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O SUJO ENIGMA GEOPOLÍTICO DA TRAGÉDIA DO MH17

O primeiro-ministro da Malásia, Mohatir Mohamad veio levantar questões que põem em causa a doutrina oficial sobre a tragédia do MH17 na Ucrânia, em 17 de Julho de 2014

2019-06-11

F. William Engdahl, New Eastern Outlook; adaptação O Lado Oculto

O primeiro-ministro da Malásia, Mahatir Mohamad, criou ondas de choque através de um discurso público no qual rejeitou o relatório “oficial” holandês culpando a Rússia pelo derrube do avião da Malasya Airlines que fazia o vôo MH17, em Julho de 2014. Um acontecimento ocorrido semanas depois de um golpe dirigido pela CIA ter derrubado o presidente eleito da Ucrânia. Apesar da minimização dos comentários do dirigente malaio na comunicação mainstream, o assunto está a causar embaraços ao ex-vice-presidente norte-americano Joe Biden e ao oligarca ucraniano Igor Kolomoisky nos débeis esforços para culpar a Rússia pelos erros que eles próprios cometeram.

Num encontro com o Clube de Correspondentes Estrangeiros no Japão, em 30 de Maio, Mahatir desafiou o governo holandês a fornecer as provas de que o avião civil malaio MH17, que caiu na Ucrânia, foi abatido por um míssil BUK de fabrico russo e disparado de um regimento russo. Disse o primeiro-ministro da Malásia à imprensa japonesa: “Eles acusam a Rússia, mas onde estão as provas? Sabemos que o míssil que dizem ter derrubado o avião é de fabrico russo, mas também poderia estar em poder da Ucrânia”. Numa comunicação franca e aberta, Mahatir acrescentou: “Precisamos de provas fortes para demonstrar que o avião foi derrubado pelos russos; também o poderia ter sido pelos rebeldes na Ucrânia ou pelo governo ucraniano, que também possui o mesmo míssil”.

A estranha exclusão da Malásia

O primeiro-ministro da Malásia exigiu que o seu governo seja autorizado a inspecionar a caixa negra do avião acidentado declarando o óbvio: que o aparelho pertencia à Malásia, o piloto era malaio e tinha a bordo passageiros malaios. “Podemos não ter o know-how, mas podemos adquiri-lo; parece ter havido motivos para a Malásia não poder observar a caixa negra de modo a saber realmente o que aconteceu”.

Mahatir Mohamad prosseguiu: “Desconhecemos as razões pelas quais fomos excluídos do exame; mas estamos a sentir, desde o início, demasiada política no assunto, dando a ideia de que o objectivo não era descobrir o que aconteceu e tudo estava concentrado em como envolver os russos”.

O MH17 fazia a ligação de Amesterdão para Kuala Lumpur quando foi abatido na zona de conflito no Leste da Ucrânia, em 17 de Julho de 2014. Só em Maio de 2018 a Equipa de Investigação Conjunta (JIT), dirigida pela parte holandesa, divulgou o relatório concluindo que um míssil BUK foi utilizado para abater o aparelho da Malaysia Airlines e que o disparo partiu da 53ª Brigada antiaérea da Federação Russa, estacionada em Kursk, perto da fronteira com a Ucrânia. A Equipa de Investigação Conjunta (JIT) “chegou à conclusão de que o BUK-TELAR teve origem na 53ª Brigada de Mísseis Antiaéreos da Rússia”, de acordo o investigador chefe holandês, Wilbert Paulissen. Segundo este, “estamos convictos de que as nossas descobertas justificam as conclusões…”

O grupo dirigido pela parte holandesa não apresentou provas forenses concretas; e Moscovo tem negado repetidamente qualquer envolvimento num acto que não faria qualquer sentido político ou militar. Em 2018, o Ministério da Defesa da Rússia forneceu provas de que o míssil BUK, que explodiu para destruir o avião malaio, foi fabricado numa fábrica russa em 1986 e instalado numa base ucraniana do exército da União Soviética. A sua última localização registada foi mesmo uma base ucraniana.

Ao formular a dúvida sobre as conclusões holandesas do JIT, Mahatir abriu potencialmente uma lata de vermes mortais capazes de atingir o governo ucraniano da época, especialmente Igor Kolomoisky, o bilionário financiador ucraniano do recém-eleito presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Também poderá implicar potencialmente o então vice-presidente norte-americano, Joe Biden, e algumas outras personalidades.

Perguntas em aberto

Investigadores independentes da catástrofe do MH17 dão relevo ao facto de a JIT liderada pela parte holandesa ter excluído deliberadamente a participação de peritos da Malásia e da Rússia mas ter incluído o regime nascido do golpe apoiado pela CIA na Ucrânia, que dificilmente seria uma parte imparcial. Além disso, os registos telefónicos apresentados pela JIT como prova do envolvimento russo tiveram origem nos serviços secretos ucranianos SBU. Desde o golpe da CIA na Ucrânia, em 2014, o SBU tem estado envolvido em repetidas acusações falsas contra a Rússia, incluindo a simulação do assassínio de um jornalista que depois se verificou estar vivo.

