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RÚSSIA, CHINA E ÍNDIA (RIC): O PESADELO DE TRUMP

Vladimir Putin, Narendra Modi e Xi Jinping em Osaka (foto MIkhail Klimentyev/Sputnik/AFP)

2019-07-02

Pepe Escobar, Asia Times/O Lado Oculto.

O encontro trilateral mais importante da reunião do Grupo dos 20 (G20) em Osaka esteve confinado a instalações de baixa qualidade, indignas do incomparável minimalismo estético do Japão.

O Japão destaca-se pelo planeamento e pela execução perfeitos. Por isso, é difícil encarar a pobre configuração do encontro como um “acidente”. Pelo menos, a cimeira – não oficial – entre a Rússia, a Índia e a China nos bastidores do G20 transcendeu o destino de um decorador de interiores que merecia cometer haraquíri.

Os dirigentes dos três países reuniram-se em sigilo virtual. Os poucos representantes dos meios de comunicação presentes na paupérrima sala foram convidados a sair. Os presidentes Putin, Xi e Modi foram acompanhados por equipas simplificadas que mal encontraram espaço suficiente para se sentarem. Não houve fugas de informação.

Nova Deli está em movimento e Narendra Modi tomou a iniciativa de se reunir com os seus parceiros em Osaka. Para ser rigoroso, não foi bem esse o caso. Osaka culminou um longo processo dirigido por Xi Jinping e Vladimir Putin tentando atrair Modi para um roteiro triangular de integração da Eurásia consolidado na sua anterior reunião, em Maio, na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) em Bishkek.

Agora o grupo RIC (Rússia, Índia, China) está de volta aos negócios; a próxima reunião ficou já marcada para o Fórum Económico Oriental, no mês de Setembro em Vladivostoque, Rússia.

Nos seus comentários introdutórios, Putin, Xi e Modi deixaram claro que o RIC tem tudo a ver com a configuração de “uma arquitectura de segurança indivisível” para a Eurásia, nas palavras de Vladimir Putin.

Narandra Modi sublinhou o esforço multilateral para combater as alterações climáticas e lamentou que a economia global esteja a ser governada por um diktat “unilateral”; sugeriu, por isso, a reforma da Organização Mundial de Comércio (OMC).

Putin deu um passo em frente insistindo: “Os nossos países são a favor da preservação de um sistema de relações internacionais cujo núcleo é formado pela Carta das Nações Unidas e o Estado de direito. Defendemos estes princípios importantes nas relações entre Estados com respeito pela soberania e a não-ingerência nos assuntos internos”.

O presidente russo destacou a clara interligação geopolítica da ONU, dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), da OCX e do G20, além da necessidade de fortalecer a autoridade da Organização Mundial de Comércio e do Fundo Monetário Internacional “como paradigma de um mundo moderno e multipolar que rejeita as sanções como acções legítimas”.

O contraste do trio Rússia-Índia-China com a administração Trump não poderia ser mais evidente.

“Activos colossais”

Na sua fase actual, o BRICS está morto. Houve uma reunião “oficial” pró-forma do BRICS antes do RIC, mas não é segredo que Putin e XI desconfiam absolutamente do brasileiro Jaír Bolsonaro, considerado um trunfo neocolonial de Trump.

Circunscrito ao seu relacionamento bilateral com Trump, Bolsonaro tentou vender as riquezas minerais do Brasil apregoando a capacidade do seu país para exportar “bijuterias de nióbio”.

Apesar de tudo, este aspecto é menos controverso do que a notícia do militar brasileiro preso em Espanha por transportar quantidades industriais de cocaína (36 quilos) no avião presidencial, assunto que mobilizou as conversas da festa de encerramento em Osaka.

Claro que, um pouco mais tarde, Trump elogiou avidamente os “activos colossais” do Brasil que agora estão a ser privatizados para benefício das empresas norte-americanas.

