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AFEGANISTÃO: 17 ANOS DE NATO E OS TALIBÃS ESTÃO MAIS FORTES

Há 17 anos a desenvolver a "democracia" no Afeganistão. Inspirados pelas SS hitlerianas, estes são os membros do Scout Sniper Team, do corpo norte-americano de marines, logo operacionais da NATO

2018-10-18

Edward Barnes, Cabul; com Martha Ladesic, Nova York

A ocupação do Afeganistão pela NATO dura há 17 anos. No entanto, os talibãs controlam hoje mais território do que em qualquer ano depois de 2001 e têm posições em 66% do país; o governo afegão, considerado corrupto, dividido e incompetente, exerce a sua influência apenas no distrito da capital; as forças armadas e policiais afegãs criadas e treinadas pelos ocupantes não passam de “fantasmas”. Pelo caminho ficaram pelo menos 3500 soldados da NATO mortos, outros tantos mercenários contratados pela aliança, e mais de 20 mil feridos, apenas no contingente norte-americano.

A guerra do Afeganistão “é um fracasso”, reconhece-se em Washington tanto aos níveis político como militar. Não há qualquer perspectiva de vitória no horizonte, os custos financeiros directos da operação ascendem a dois biliões de dólares e mais 45 mil milhões foram orçamentados para o próximo ano. Mesmo no pico da intervenção, em 2011, quando a administração Obama chegou a ter 110 mil soldados no terreno, com mais 30 mil efectivos do resto da NATO, o efeito máximo alcançado foi manter um controlo periclitante sobre o crescimento da influência dos talibãs – afinal o inimigo a abater.
É certo que foram anunciados ainda outros objectivos quando George W. Bush lançou a guerra, em Outubro de 2001, no seguimento dos atentados de 11 de Setembro em Nova York: desmembrar a al-Qaida e matar ou capturar bin Laden.
Quanto a este, a versão oficial do seu desaparecimento é tão credível como a narrativa criada para explicar os acontecimentos de 11 de Setembro. A ficção mistura-se com a realidade: o que acontece cada vez mais, à medida que se vão conhecendo casos como os de empresas de comunicação contratadas pelos serviços secretos norte-americanos e britânicos para produzirem vídeos como sendo de organizações terroristas.
Quanto à al-Qaida, a sua influência será ínfima no Afeganistão, mas daí exportou filiais através de todo o Médio Oriente, Norte de África, África Central e Europa balcânica, onde desempenham papéis de indiscutível utilidade nas estratégias expansionistas dos Estados Unidos e da NATO. Ora servem de braços mercenários para operações directas comandadas de Washington ou do quartel- general em Bruxelas, como aconteceu na Líbia, na Bósnia ou no Kosovo e acontece na Síria e no Iémen; ora actuam como agentes provocadores que fabricam os pretextos para o lançamento de guerras ou reforço de presenças militares regionais.
No entanto, está acima de qualquer dúvida que o objectivo central proclamado pela NATO há 17 anos – derrotar os talibãs, “democratizar” e estabilizar o Afeganistão – é um fracasso completo.

Governos incapazes

No plano político, a ocupação da NATO salda-se por uma acumulação de falhanços: não democratizou o país, não o dotou com governos autónomos e capazes, não estabilizou a vida afegã.
Os governos que têm estado em funções não passam de equipas actuando sob a direcção dos ocupantes, eleitas através de sucessivos processos de consulta que não merecem qualquer credibilidade. Por um lado, é impossível realizar eleições livres na totalidade do país, uma vez que a guerra prossegue; por outro lado, as denúncias de fraudes são inerentes aos actos eleitorais já realizados, transformados em farsas que o mundo parece aceitar placidamente, via comunicação social de grande consumo.
Acresce que os governos funcionam como ninhos da corrupção que alastra em todo o país, desde o tráfico de armas até ao narcotráfico, a actividade que mais se desenvolveu no país, com grande expressão mundial, desde o início da ocupação pela NATO.
Por vezes, responsáveis norte-americanos ousam dizer que um dos objectivos da presença militar estrangeira no Afeganistão é combater o tráfico de estupefacientes. Se assim é, então há mais um enorme fracasso a inscrever na longa lista dos atribuíveis à Aliança Atlântica. A produção de ópio no Afeganistão utilizado no fabrico de heroína e outros produtos nocivos estabilizou desde 2016 nos valores anuais mais elevados na história do país.
Outra das tarefas atribuídas às tropas ocupantes foi a de formarem e tornarem autossuficientes o exército e a polícias nacionais do Afeganistão.  Mais um rotundo fracasso.

