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“ELE SABIA ONDE ESTÃO TODOS OS CADÁVERES”

2018-10-18

José Goulão; com Louise Nyman, Istambul e Martha Ladesic, Nova York

Que segredos sujos Jamal Khashoggi levou consigo? Tantos que será impossível apurar qual ou quais deles ditaram o seu assassínio às mãos de operacionais dos serviços secretos sauditas, seus ex-colegas. Homem de mil e um ofícios sombrios, dele alguém disse que “sabia onde estavam enterrados todos os cadáveres”. E não deviam ser poucos na memória de alguém que durante mais de trinta anos foi conselheiro da Casa de Saud e espião às ordens de vários amos.

Oficialmente, Jamal Khashoggi não está morto; está “desaparecido” algures no interior do consulado saudita em Istambul, porque as câmaras de vigilância registaram a sua entrada mas não a sua saída. No fim de contas trata-se de um pormenor, embora oficial, ao qual permanecem apegados apenas os porta-vozes da casa real saudita. Eles e, parcialmente, o presidente dos Estados Unidos, para quem o homem pode ter sido vítima de banditismo comum.
No entanto, os serviços secretos turcos deram conta da chegada a Istambul de 15 operacionais sauditas, transportados em dois jactos privados, e que passaram algum tempo dentro do consulado antes de regressarem a Riade da mesma maneira. E gravações captadas no interior das instalações consulares pelos mesmos serviços secretos turcos – prática ilegal à luz das convenções internacionais – dão conta de sessões de tortura durante as quais Khashoggi terá confessado fazer parte do grupo envolvido numa recente e frustrada conspiração contra Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro e homem forte do regime da Arábia Saudita.
Outras informações revelam que à tortura seguiu-se a morte, esquartejamento e decapitação da vítima. E que foi intenso o movimento de brigadas de limpeza no consulado saudita; o presidente turco, Recip Tayiep Erdogan, revelou que uma parte do interior do consulado foi mesmo pintada.

Começou cedo

Jamal Khashoggi iniciou-se muito jovem nas actividades que lhe granjearam a acumulação de segredos “sombrios e sujos”, como informam as suas resenhas bibliográficas.
Jornalista da imprensa oficial saudita e conselheiro de comunicação da Casa Real, seguiu para o Afeganistão no início da década de oitenta, como um dos principais colaboradores do príncipe Turki Faisal, chefe dos serviços secretos centrais de Riade, a Mukhabarat. Simultaneamente agente destes serviços e da CIA, Khashoggi trabalhou também em cooperação com as organizações de espionagem do Reino Unido e do Paquistão na montagem dos mujahidin, grupos ditos “fundamentalistas islâmicos” criados para combater as tropas soviéticas às quais o governo legítimo do Afeganistão pedira apoio.
Esse processo viria a dar origem à al-Qaida, sob a coordenação de bin Laden, enquadrado pelos serviços secretos a que Khashoggi pertencia.
O príncipe Turki Faisal dirigiu a Mukhabarat desde meados dos anos setenta até 2001, e contou quase sempre com o jornalista-espião-organizador de grupos terroristas como conselheiro e operacional. Faisal abandonou subitamente a chefia dos serviços secretos apenas 10 dias antes dos atentados de Nova York em 11 de Setembro de 2001, cometidos por 19 terroristas, segundo a versão oficial, 15 dos quais eram sauditas - tal como o alegado mentor, bin Laden. Coincidências que fizeram levantar rumores e suspeitas sobre a chefia da Mukhabarat, as quais permanecem.
Khashoggi continuou a assessorar o príncipe Turki Faisal quando este foi sucessivamente, embaixador saudita nos Estados Unidos e no Reino Unido, cimentando assim contactos e experiências. Tornou-se, entretanto, uma espécie de “sionista honorário” pelo modo como desempenhou tarefas no aprofundamento das relações mais ou menos secretas entre Israel e a Arábia Saudita, chegando a ser “especialista” na interpretação e explicação do “processo de paz” israelo-palestiniano e fazendo conferências sobre o tema através dos Estados Unidos.

