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ISRAEL ATERRORIZA CRIANÇAS PALESTINIANAS

Mohammed Elayyan, de quatro anos, às cavalitas do pai à porta da esquadra israelita para a qual foram convocados para serem interrogados.

2019-08-01

Sara A. Oliveira, Jerusalém

Em apenas dois dias, os pais de duas crianças palestinianas com quatro e seis anos foram interrogados pela polícia israelita sob a acusação de os filhos lançaram pedras contra os militares. “Faz parte da campanha para aterrorizar as populações e forçá-las a fugir de Jerusalém Leste”, testemunham várias organizações. A mais nova das duas crianças chegou mesmo a ser convocada para interrogatório.

Num dos casos, a própria criança, Mohammed Elayyan, com apenas quatro anos, foi convocada para interrogatório juntamente com o pai, circunstância que a polícia tentou reverter posteriormente ao aperceber-se do impacto mediático da concentração de protesto junto à esquadra da populosa Rua de Salah Eddin.

Mohammed Elayyan habita com a família no bairro palestiniano de Issawyia, em Jerusalém Leste, o sector da cidade ocupado por Israel e que anexou ilegalmente. O pai, Rabbia Ellayan, foi convocado pela polícia para um interrogatório em que deveria fazer-se acompanhar pela criança, acusada de pôr em perigo os militares ao arremessar-lhes pedras.

Sem saber como explicar a situação ao filho, Rabbia disse-lhe que iriam sair para ir à piscina. Junto à esquadra, e perante a concentração em peso da população de Issawyia, de órgãos de comunicação e representantes de organizações não-governamentais israelitas e palestinianas, a polícia decidiu interrogar somente o pai. Durante os acontecimentos um enorme contingente de forças militares de ocupação manteve-se cercando a esquadra e ameaçando os manifestantes.

No fim do interrogatório, Rabbia foi “aconselhado” pelo aparelho repressivo a “manter o filho fechado em casa”, versão de “prisão domiciliária para crianças”, segundo um membro da organização humanitária israelita B’Tselem. Não consta que as pedras supostamente lançadas pela criança de quatro anos tenham provocado ferimentos em militares ocupantes.

48 horas depois…

Quarenta e oito horas depois, a polícia convocou Firas Obeid, também do bairro de Iassawyia, para um interrogatório policial porque o filho, Qais, com seis anos, foi acusado de tentar lançar pedras contra uma patrulha militar israelita que se movimentava no bairro.

Segundo o pai, a criança limitou-se a arremessar ao solo uma embalagem de cartão da qual consumira um sumo. Então os militares sequestraram o garoto, levaram-no a casa, entraram de rompante e entregaram ao pai o mandado para interrogatório.

O ambiente no bairro de Issawyia tornou-se mais tenso a partir de Junho, quando a polícia assassinou Mohammad Samir Obaid, um jovem palestiniano com 20 anos. Além disso, a região está entre as que são cenário de demolições em série de casas de famílias palestinianas.

“Trata-se de procedimentos para aterrorizar o conjunto da população de Jerusalém Leste e forçá-la a ir-se embora”, afirma a organização israelita B´Tselem num comentário emitido sobre os acontecimentos.

A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) tomou posição afirmando que os comportamentos militares e policiais dos ocupantes têm como objectivo “aterrorizar o povo palestiniano e fazer passar a mensagem de que ninguém, nem mesmo as Nações Unidas, o Conselho de Segurança ou qualquer outra entidade da ONU pode proteger os palestinianos da brutalidade da ocupação israelita”.

Jawad Siyam, director do Centro de Informação Wadi Hilweh de Jerusalém Leste, explicou ao website Middle East Eye (MEE) que os acontecimentos são parte de uma política mais abrangente para manter a pressão sobre o bairro de Issawyia, onde os habitantes palestinianos protestam contra as incursões, as detenções e as demolições de habitações que as forças de ocupação têm vindo a praticar em permanência.

“É uma punição colectiva contra Issawyia; querem que a população se renda à polícia”, afirmou Siyam. O objectivo mais amplo, acrescentou, é “forçar a população palestiniana de Jerusalém Leste a abandonar a cidade”, isto é, mais um episódio da limpeza étnica de que o povo palestiniano é vítima há décadas.

Micky Rosenfeld, porta-voz da polícia israelita de ocupação, disse a MEE que os interrogatórios aos pais por supostas infracções cometidas pelos seus filhos, independentemente da idade, são “um procedimento padrão”. Trata-se, acrescentou, “de um processo educativo e, ao mesmo tempo, uma política de proximidade da polícia para lidar com estes incidentes”.


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