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INDO-PACÍFICO: A FORÇA BRUTA CONTRA O DESENVOLVIMENTO

Patrulhar militarmente os mares asiáticos 24 horas por dia e sete dias por semana é a ameaça de Washington contra as iniciativas de desenvolvimento e integração regional patrocinadas pela China e a Rússia.

2019-07-14

Pepe Escobar, Strategic Culture/O Lado Oculto

A Administração Trump tem vindo a agitar obsessivamente o conceito de “Indo-Pacífico livre e aberto”. Além de um pequeno grupo de académicos, muito poucas pessoas em todo o mundo, especialmente no Hemisfério Sul, sabem o que significa esta incipiente estratégia desde que foi divulgada pela primeira vez no fórum da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico) de 2017, no Vietname.

Agora, tudo o que alguém pretende saber sobre a estratégia Indo-Pacífico consta de um pormenorizado relatório do Pentágono.

Ainda assim, trata-se de uma encenação ou um projecto real? Afinal, a estratégia foi revelada pelo então chefe do Pentágono, Patrick Shanahan (o homem da Boeing), que acabou por fazer hara-kiri e foi substituído por Mark Esper (o homem da Reytheon) através da habitual porta giratória dos poderes. 

Shanahan divulgara grande parte do conceito Indo-Pacífico na 18ª sessão do Diálogo de Shangri-La em Singapura, em Junho, retomando a sua introdução ao relatório do Pentágono no qual destaca “a rivalidade geopolítica entre as visões da ordem mundial livre e repressiva” e demoniza a China por “pretender reordenar a região a seu favor”.

Em sentido contrário caminharia, portanto, todo um Pentágono imbuído de pacifismo e ansiando apenas por “liberdade” e “abertura” numa “região ligada em rede; quase poderia designar-se até como “A Nova Rota da Seda do Pentágono”.

Qualquer pessoa ainda que remotamente familiarizada com o Indo-Pacífico sabe que se trata de um código para demonizar a China. É a versão do governo Trump para a estratégia do “pivot asiático” de Obama – uma invenção do Departamento de Estado via Kurt Campbell, totalmente adoptada pela então secretária Hillary Clinton.

O Indo-Pacífico reúne o Quad – o quarteto Estados Unidos, Japão, Índia e Austrália – numa missão de “liberdade” e “abertura” protegida por Deus. Trata-se de uma concepção que veda imediatamente a eventual possibilidade de a China sugerir transformar o mecanismo num quinteto.

Ainda em 2017, portante bastante antes de vir a ocupar a actual posição de secretário da Defesa, Mark Esper afirmou perante a Comissão de Forças Armadas do Senado:

“A minha primeira prioridade será a prontidão – garantir que o Exército esteja preparado para lutar em todo o espectro do conflito. Com as forças armadas envolvidas em mais de 140 países em todo o mundo, incluindo operações de combate no Afeganistão e no Iraque, treinando movimentações através da Europa para contar a Rússia e mantendo unidades no Pacífico para se defenderem de uma agressiva Coreia do Norte, a prontidão deve ser a nossa primeira prioridade”.

Estas palavras foram proferidas em 2017. Nessa altura, Esper nem sequer falou da China, que na época não era a “ameaça existente”, a maldição de hoje. No entanto, a área de intervenção do Pentágono continua a ser o espectro total.

E Pequim não tem ilusões quanto ao actual gestor do Indo-Pacífico com quem tem de lidar.

A China marcou terreno

O conceito de Indo-Pacífico não é uma ideia fácil de vender aos países da ASEAN – Associação de Nações do Sudeste Asiático. Por muito que alguns países possam permitir-se lucrar com a “protecção” militar dos Estados Unidos, o Sudeste Asiático como um todo tem as melhores relações comerciais com a China; a maioria das nações participam nas “novas rotas da seda” – A Iniciativa Cintura e Rota (ICR) – e são membros do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (AIIB); e não irão furtar-se a tirar proveito da futura 5G da Huawei.

Na verdade, até mesmo os outros três membros do Quad, por muito que não estejam ligados à ICR, estão a pensar duas vezes antes de desempenhar papéis secundários em mais uma superprodução norte-americana. Todos eles são cuidadosos em relação às suas relações geoeconómicas com a China. O Indo-Pacífico, um clube de quatro membros, é uma resposta tardia à Iniciativa Cintura e Rota, que agrega, até agora, mais de 65 nações.

O mantra favorito do Pentágono relaciona-se com a aplicação da “liberdade das operações de navegação” (FONOP) – como se a China, que faz malabarismos com os numerosos tentáculos das cadeias de abastecimento global, tivesse algum interesse em provocar insegurança marítima em qualquer lugar.

