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TRUMP, OS AGRICULTORES, A CHINA E A SOJA

Soja no Midwest dos Estados Unidos

2019-06-07

Jorge Fonseca de Almeida*, especial para O Lado Oculto

Os Estados Unidos são um dos maiores produtores mundiais de soja. Esta soja, uma fonte importante de proteínas, encontra o seu uso principal na alimentação humana e animal e no fabrico de óleo, que por sua vez pode ser também matéria-prima para o biodiesel. Milhares de agricultores e toda uma indústria a montante e a jusante empregam literalmente milhões de norte-americanos. 

Estados como o Illinois, o Iowa e o Minnesota concentram grande parte desta cultura e nela têm parte significativa do rendimento dos seus habitantes. Só no Illinois, a Associação da Soja (ISA) representa cerca de 43 mil agricultores, que produziram em 2018 mais de 10 milhões de toneladas de soja. Para escoar estes produtos o Illinois dotou-se de uma rede de transportes que incluem sete mil milhas de caminho-de-ferro, 1.100 milhas de canais navegáveis para além de estradas. No Arkansas, onde é a segunda maior produção agrícola, o número de empregos associados ao cultivo da soja supera os 20 mil. No Dakota do Norte cerca de 70% da soja era exportada para a Ásia, principalmente para a China.

Mais de metade dessa soja cultivada segue para exportação. E a China era até há pouco o seu grande destino – os chineses adquiriram em 2016 mais de 60% da toda a soja exportada pelos Estados Unidos. Em contrapartida as compras de soja aos norte-americanos representavam apenas 39% das importações chinesas de soja. Vemos como os EUA dependiam mais da China como compradores do que a China dos EUA como fornecedor.

Mercado Mundial da Soja antes de Julho 2018



OS Estados Unidos eram em 2016 os segundos maiores exportadores mundiais de soja com um total de 1.950 milhões de alqueires logo atrás do Brasil (2.194 milhões de alqueires) e muito à frente da Argentina (391 milhões de alqueires), que surgia em terceiro lugar. Paraguai e Canadá surgiam no quarto e quinto lugares, respectivamente.


Mapa da localização da produção de soja nos Estados Unidos


Norte-americanos lançam guerra comercial


Com Trump, os Estados Unidos lançaram uma guerra económica em larga escala contra a China, subindo unilateralmente as tarifas alfandegárias para níveis absurdamente elevados, prendendo empresários chineses, proibindo aquisições de tecnologia americana às empresas chinesas, proscrevendo empresas como a Huawei e impedindo-as de aceder aos mercados. A China, por seu turno, tem procurado defender-se desvalorizando a sua moeda e ripostando também ao nível das tarifas.


A soja foi um dos produtos a que os chineses foram obrigados a aumentar as tarifas alfandegárias em Julho último (2018). O resultado foi imediato. As quantidades compradas reduziram-se dramaticamente e com elas os preços, que historicamente já vinham a descer.


Preço da Soja no mercado de futuros



 

Nos primeiros meses seguintes, os preços caíram abruptamente. Os contratos de futuros desceram mais de 25%, colocando os agricultores norte-americanos à beira da falência completa. Os stocks de soja não vendida atingiram picos nunca alcançados antes.

O preço por alqueire atingiu valores inferiores a 8 dólares, que para muitos agricultores é o preço de custo. A venda abaixo desta fasquia significa fortes prejuízos e torna o cultivo de soja nos EUA inviável.

Para evitar o desastre autoinfligido, Trump, ressuscitou a Agência de Crédito a Mercadorias, um organismo criado durante a Grande Depressão, instruindo-o para comprar a soja excedente. A dotação feita de 15 mil milhões de dólares para essas aquisições será sem dúvida insuficiente se a crise persistir. Apesar destas ajudas, estatais o número de agricultores a declarar falência tem vindo a aumentar. 

A situação agrava-se. O nível de endividamento dos agricultores está próximo do máximo atingido em 1980, antes da grande crise agrícola dos Estados Unidos e as taxas de crédito mal parado continuam a crescer assustadoramente. 

Só primeiros quatro meses deste ano as importações chinesas de soja norte-americana reduziram-se em quase 70% comparativamente com os valores do ano anterior. 

Mas já 2018 tinha sido um ano dramático para os produtores de soja norte-americanos, privados de um dos seus mercados principais. Os Estados Unidos procuraram então direccionar parte das exportações para a União Europeia, o que foi parcialmente conseguido. 

Alemanha sacrifica Itália

A União Europeia cedeu e aumentaram as importações de soja americana, com graves consequências e prejuízos para os produtores europeus, nomeadamente os italianos, responsáveis por 50% da soja cultivada na UE. Com este acordo, os EUA pararam momentaneamente de acossar a Europa com a imposição de tarifas em vários outros produtos. 

Os mais beneficiados foram, como seria de esperar, os alemães e as suas exportações. Mas para favorecer a Alemanha, a Itália e a sua agricultura foi sacrificada. Os preocupantes populismos de extrema-direita, como os que se afirmam na Itália, não caem do céu, são fruto destas políticas europeias desastrosas.

China diversifica e EUA demoram a recuperar

A China, por seu lado, diversificou as suas compras de soja, aumentando as compras ao Brasil e à Argentina, países que, desta forma, acabam por tirar partido deste ataque comercial norte-americano à China. 

Mas, apesar disso, não será fácil aos norte-americanos encontrar mercados alternativos. O Departamento de Agricultura norte-americano (USDA) prevê que só em 2027 possam as exportações retomar os níveis de 2016, na condição da China retomar parcialmente as compras (ver projecção da USDA).

Projecção das exportações americanas de soja



Muitos especialistas prevêem para os próximos anos uma redução acentuada da área cultivada de soja nos Estados Unidos. 

Ao jeito de conclusão diríamos que nesta guerra económica lançada pelos EUA contra a China, e que tem um impacto terrível na economia mundial, não é certo que os próprios EUA possam dela sair incólumes. Os agricultores norte-americanos estão já a sofrer as consequências dessa política agressiva que Trump iniciou e que, para já, se recusa a parar.

 Economista, MBA
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