Maneiras de contornar o dólar

Ao discursar no encontro dos BRICS, o presidente chinês, Xi Jinping, denunciou o proteccionismo e defendeu também uma Organização Mundial de Comércio mais forte. As nações do grupo, acrescentou, devem “aumentar a nossa resistência e a nossa capacidade para lidar com os riscos externos”.

Putin foi além disso. Não só denunciou as tendências “protecionistas” no comércio global como defendeu o comércio bilateral em moedas nacionais como maneira de contornar o dólar – a exemplo do que acontece com a parceria estratégica entre a Rússia e a China.

Aliás, estes dois países, através do ministro russo das Finanças, Anton Siluanov, e do presidente do Banco Popular da China, Yi Gang, assinaram um acordo para processar o comércio bilateral em rublos e yuan, começando com os sectores da energia e da agricultura e aumentando em 50% os acordos de câmbio durante os próximos anos.

Haverá também um esforço concertado para contornar cada vez mais o processo bancário SWIFT utilizando o Sistema Russo de Transferência de Mensagens Financeiras (SPFS) e o Sistema Interbancário de Pagamentos (CIPS) da China.

Mais cedo ou mais tarde a Rússia e a China vão atrair a Índia a participar. Moscovo tem excelentes relações bilaterais com Pequim e Nova Deli e desempenha decididamente o papel de mensageiro privilegiado.

A mini-guerra comercial contra Nova Deli lançada pelo governo Trump – incluindo a perda do estatuto de parceiro comercial especial e a punição pela compra de sistemas defensivos anti-aéreos russos S-400 – está a acelerar o ritmo do processo. Vem a talhe de foice dizer que a Índia pagará em euros, e não em dólares, os sistemas S-400 que compra à Rússia.

O Irão

Não houve fugas de informação de qualquer dos três países em relação ao Irão, mas os diplomatas consideram que foi um dos principais temas em discussão. A Rússia já está – secretamente – a apoiar o Irão a vários níveis. A Índia depara-se com um problema existencial: continuar a comprar petróleo iraniano ou despedir-se da ajuda estratégica do Irão, através do porto de Chabahar, para facilitar a “mini-rota da seda” da Índia para o Afeganistão e a Ásia Central.

A China encara o Irão como uma plataforma na sua estratégia de nova “rota da seda”, a Iniciativa Cintura e Rota (ICR). A Rússia considera o Irão como essencial para a estabilidade estratégica no Sudoeste Asiático.

Quaisquer que sejam as tácticas psicopatas utilizadas por Trump, o trio Rússia-China-Índia está directamente envolvido nas ramificações massivas, a curto e médio prazo, do encontro bilateral entre os presidentes norte-americano e chinês em Osaka. O quadro geral não vai sofrer alteração: a administração Trump aposta no reencaminhamento das cadeias globais de fornecimento para fora da China; e Pequim avança a todo o vapor para a Iniciativa Cintura e Rota.

Em Bruxelas, por seu turno, onde a confiança em Trump não é muito grande, admite-se que a União Europeia venha a ser alvo de outra guerra comercial iminente. Enquanto isso, com mais de 60 nações já associadas a numerosos projectos integrados na ICR, e com a União Económica da Eurásia (lançada pela Rússia) também interligada com a Iniciativa Cintura e Rota, Pequim sabe que é apenas uma questão de tempo até que toda a União Europeia chegue à área de influência do grupo RIC.

Não existem indícios de que a Índia possa juntar-se subitamente à Iniciativa Cintura e Rota. De facto, a atracção geopolítica da “região Índico-Pacífico” – essencialmente mais uma estratégia de contenção da China – é grande. É assim que funciona o velho princípio de dividir para reinar – e todos os principais envolvidos sabem disso.

A Índia ainda está no registo de que a “região Índico-Pacífico” não é “contra alguém”. O facto de a Índia aprofundar a presença no grupo RIC não significa ainda que esteja mais perto da iniciativa chinesa Cintura e Rota.

É hora de Narendra Modi tirar proveito da situação. Em última análise, será ele a decidir em que direcção oscilará o pêndulo geoeconómico.



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