Até agora, o Indo-Pacífico fez com que o Comando do Pacífico dos Estados Unidos fosse renomeado “Comando Indo-Pacífico” dos Estados Unidos. E é tudo. As coisas continuam a funcionar da mesma maneira em termos das FONOP, na verdade um eufemismo enganoso para o facto de a Marinha dos Estados Unidos patrulhar 24 horas por dia e sete dias por semana todos os mares asiáticos, do Índico ao Pacífico, especialmente o Mar da China Meridional. No entanto, nenhuma nação da ASEAN será encontrada a proceder a “operações de liberdade de navegação” em águas do Mar da China Meridional dentro das 12 milhas náuticas de recifes e rochedos reivindicados por Pequim.

A grande marcha de Pompeo

A desenfreada demonização da China, agora um desporto bipartidário em todos os domínios, por vezes ainda mais histérica do que a demonização da Rússia, assenta também nos proverbiais relatórios do Conselho de Relações Externas, por definição o think tank do establishment. Estes documentos definem a China como um agressor em série nos domínios político, económico e militar e a Iniciativa Cintura e Rota como uma ferramenta geoeconómica para coagir os vizinhos da China.

Não é de admirar, portanto, que tal estado de coisas tenha levado o secretário de Estado, Michael Pompeo, a realizar uma recente e frenética viagem relacionada com o Indo-Pacífico que incluiu a Índia e o Japão, membros da estrutura, e possíveis associados como a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Coreia do Sul.

Os geopolitólogos da escola realista temem que Pompeo, um fanático cristão sionista, venha a dispor do monopólio virtual da política externa dos Estados Unidos; uma poderosa ferramenta nas mãos um ex-director da CIA agindo simultaneamente como diplomata arrogante e chefe do Pentágono, atropelando outros actores de segunda linha que não têm a mesma capacidade de actuação. 

A sua marcha indo-pacífica foi um roteiro pressionante, destacando a contenção/demonização não apenas da China mas também do Irão, encarado como o alvo mais importante dos Estados Unidos no sector Indo/Sudoeste Asiático do clube. Em relação ao Irão não está apenas em causa a sua situação estratégica: é um importante centro da Iniciativa Cintura e Rota com reservas imensas de gás natural que podem ser negociadas evitando o dólar norte-americano.

O papel da Índia

O facto de a acusação de “agressão” por parte da China e do Irão partir de um hiperpoder com mais de 800 bases e postos militares espalhadas pelo mundo em todas as latitudes, reforçado por uma armada fazendo “operações de liberdade de navegação” nos sete mares, é caso para provocar a mais cínica gargalhada.

O desenvolvimento do conceito Indo-Pacífico está muito dependente do jogo que a Índia praticar.

Nova Deli optou por deixar de comprar petróleo ao Irão logo que o governo Trump suspendeu a sua isenção de sanções. A Índia prometera anteriormente, de maneira formal, respeitar apenas sanções determinadas pelo Conselho de Segurança da ONU e não as sanções unilaterais – ilegais – dos Estados Unidos.

A decisão agora assumida está condenada a comprometer o sonho indiano de estender a sua mini-rota da seda ao Afeganistão e à Ásia Central com base no porto iraniano de Chabahar. O assunto esteve certamente em cima da mesa na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) realizada em Bishkek, quando os membros de pleno direito Vladimir Putin, Xi Jinping e Narendra Modi se sentaram à mesma mesa juntamente com o presidente iraniano Rouhani, chefe de uma nação com estatuto de observadora.

A prioridade de Nova Deli – profundamente enraizada no establishment indiano – pode ser a contenção da China. No entanto, Putin e Xi, ao mesmo tempo membros dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai, têm perfeita consciência de que o presidente indiano Narendra Modi não pode, ao mesmo tempo, colocar-se em posição antagónica em relação à China e perder o Irão como parceiro; pelo que estará, portanto, a trabalhar nesses equilíbrios.

No tabuleiro do xadrez euroasiático o Pentágono e a administração Trump pensam apenas segundo o velho princípio de dividir para reinar. Nessa perspectiva, a Índia deveria tornar-se uma potência naval capaz de contar a China no Oceano Índico; e ao Japão caberia conter económica e militarmente a China em todo o Leste asiático.

O Japão e a Índia unem-se de novo noutro pretendido esquema anti-Iniciativa Rota e Cintura específico do ponto de vista geoeconómico: o Corredor de Crescimento Ásia-África (AAGC), que até agora teve um impacto mínimo e em relação ao qual não se vislumbra qualquer possibilidade de atrair dezenas de países que já estão envolvidos na ICR.

O tabuleiro de xadrez mostra claramente que o Indo-Pacífico pretende funcionar contra os três principais centros de integração da Eurásia – Rússia, China e Irão. Para desmoronar definitivamente o conceito Indo-Pacífico mesmo antes de começar a ganhar terreno bastaria que a Índia assumisse um claro compromisso de contornar o regime de sanções imposto pelos Estados Unidos e reiniciasse as compras dos tão necessários gás e petróleo ao Irão.

Não será preciso muito para que Modi descubra que ao assumir um papel secundário numa produção Made in USA ficará retido na estação a comer poeira quando o comboio da integração da Eurásia passar por ele a alta velocidade.



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