Peão das “primaveras árabes

As estadas nos Estados Unidos e Reino Unido ampliaram os horizontes e contactos de Jamal Khashoggi, sempre no âmbito das actividades no interior dos serviços secretos do seu país e norte-americanos. A par da aproximação a Israel, consolidou as suas ligações à Irmandade Muçulmana e aos neoconservadores norte-americanos.
Por estas vias, Kashoggi surgiu, naturalmente, associado à estratégia da administração Obama, coincidente com as dos neoconservadores, que esteve na origem de “revoluções coloridas”, como a da Ucrânia, e das suas equivalentes no Médio Oriente e Norte de África, as “primaveras árabes”.
Alargando as prestações jornalísticas para o exterior da esfera saudita, mas dentro da sua zona de influência, Jamal Khashoggi surge nas estações de televisão Al Arab News e Al Jazeera, ao mesmo tempo que desempenhava funções de espionagem nas operações internacionais que então se desenvolviam sob a égide de Washington, da NATO e da sua equivalente regional, o Conselho de Cooperação do Golfo.
Nesse âmbito, Khashoggi esteve por dentro das guerras contra a Líbia e contra a Síria, da “primavera árabe” egípcia e também da invasão saudita do Bahrein, por sua vez para reprimir “a primavera árabe”.

Uma aposta errada

Nos últimos anos, a par da ascensão do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman como homem forte da Casa de Saud o tom das intervenções políticas e jornalísticas de Jamal Khashoggi passou a ser de maior distanciamento em relação à política oficial de Riade. O que lhe terá valido a oferta de uma coluna no Washington Post – na qual o criticismo se acentuou.
Embora continuando a identificar-se com a guerra terrorista na Síria, Khashoggi manifestou-se contra a ruptura da Arábia Saudita com o Qatar e mesmo contra a agressão ao Iémen.
A sua referência no interior do poder saudita passou a ser o príncipe Al-Walee bin Talal, depois um dos muitos membros da família real a ser preso, torturado (no interior do hotel Ritz Carlton de Riade) e expropriado dos seus bens em 2017, quando Mohammed bin Salman assumiu efectivamente o poder devido à debilidade do estado de saúde do rei Salman.
Khashoggi “exilou-se voluntariamente” nos Estados Unidos e rejeitou o convite para reassumir funções à frente da imprensa oficial saudita e como conselheiro da Casa Real. Interpretou esse convite como uma armadilha para o fazer regressar ao país.
Quando muito recentemente procurou renovar a sua documentação pessoal, depois de um divórcio, Jamal Khashoggi optou por fazê-lo no consulado saudita de Istambul, porque “alguém da sua inteira confiança” o aconselhou nesse sentido, dissuadindo-o de procurar o consulado em Washington.
Segundo o Washington Post, a CIA e outros serviços de espionagem norte-americanos sabiam que o jornalista corria perigo de vida, mas não o informaram; o mesmo aconteceu com os serviços secretos turcos.
Durante a tortura de que foi vítima em Istambul foi extorquida a Khashoggi uma confissão segundo a qual teria apoiado uma recente conspiração contra Mohammed bin Salman montada pelas vítimas da repressão de 2017, entre elas o príncipe Al-Walee bin Talal. Esta informação começou a provocar uma debandada de membros de círculos do poder saudita e da própria família real, entre eles o príncipe Ahmed ben Abdelaziz, irmão do rei Salman, que deverá instalar-se em Paris.
Jamal Kashoggi foi silenciado. Pelos acontecimentos em que esteve envolvido nos últimos 30 anos, todos eles relacionados com o terrorismo dito “islâmico”, a chamada “guerra contra o terrorismo” pós 11 de Setembro de 2001 e a estratégia norte-americana e israelita para criar “um novo Médio Oriente”, pode calcular-se a importância dos conteúdos arquivados na memória do jornalista-espião assassinado.
O móbil e os interessados no seu desaparecimento são tantos que provavelmente jamais se saberá quem e por quê o mandou calar. E assim levou para a sepultura a lista “dos lugares onde estão todos os cadáveres”.

 

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