Uma das questões que a equipa de investigadores dirigida pela Holanda nunca abordou é por que razão as autoridades de controlo aéreo da Ucrânia estabeleceram a rota seguida pelo MH17 num momento em que os vôos comerciais internacionais deveriam evitar o espaço aéreo do Leste da Ucrânia, por ser uma zona de guerra. De facto, em Dnipropetrovsk o aparelho recebeu instruções da torre de controlo para mudar de rumo e voar directamente para a zona de conflito. De acordo com um website holandês, o Post Online, a Eurocontrol, Organização Europeia para a Segurança da Navegação Aérea, comunicou ao Parlamento holandês que não foi informada pela entidade de controlo de tráfego aéreo ucraniana UkSATSE do status não-operacional de três sistemas de radar no Leste da Ucrânia no Verão de 2014, uma violação grave da lei. Um dos três sistemas foi tomado após o golpe da CIA, em Abril, por um bando de encapuzados que destruiu as instalações do radar.

Uma outra violação da lei pelo serviço ucraniano UkSATSE foi o facto de este ter impedido que o seu controlador de espaço aéreo em Dnipropetrovsk responsável pelo vôo MH17 fosse interrogado. De acordo com informações russas, a pessoa em causa “foi de férias” e não mais voltou.

O factor Kolomoisky

É importante saber que no momento da queda do MH17 o governador ucraniano da Província (Oblast) de Dnipropetrovsk era Igor Kolomoisky, considerado o terceiro homem mais rico da Ucrânia, com um império de petróleo, carvão, minerais e bancos; ligado, além disso, ao controlo da Burisma, uma sombria empresa de gás ucraniana para cuja administração nomeou Hunter Biden, o filho do então presidente norte-americano Joe Biden.

Kolomoisky, que se tornou notado por contratar grupos de delinquentes e neonazis como tropas de choque para espancar empresários concorrentes e opositores políticos na Ucrânia, entregou o bastante lucrativo cargo de administrador da Burisma a Hunter Biden apesar da falta de experiência deste em petróleo ou gás; em troca, o vice-presidente Biden suspendeu a norma que proibia Kolomoisky de viajar para os Estados Unidos. Joe Biden foi o responsável da administração Obama pelo golpe da Praça Maidan orquestrado pela CIA em 2014 e que provocou o derrube do presidente eleito, Viktor Yanukovych.

As declarações do primeiro-ministro malaio Mahatir Mohamad vieram chamar novamente a atenção para as circunstâncias misteriosas em torno da queda do avião que fazia o vôo MH17 e o papel de Kolomoisky e outras pessoas nos acontecimentos. As actividades dos funcionários corruptos da Ucrânia apoiados pela administração Obama estão agora sob escrutínio.

Por outro lado, o novo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, é um protegido de Igor Kolomoisky, como tem sido amplamente divulgado. Zelensky tornou-se uma figura conhecida a nível nacional como comediante numa emissora de TV pertencente a Kolomoisky, tendo este último facultado fundos e pessoas para comandar a vitoriosa campanha eleitoral de Maio de 2019, na qual derrotou o presidente em exercício, Petro Porochenko, um inimigo jurado de Kolomoisky. Depois da vitória de Zelensky, o oligarca Kolomoisky regressou à Ucrânia após o exílio na Suíça resultante das acções de Porochenko, designadamente a nacionalização do seu Privakt Bank.

Todos estes acontecimentos são peças de um enigma geopolítico muito sombrio no qual sobressaem o papel sujo que a Ucrânia e o governo Obama desempenharam ao demonizar a Rússia. Muito recentemente soube-se que o conselheiro especial dos Estados Unidos Robert Mueller e a sua equipa contaram com a colaboração de um empresário ucraniano chamado Konstantin Kilimnik. Este trabalhou para o chefe da campanha de Trump, Paul Manafort, como uma figura-chave supostamente ligada à espionagem russa no caso da alegada interferência de Moscovo nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016.

Contudo, novas provas revelaram que, longe de ser um agente de Putin, Kilimnik era um informador confidencial do Departamento de Estado norte-americano pelo menos desde 2013. As informações são do jornalista norte-americano John Solomon, que cita documentos do FBI, incluindo e-mails do Departamento de Estado que consultou, onde Kilimnik é descrito como uma fonte de inteligência “sensível” para esta instituição governamental. Por algum motivo, o relatório Mueller ignorou este pormenor embaraçoso. Kilimnik já trabalhara antes para Paul Manafort, que antes do golpe de 2014 foi lobista junto do presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, e do seu Partido das Regiões.

As actividades obscuras de Kilimnik podem, em breve, vir a assombrar figuras-chave na Ucrânia como Kolomoisky e pessoas como Joe Biden e respectiva família. Da verdadeira autoria da queda do MH17, que investigadores holandeses e outros acreditam estar ligados a figuras de Kolomoisky, às relações comerciais de Hunter Biden com a Ucrânia, passando por factos reais da investigação de Mueller sobre o “Russiagate”, tudo pode servir de base a uma investigação a cargo do Departamento de Justiça dos Estados Unidos bem mais objectiva do que a investigação Mueller, obviamente tendenciosa. Cada vez parece mais que a Ucrânia, e não a Rússia, é a fonte mais provável de interferências nas eleições presidenciais de 2016, o que nos mostra uma outra realidade bem diferente da que foi apresentada pelos media do establishment, como por exemplo a CNN.


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