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ESTÃO ABERTAS AS HOSTILIDADES EM BRUXELAS

Macron e Merkel avariaram o "eixo europeu" apoiando, à partida, candidatos diferentes para suceder a Juncker.

2019-05-28

José Goulão; com Pilar Camacho, Bruxelas, e Sylvie Moreira, Paris

Os votos das eleições europeias ainda mal foram contados mas em Bruxelas e outras capitais, como Paris e Berlim, já estão abertas as hostilidades para o grande leilão dos cargos superiores da União Europeia a renovar no próximo Outono, entre eles o de presidente da Comissão. O famoso “eixo franco-germânico” quebrou-se: Merkel e Macron, à partida, apoiam candidatos diferentes para suceder a Jean-Claude Juncker.

Quem parece arrancar em posição mais fragilizada para esta guerra é a direita tradicional do Partido Popular Europeu (PPE), vítima da sua própria erosão e agora a ser “espremida” entre uma aproximação dos liberais com os sociais-democratas – procurando estes disfarçar o desgaste igualmente sofrido – e as reforçadas correntes fascizantes. O candidato do partido a presidente da Comissão, o bávaro Manfred Weber, parecia fadado para ser empossado, mas os resultados de domingo fizeram já surgir uma fila de concorrentes que se atropelam exibindo credenciais das suas prestações anteriores ao serviço de governos, da União e de instituições do globalismo.

Em causa estão muitos, determinantes e apetitosos cargos, situação que transforma o leilão numa megaoperação iniciada terça-feira com uma romaria dos chefes dos governos a Bruxelas. 

Trata-se de negociar os lugares de presidente da Comissão, presidente do Conselho Europeu, presidente do Parlamento, o de chefe das Política Externa e de Segurança, o presidente do Banco Central Europeu, os cargos de mais relevo da Comissão Europeia e os presidentes das comissões do Parlamento Europeu.

Presume-se que a barganha seja cerrada, surgindo já no horizonte uma tendência para uma aproximação entre sociais-democratas e liberais em busca de “novas maiorias”, como disse a liberal dinamarquesa Margretha Vestager, ela própria uma potencial candidata a presidente da Comissão.

Essa tendência foi, na prática, lançada oficiosamente em Paris numa reunião prévia entre o presidente Macron, agora integrado nos liberais depois de longas semanas sem saber a que corrente iria pertencer para o pretendido “renascimento europeu”, e o presidente do governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez. “Os novos cargos precisam de reflectir a nova maioria do Parlamento Europeu”, sublinhou o gabinete de Sánchez, embora sem definir que maioria é essa; um porta-voz do En Marche, o partido de Macron, afirmou, por seu turno, que os resultados eleitorais “desqualificaram totalmente” a candidatura do alemão Weber. 

A própria senhora Merkel mostra-se reticente, depois das eleições, em confirmar o apoio a Weber, seu inimigo interno na coligação entre os democratas cristãos e os sociais cristãos bávaros, CDU/CSU.

Potencial “maioria” minoritária

Liberais (grupo ALDE no Parlamento Europeu) e Socialistas & Outros Democratas (S&D) parecem, deste modo, tentar ganhar a dianteira na maratona negocial, estratégia que para os sociais-democratas é urgente se pretenderem – como parece – implantar a sensação de foi o PPE o grande derrotado e não eles próprios, afinal tão perdedores como a direita conservadora.

Sociais-democratas desejam assumir o papel de “charneira”, afastando-se da aliança com a direita, que configurou a União Europeia como hoje existe, e aproximando-se dos liberais – agora reforçados – acenando também aos Verdes, igualmente triunfadores.

Da parte dos liberais, o caminho parece estar aberto. “O monopólio do poder desmoronou-se; é claro que podemos fazer outras coisas”, afirmou a já citada dinamarquesa Margretha Vestager.

A resposta alemã e do PPE é, até agora, quanto baste: a confirmação de que Manfred Weber “é o nosso homem”, segundo a nova presidente da CDU, Annegret Kramp-Karrenbauer, cobrindo a falta de entusiasmo de Angela Merkel; e várias declarações de figuras proeminentes do PPE salientando que o partido continua a ser o mais votado e agarrando-se ao princípio de que os cargos europeus devem ser distribuídos de acordo com os resultados eleitorais,

Em Bruxelas, os chefes dos governos europeus reúnem-se ao jantar de terça-feira para falar do preenchimento dos cargos na perspectiva das decisões que deverão ser assumidas numa cimeira em fins de Junho.

Nos bastidores diz-se que há muitas circunstâncias a influir nas possíveis escolhas: o facto de o presidente da Comissão Europeia ter sido sempre ocupado por um membro da “maioria fundadora”; os equilíbrios de género – nunca uma mulher ocupou o cargo; os balanços segundo os pontos cardeais, ou seja, entre países do norte, do sul, de leste e oeste; e entre as nações mais e menos influentes dentro da União.

A aproximação entre sociais-democratas e liberais parece ter uma base encorajadora, porém claramente insuficiente: 255 deputados em 751; insuficiência que se mantém em termos de maioria absoluta (351 deputados) mesmo juntando os Verdes – um total de 324 membros do Parlamento.

Descartar o PPE?

Daí que o PPE não seja facilmente descartável, até porque não ficará isolado mesmo que se formem alianças que o excluam. Na extremíssima direita da câmara existe agora um volumoso manancial de membros de tendências que pretendem disputar o poder aos pilares convencionais – e que deles não se diferenciam em termos de regime económico, que é, de facto, o que mais conta na União. 

O PPE não está imune à contaminação dessas tendências fascizantes, antes pelo contrário. No seu interior existem correntes perfeitamente sintonizadas com as mais extremistas e que não hesitarão em fazer a ponte nessa direcção. Se isso acontecer, não será suficiente para formar uma maioria, mas com a facilidade com que as direitas se unem no essencial poderão construir um bloco que será o mais poderoso na câmara. Estando as possibilidades de combinação entre os vários grupos agora mais abertas, em consequência dos resultados das eleições, esta possibilidade de convergência no enorme espaço da direita europarlamentar não parece mais improvável do que qualquer outra.

Manfred Weber parte ainda na frente; atrás dele forma-se já uma extensa fila, que tende a engrossar porque a procissão ainda mal começou: Michel Barnier, negociador do Brexit em nome da União; Frans Timmermans, vice-presidente da Comissão Europeia; Margretha Vestager, liberal dinamarquesa, comissária europeia anti-monopólios; Kristalina Georgieva, búlgara que preside ao Banco Mundial; Christine Lagarde, francesa presidente do FMI; Mark Rutte, liberal e primeiro-ministro holandês; Dalia Grybauskaite, presidente da Lituânia; Valdis Dombrovkis, um comissário da Letónia; Guy Verhofstadt, um decano eurodeputado liberal belga; Andreijk Plenkovic, primeiro-ministro da Croácia; Josep Borrell, antigo ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros; Nadia Calvino, ex-ministro espanhol da Economia; Charles Michel, primeiro-ministro belga; Alexander Stubb, ex-primeiro-ministro finlandês; Helle Thorning-Schmidt, ex-primeira-ministra dinamarquesa.

Há muitos e bons empregos a distribuir. Mas, a este nível, já não chegam para tantos candidatos, mais os que irão aparecer.




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