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“GAZA JÁ ESCOLHEU: CONTINUAR A RESISTIR”

Siba, assassinada pela tropa israelita. Tinha 14 meses...

2019-05-08

Haidar Eid*, Gaza; Investig’Action/O Lado Oculto

Já passámos noites em branco sob bombardeamentos israelitas – em 2006, 2008, 2012, 2014 e 2018. No sábado, 4 de Maio, o regime israelita de apartheid decidiu lançar uma nova campanha assassina de bombardeamentos contra uma das zonas mais densamente povoadas do planeta. Mais uma vez, as vítimas foram crianças e mulheres. Siba Abu Arrar, uma bebé palestiniana com 14 meses, foi morta juntamente com a tia, Falastine, que estava grávida e sucumbiu aos ferimentos pouco depois de aviões de guerra israelitas de fabrico norte-americano terem alvejado a sua casa, no bairro de Zeitun.

Na sexta-feira, como nas 57 sextas-feiras anteriores, juntei-me aos milhares de manifestantes pacíficos junto à barreira erguida no leste do campo de concentração de Gaza, onde atiradores de elite israelitas mataram quatro palestinianos e feriram mais 51, incluindo crianças. Raed Abu Teir, com 19 anos, fora ferido durante manifestações anteriores e agora foi abatido quando caminhava com a ajuda de muletas.

Fizeram-se pedidos de cessar-fogo; o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, tinha prometido lançar “ataques massivos” com o objectivo de matar o maior número possível de palestinianos alvejando zonas residenciais.

Como aconteceu em anteriores decisões de tréguas, mais uma vez Israel e os palestinianos – opressor e oprimidos – foram apresentados como “duas partes em conflito”; e a que representa uma resistência legítima aos olhos do direito internacional foi tratada de maneira semelhante à que actua como uma ocupação ilegal e brutal. O facto de Israel ter um verdadeiro exército, de ser uma potência com um desproporcionado poder de fogo e ter um estatuto de ocupante foi negligenciado, como já é habitual, o mesmo acontecendo com a diferença esmagadora entre o número de vítimas: 24 palestinianos e quatro israelitas.

Como em todos os anteriores casos de cessar-fogo negociados pelas autoridades egípcias e as Nações Unidas, este teve como objectivo manter a “estabilidade” mais duradoura possível no campo de concentração a céu aberto que é Gaza, exigindo o cancelamento de qualquer forma de resistência.

O governo israelita está impaciente por manter Gaza sob controlo antes da ocasião que os países europeus generosamente lhe ofereceram para branquear os crimes de guerra organizando o concurso da Eurovisão em Telavive, a uma hora por estrada da Faixa de Gaza.

“Não aceitamos migalhas”

Como no passado, os palestinianos deverão agora aceitar, com gratidão, um “período de calma” durante o qual as bombas israelitas não irão chover sobre as suas casas enquanto o bloqueio continua a estrangular Gaza. 

Na verdade, pede-se regularmente aos palestinianos que se comportem como “palestinianos domésticos”, capazes de agradecer aos seus donos asquenazitas brancos as migalhas que lhes deixam para poderem apenas sobreviver. 

Devem conformar-se com uma morte lenta, a morrer como seres desprezíveis, a não manifestar qualquer forma de rebelião e a aceitar a ideia de que se morrerem a resistir são eles os culpados.

Mas já chega!

Os palestinianos vão deixar de aceitar os diktats da chamada “comunidade internacional, que continua a favorecer Israel e a cobrir os seus crimes de guerra. Falar em melhorar as condições de vida sob opressão perante os enormes sacrifícios feitos pelo nosso povo é uma traição às vítimas palestinianas.

Não aceitaremos qualquer acordo de cessar-fogo que não tenha como resultado o levantamento imediato do bloqueio na Faixa de Gaza e a reabertura do ponto de passagem de Rafah – assim como de todos os outros pontos de passagem, de maneira a permitir a entrada de combustíveis, de medicamentos e de outros bens de primeira necessidade – e que não inclua mecanismos que ponham fim à ocupação israelita e ao apartheid. 

Um lento genocídio

Não permitiremos mais que Gaza seja separada da Palestina e do contexto histórico que está na origem de todos os sofrimentos do seu povo. Não se trata de “um conflito”, como os israelitas gostam de dizer, contra um grupo armado hostil.

Trata-se de uma ocupação lançada e mantida por um poder colonial que se esforça por purificar etnicamente toda uma população autóctone, de modo a consolidar e a legitimar a sua colónia. O que se passa em Gaza é um lento genocídio, não é uma “operação de segurança”.

Os bárbaros massacres cometidos pelo regime israelita de apartheid desde 2006 custaram a vida a milhares de palestinianos, na sua maioria civis, incluindo numerosas crianças. Famílias inteiras foram exterminadas à luz do dia, ao mesmo tempo que centenas de casas palestinianas foram destruídas de maneira sistemática. Médicos, enfermeiros, condutores de ambulâncias foram assassinados no exercício das suas funções, o mesmo acontecendo com jornalistas. Dezenas de milhares de pessoas ficaram inválidas para sempre devido a estas guerras impostas.

Nós, palestinianos de Gaza, já fizemos a nossa escolha. Não morreremos de morte lenta e penosa agradecendo aos nossos assassinos, flagelando-nos a nós próprios, aceitando a escravatura imposta pelo ocupante como um facto consumado.

Continuaremos a bater-nos pela nossa dignidade, por nós próprios e pelas nossas crianças. Nós, membros da sociedade civil palestiniana, afirmamos há muito que o caminho a seguir deve ser o do poder do povo – a única força capaz de combater a enorme assimetria de poderes na luta contra Israel.

E a nossa Grande Marcha do Regresso já o demonstrou. Temos conseguido derrotar os esforços pretendendo separar intencionalmente o “conflito” de Gaza das suas raízes; e temos conseguido levar a todo o mundo as nossas reivindicações. Não queremos mais um cessar-fogo de curto prazo ou uma “ligeira” melhoria das condições de vida no mercado do século. Não queremos migalhas. Queremos regressar às nossas terras, queremos os nossos direitos tal como são reconhecidos no direito internacional.

É por isso que em cada sexta-feira continuamos a apelar ao boicote, ao desinvestimento, às sanções (BDS) contra Israel e saudamos os esforços de grupos e pessoas do mundo inteiro – a verdadeira comunidade internacional – que se associam aos nossos esforços.

Apelamos agora a todos os artistas da Eurovisão que abandonem as suas participações nas mortes, nos assassínios de recém-nascidos, de mulheres grávidas, de médicos, de jornalistas e de músicos; que não cubram a destruição de casas de habitação, edifícios civis, hospitais, escolas e centros culturais.

Querem realmente divertir os soldados israelitas que abatem manifestantes desarmados? Querem realmente actuar a 60 quilómetros de Gaza, onde a família de Siba – a bebé com 14 meses de idade – não poderá jamais fazer o seu luto? Querem realmente cantar pelo apartheid em Israel?

É tempo de vós próprios, assim como o restante mundo da arte, escolherem o lado justo da História – como aconteceu há algumas décadas, na época do apartheid na África do Sul – e boicotarem Israel.

*Escritor e professor de Literatura Pós-Colonial na Universidade de Al-Aqsa, em Gaza, depois de ter ensinado em várias universidades no estrangeiro. Veterano dos direitos nacionais palestinianos e comentador político independente, autor de numerosos artigos sobre a situação na Palestina



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