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O TSUNAMI CHILENO COMO PRODUTO DO NEOLIBERALISMO

Ditadura fascista neoliberal de Pinochet, 1973? Não, "democracia" neoliberal de Piñera, 2019

2019-10-24

O que está a passar-se no Chile é mais um desmascaramento das veias predatória e repressiva do regime de neoliberalismo, por sinal no país onde foi aplicado pela primeira vez de maneira nua e crua, sob o controlo da ditadura fascista de Pinochet. A transição para a “democracia” manteve a ditadura económica intacta, pelo que a sublevação popular em curso traduz o facto de o Chile, segundo o Banco Mundial, ser um dos oito países mais desiguais do mundo.

Atilio Boron*, aterraeredonda.com/O Lado Oculto

O regime chileno de Sebastián Piñera – e insisto na palavra “regime” porque um governo que reprime com a brutalidade que toda a gente vê não pode considerar-se democrático – defronta-se com a mais séria ameaça popular jamais enfrentada por governo algum no Chile desde o derrube da Unidade Popular, em 11 de Setembro de 1973. As ridículas explicações oficiais não convencem nem os que as divulgam; ouvem-se denúncias sobre o vandalismo dos manifestantes, ou seu desprezo criminoso pela propriedade privada, ou pela paz e a tranquilidade, sem falar das oblíquas alusões à letal influência do “castro-madurismo” na origem dos protestos que culminaram na declaração do “estado de emergência” por parte de La Moneda (sede da presidência chilena), argumento absurdo e falacioso anteriormente manejado pelo corrupto que hoje governa o Equador e claramente desmentido pelos factos.

A surpresa oficial e dos sectores da oposição solidários com o modelo económico-político herdado da ditadura de Pinochet carece, por completo, de fundamento, a não ser pelo anacronismo da opulenta partidocracia dominante (uma das mais bem remuneradas do mundo), a sua incurável cegueira ou o seu completo isolamento das condições em que vivem – ou sobrevivem – milhões de chilenas e chilenos.

Para um observador atento, se há algo que surpreende é a eficácia da propaganda que durante décadas convenceu os próprios e os alheios sobre as excelsas virtudes do modelo chileno. Este foi exaltado à saciedade pelos principais publicistas do Império nestas latitudes: politólogos e académicos bem-pensantes, operadores e lobistas disfarçados de jornalistas, ou intelectuais coloniais, como Mario Vargas Llosa, que, num artigo recente, fustigou sem piedade os “populismos” existentes ou em formação que perturbam a região, ao mesmo tempo que exaltou o progresso “a passos de gigante” do Chile.

Um regime desumano

Este país é, para os opinólogos bem-pensantes, o feliz apogeu de um duplo caminho: da ditadura à democracia e da economia regulada à economia de mercado. O primeiro não está correcto, o segundo sim, com uma agravante: em pouquíssimos países o capitalismo arrasou com os direitos fundamentais das pessoas como no Chile, convertendo-os em dispendiosas mercadorias ao alcance apenas de uma minoria. A água, saúde, educação, segurança social, transportes, habitação, riquezas minerais, florestas e o litoral marinho foram vorazmente sequestrados pelos amigos do regime, durante a ditadura de Pinochet e com renovados impulsos na suposta “democracia” que lhe sucedeu.

Este cruel e desumano fundamentalismo de mercado teve como consequência a conversão do Chile no país com o maior endividamento das famílias da América Latina, produto da infinita privatização já mencionada, que obriga chilenas e chilenos a pagarem por tudo e a endividarem-se até ao infinito com o dinheiro que as piranhas financeiras administradoras dos fundos de pensão expropriam dos seus rendimentos e salários.

Segundo um estudo da Fundação Sol, “mais da metade dos trabalhadores assalariados não conseguem retirar da pobreza uma família de tamanho médio”; e a distribuição de rendimentos, diz um estudo recente do Banco Mundial, situa o Chile, juntamente com Ruanda, como um dos oito países mais desiguais do mundo. Por fim, digamos que a CEPAL, Comissão Económica da ONU para a América Latina e Caraíbas, comprovou, no seu último estudo sobre a questão social na América Latina que um por cento dos mais ricos no Chile apropriam-se de 26,5% dos rendimentos nacionais, enquanto 50% dos lares mais pobres têm acesso somente a 2,1%”

Será este um modelo a imitar?

Presidente e regime sem legitimidade

Em suma: no Chile, sintetiza-se uma explosiva combinação de livre mercado sem anestesia com uma democracia completamente deslegitimada, que dela conserva apenas o nome. Degenerou numa plutocracia que, até há poucos dias – todavia não mais –, prosperava perante a resignação, desmoralização e a apatia dos cidadãos, enganados habilmente pela oligarquia mediática sócia da classe dominante. Um sinal de alerta do descontentamento social foi dado pelo facto de mais de metade da população (53,3%) em idade de votar nem sequer se incomodou em procurar as urnas na primeira volta das eleições presidenciais de 2017.

Ainda que na segunda volta a abstenção se tenha reduzido para 51%, Sebastián Piñera foi eleito por apenas 26,4% dos eleitores inscritos. Em poucas palavras, somente um em cada quatro cidadãos se sentiu representado por ele. Hoje essa cifra deve ser bem menor e num clima em que o neoliberalismo está acossado pelos protestos sociais.

O clima da época mudou, e não apenas na América Latina. As falsas promessas neoliberais deixaram de ser credíveis e os povos rebelam-se: alguns, como na Argentina, desalojando os seus porta-vozes do governo por meio do mecanismo eleitoral; e outros, procurando com suas enormes mobilizações – Chile, Equador, Haiti, Honduras – pôr fim a um projecto incuravelmente injusto, desumano e predatório. É certo: há um “fim de ciclo” na região. Não o do progressismo, como postulavam alguns, mas o do neoliberalismo, que só poderá ser sustentado, e não por muito tempo, pela força de brutais repressões.

*Atilio Boron é professor de ciência política na Universidade de Buenos Aires.


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