxalá isso aconteça de forma pacífica”, acrescentou, abrindo assim a porta para a eventualidade de acontecimentos de outro tipo, como os registados uma semana depois em Caracas. “Oxalá Maduro caia já amanhã”, desejou o presidente da Colômbia em 27 de Julho.

Porém, quando o presidente venezuelano o acusou de ligações ao atentado de 4 de Agosto, Juan Manuel Santos declarou-se ofendido e injustamente acusado, tanto mais que, como disse, “a essa hora estava no baptizado de uma netinha minha”.

A Santos sucedeu já Ivan Duque, um alter-ego do ex-presidente fascista Álvaro Uribe, aliás um político excelentemente relacionado e distinguido no interior da União Europeia.

Preparando a tomada de posse, Duque viajou pelos Estados Unidos e discutiu a Venezuela com um dos mais activos inimigos de Caracas, o secretário-geral da OEA, Luís Almagro.

Em Washington, o novo presidente colombiano encontrou-se com o vice-presidente norte-americano, Michael Pence, com o qual falou da “agenda de segurança” da Colômbia e da situação que se vive no continente, “devido à ditadura da Venezuela”. Pence, por seu lado, realçou que a conversa decorreu em torno de temas como “a aliança estratégica bilateral” e a “necessidade de manter pressão sobre o regime de Nicolás Maduro para enfrentar o trágico colapso a que chegou a democracia na Venezuela”.

Ainda em Washington, Iván Duque reuniu-se também com o secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, a directora da CIA, Gina Haspel, vulgo “a torturadora”, e o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, além de Almagro e dirigentes do Banco Mundial.

Já depois da posse, em 7 de Agosto, Duque promoveu uma reunião de coordenação em Bogotá com o vice-presidente norte-americano, o secretário- geral da OEA e um representante da “oposição venezuelana”. Objectivo: afinar e coordenar as acções na Venezuela - contra um regime popular e democrático sucessivamente sufragado em eleições livres ao longo de mais de duas décadas.

No Conselho de Segurança da ONU, a embaixadora norte-americana, Nikki Halye, continua a levantar o tema dos “direitos humanos” na Venezuela, correspondendo a supostas “preocupações” de Luís Almagro e cujo objectivo recorrente é a imposição de sucessivas sanções e também de um embargo económico idêntico ao que flagela Cuba.

A União Europeia, que em nada se inquietou contra a tentativa de assassínio do presidente venezuelano, faz suas as medidas arbitrárias e desestabilizadoras contra Caracas decididas em Washington e Bogotá.


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