 Em Washington considera-se que estes corpos são autênticos “fantasmas”, além disso em desagregação acelerada devido a conflitos internos, indisciplina e lideranças débeis, precário apoio logístico, deserções e mesmo infiltrações por parte das áreas fundamentalistas islâmicas.
Todas as experiências que têm sido feitas revelaram que as estruturas de governo e segurança montadas pelos contingentes estrangeiros, tanto aos níveis central como distrital, são efémeras porque desligadas da profunda realidade social, tribal e tradicional do país, logo incapazes de sobreviver assim que são deixadas por sua conta.

Talibãs crescem em número e eficácia

Esta situação ocorre enquanto os talibãs se reforçam. Segundo dados norte-americanos, o grupo triplicou os seus efectivos, para 60 mil, nos últimos anos; de acordo com fontes afegãs, os efectivos atingiram mesmo os 80 mil.
Ao mesmo tempo, o equipamento dos grupos armados é cada vez mais eficaz e mesmo sofisticado. Por exemplo, dispõem agora de óculos de visão nocturna que lhes permite realizar operações em condições que até agora lhes eram vedadas.
Um inquérito realizado recentemente pela BBC apurou que os talibãs controlam inteiramente quatro por cento do país e têm influência em 66% do território. As suas zonas de influência alargaram-se do sul – o seu feudo original - para áreas a leste, oeste e mesmo no norte.
Anthony Cordesman, do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, reconhece que “os talibãs controlam hoje mais território do que em qualquer ano desde 2001”. No geral, acrescenta Cordesman, “o aumento das forças dos Estados Unidos no Afeganistão não conseguiu ter um efeito duradouro e os níveis de violência cresceram acentuadamente”.
Mesmo na região de Cabul, os níveis de segurança são cada vez mais vulneráveis. Deslocações de visitantes entre as instalações da NATO e o aeroporto estão a ser feitas de helicóptero, uma vez que as viagens de automóvel se tornaram perigosas.
Que solução para a guerra, uma vez que a vitória militar da NATO parece uma miragem?
Anthony Cordesman cita o chefe dos serviços secretos do Afeganistão para defender que a melhor decisão a tomar seria “uma saída rápida e um acordo com os talibãs”.
Ao contrário de outros grupos islamitas, os talibãs não são “exportadores de terrorismo”, provavelmente cumpririam um acordo que fosse estabelecido, porque a sua estratégia é governar o Afeganistão, acrescenta.
Se assim não for, reconhece Cordesman “a situação no Afeganistão vai provavelmente continuar a deteriorar-se, mesmo que o apoio internacional seja sustentado.”

Washington rejeita a realidade

Entre os principais dirigentes em funções em Washington, porém, ninguém quer ouvir falar em saída, apesar de, ocasionalmente, correrem rumores sobre a existência de negociações informais com os talibãs no Qatar.
É certo que, ainda em campanha eleitoral, Donald Trump proclamou: “Vamos sair do Afeganistão”.
Essa intenção, porém, parece ter perdido validade entre os seus colaboradores mais proeminentes. O contingente da NATO no terreno foi recentemente aumentado em 22 mil efectivos, 15 mil dos quais norte-americanos.
Uma proposta recente de “privatização total” da guerra feita pelo controverso chefe do exército de mercenários Academi/Blackwater tem sido rejeitada tanto em Cabul como em Washington – embora não negando o reforço do envolvimento de empresas deste tipo no conflito.
“Vamos lutar para vencer” e “impedir os talibãs de assumir o Afeganistão”, declarou recentemente o secretário de Estado Michael Pompeo, ex-director da CIA. “Temos que parar os ataques em massa contra a América antes que eles existam”, acrescentou.
O senador republicano Lindsey Graham glosou o mesmo tema por outras palavras: “a última vez que descurámos o Afeganistão aconteceu o 11 de Setembro”.
Até o secretário da Defesa, James Mattis, considerado “mais moderado”, defende a tese de que “a América tem que continuar no Afeganistão para prevenir que rebentem bombas em Times Square”.
Os 17 anos de envolvimento dos Estados Unidos na guerra do Afeganistão, através da NATO, representam mais tempo que a duração somada da Guerra Civil com as das intervenções na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais.
A guerra é um fracasso, não há hipóteses de vitória à vista, o Afeganistão é um território massacrado por um conflito onde apenas os narcotraficantes têm livre-trânsito.
Nada disso demove a organização para criar e alimentar guerras em que se transformou a NATO.

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