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WASHINGTON GABA-SE DO SOFRIMENTO DA VENEZUELA

O secretário de Estado, Michael Pompeo com Elliott Abrams: mentor e executor da tortura praticada através das sanções contra os venezuelanos

2019-05-10

Anya Parampil, Grayzone/O Lado Oculto

O site Grayzone obteve uma lista de “resultados chave” relacionados com a Venezuela publicada pelo Departamento de Estado norte-americano e logo retirada por ser embaraçosa. Vangloria-se de destruir a economia do país, de desestabilizar os militares e de manipular a oposição política.

No dia 24 de Abril, seis dias antes de o autoproclamado “presidente interino” venezuelano, Juan Guaidó, ter tentado derrubar pela força o governo democraticamente eleito da Venezuela com um punhado de desertores militares, o Departamento de Estado norte-americano publicou uma lista de factos na qual se ufana do papel central de Washington na tentativa de golpe. Depois de ter percebido a natureza incriminatória do erro, o Departamento de Estado retirou rapidamente a página.

O site Grayzone obteve uma cópia completa do relatório publicado e logo retirado. A página apagada liquida qualquer reivindicação de independência que Juan Guaidó possa fazer em relação a Washington, uma vez que o Departamento de Estado realça o facto de “ter anunciado a sua presidência interina… em Janeiro” como uma acção cujo mérito lhe cabe; esse facto surge à cabeça de uma lista de “resultados chave” alcançados através dos esforços dos Estados Unidos em relação à Venezuela.

Muito recentemente, a secretária de Estado adjunta norte-americana para os Assuntos do Hemisfério Ocidental, Kimberly Breier, publicou uma mensagem no Twitter onde alega que “desde que se tornou presidente interino, Juan Guaidó proporcionou resultados tangíveis ao povo da Venezuela”. O texto foi acompanhado por uma infografia na qual enumera as alegadas realizações com base em dados da Assembleia Nacional da Venezuela legalmente extinta, o único órgão realmente controlado por Guaidó.

No entanto, a lista de factos publicada e logo escondida pelo Departamento de Estado conta uma história dramaticamente diferente.

Alvos económicos do Departamento de Estado

Intitulado “Acções dos Estados Unidos na Venezuela”, o documento vangloria-se de a política norte-americana ter impedido efectivamente o governo venezuelano de participar no mercado internacional e de ter conduzido ao congelamento dos seus activos no exterior. Parece uma celebração sádica de Washington pelos efeitos provocados globalmente na população venezuelana, o tipo de punição colectiva que é ilegal à luz do Artigo 33º das Convenções de Genebra.

Segundo a lista do Departamento de Estado, as providências tomadas por Washington determinaram que o governo de Nicolás Maduro “não possa confiar no sistema financeiro dos Estados Unidos” para realizar negócios, acrescentando que os “resultados importantes” alcançados incluem o congelamento de “aproximadamente 3200 milhões de dólares no exterior”. A seguir felicita-se pelo facto de “a produção de petróleo da Venezuela ter caído para 736 mil barris por dia em Março, reduzindo substancialmente” as receitas do governo.

“Se eu fosse o Departamento de Estado, não me gabaria de provocar um corte na produção de petróleo para 736 mil barris por dia – o que representa uma queda de 36% apenas nos meses de Fevereiro e Março deste ano”, afirmou Mark Weisbrot, co-director do Centro de Investigação Política e Económica (CIPE). “Isso significa mortes ainda mais prematuras do que as dezenas de milhares provocadas o ano passado pelas sanções”.

Weisbrot é um dos autores do recente relatório revelando que 40 mil venezuelanos morreram entre 2017 e 2018 como consequência directa das sanções norte-americanas. O Departamento de Estado felicitou-se a si próprio pela rapidez com que “forneceu 20 milhões de dólares adicionais de assistência humanitária” à Venezuela; mas o relatório do CIPE concluiu que as sanções impostas e incrementadas pelo governo Trump em Agosto de 2017 provocaram “uma perda de seis mil milhões de dólares” de receitas durante o ano seguinte, só no sector petrolífero.

Enquanto o Departamento de Estado elogia a oposição por ter “prestado assistência médica e sanitária a mais de seis mil venezuelanos”, esses números comparam com os 300 mil que o CIPE calcula estarem em risco por falta de acesso a medicamentos ou cuidados de saúde, incluindo 80 mil pessoas com HIV que não recebem tratamento antirretroviral desde 2017, 16 mil pessoas que necessitam de diálise, 16 mil pessoas com cancro, quatro milhões que sofrem de diabetes e hipertensão.

Por outras palavras, a suposta “Assistência de resposta à crise na Venezuela” promovida pelo Departamento de Estado não passa de um simples penso sobre a ferida aberta que as medidas unilaterais dos Estados Unidos infligiram ao país.

Na opinião de Weisbrot, “a política e os resultados” de que o Departamento de Estado se ufana no documento retirado apenas conduzirão a “mais cortes nas importações de medicamentos, alimentos, equipamentos médicos e bens de consumo necessários para manter a infraestrutura de água, saúde e saneamento”.

Tendo negado ao governo venezuelano a capacidade para abastecer a sua própria população, o que os Estados Unidos prometeram, essencialmente, é que mais milhares de mortes irão ocorrer.

O Departamento de Estado não respondeu à solicitação de Greyzone para comentar o conteúdo do documento publicado e depois retirado.

“Uma lista de confissões”

Numa entrevista a Greyzone, o embaixador da Venezuela na ONU, Samuel Moncada, caracterizou o documento suprimido como “uma lista de confissões”.

“Imagine um país que diz que tem orgulho em destruir a economia do vizinho, em desmantelar o sistema político do vizinho; um país que se declara orgulhoso pelo que os vizinhos estão a sofrer. Esse país confessa que está a travar uma guerra contra a Venezuela”, sublinhou Moncada.

Para o embaixador, os Estados Unidos praticam “intimidação” em vez de diplomacia internacional.

O próprio documento confirma essa acusação, pois afirma que “a pressão diplomática restringiu os mercados para o ouro venezuelano. Destaca também que as acções norte-americanas levaram “mais de mil membros das forças armadas a reconhecer Guaidó e a desertar para a Colômbia”; e fizeram com que cerca de 25 navios petroleiros com 12 milhões de barris a bordo estejam parados ao largo da costa venezuelana por falta de compradores para o produto.

“Para eles trata-se de ‘conquistas fundamentais’”, comentou o embaixador Moncada. “Dizem que provocam problemas nas nossas forças armadas e que estão a induzir um golpe militar – que até agora não conseguiram mas continuam a trabalhar para isso”.

“Se qualquer pessoa disser coisas destas”, concluiu o embaixador, “e o confessar em tribunal, por certo irá parar à prisão”.

O documento do Departamento de Estado apresenta como conquistas dos Estados Unidos as decisões recentes da Organização dos Estados Americanos, do Grupo de Lima, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da União Europeia reconhecendo ou apoiando a administração paralela de Guaidó; e destaca a influência de Washington em cada um desses órgãos internacionais. A decisão de mencionar a União Europeia e o Grupo de Lima é particularmente digna de nota, uma vez que os Estados Unidos não são membros dessas organizações.

“Estão tão longe de quaisquer parâmetros normais de decência, moralidade, legalidade e razão que são realmente perigosos”, afirma o embaixador Moncada a propósito da administração Trump. “São uma ameaça real à paz internacional, uma ameaça real contra o meu povo”.





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