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WASHINGTON SEM “ALTERNATIVA” À AGRESSÃO ARMADA NA VENEZUELA

Pompeo e Almagro: que fazer com este Guaidó?

2019-05-01

Luís O. Nunes, Caracas; com Resumen Latino Americano

Os Estados Unidos estão prontos para uma intervenção militar na Venezuela “se isso for requerido” e o Pentágono tem planos de resposta a qualquer situação que se desenvolva em território venezuelano, segundo declarações emitidas nas últimas horas pelo secretário de Estado e o secretário da Defesa. Entretanto, a Administração Federal de Aviação norte-americana, que regula a aviação civil, proibiu aviões dos Estados Unidos de voarem a menos de 26 mil pés de altura (cerca de oito quilómetros) sobre o espaço aéreo venezuelano.

A administração Trump mantém deste modo a pressão terrorista sobre a Venezuela, apesar da derrota de mais uma tentativa de golpe de Estado, esta desenvolvida na terça-feira, 30 de Abril. Que não foi, afinal, “uma tentativa de golpe de Estado”, segundo o “presidente interino” Juan Guaidó, líder civil da intentona, mas sim um pretexto para “o prenderem” – como reinterpretou posteriormente.

À luz destas declarações não é possível conhecer em profundidade as intenções do dirigente golpista quando proclamou o início da “Operação Liberdade” como a “fase decisiva” para derrubar o presidente legítimo, Nicolás Maduro.

Maduro falou no final de terça-feira à multidão que se reuniu junto ao palácio presidencial de Miraflores, em Caracas, para defender a Revolução Bolivariana e as instituições democráticas do país.

O apoio popular prosseguiu durante a grande jornada do Primeiro de Maio, com uma nova demonstração de solidariedade e incentivo às autoridades legítimas do país.

Juan Guaidó também convocou “a maior marcha de sempre” na Venezuela para o primeiro dia de Maio, voltando a integrá-la na “fase decisiva” para “acabar a usurpação”, isto é, derrubar o governo legitimamente eleito presidido por Nicolás Maduro. Não foi, afinal, “a maior manifestação de sempre”: o êxito não foi superior às mobilizações anteriores.

“Acção militar é possível”

O desfecho do golpe, com a respectiva derrota dos sublevados, apesar do declarado apoio institucional dos Estados Unidos, não demoveu a administração Trump de manter a pressão contra Caracas.

O carácter pouco organizado do levantamento, a sustentação numa série de mentiras que as autoridades legítimas desmontaram em pouco tempo e o fracasso total da suposta mobilização militar deixa muitas interrogações sobre o que se passou e poderá vir a passar-se nos próximos tempos, uma vez que Washington não hesitou em colocar a chancela oficial na acção terrorista.

O único êxito a registar pelas forças golpistas é a libertação do fascista Leopoldo López, o mais graduado dirigente do partido Voluntad Popular – igualmente fascista, mas membro da Internacional Socialista – que está condenado a 14 anos de prisão por actos terroristas que tiveram como consequência a morte de dezenas de pessoas. López foi libertado do regime de prisão domiciliária no início da intentona, juntou-se a Guaidó na zona onde se concentraram as dezenas de amotinados e refugiou-se depois na Embaixada do Chile em Caracas.

Não ficou, no entanto, por aqui. O embaixador chileno definiu López como “hóspede” – figura que não existe no contexto de asilo diplomático – e o foragido acabou por ficar alojado, com a família, na Embaixada de Espanha. O governo de Madrid tinha feito saber antes que “não apoia golpes militares”.

O sistema golpista patrocinado pelos Estados Unidos parece, assim, ter encontrado o seu líder de referência para a fase que se seguirá, uma vez que Guaidó está cada vez mais desacreditado pelos falhanços que tem somado em cadeia desde que o vice-presidente dos Estados Unidos o designou como “presidente interino” da Venezuela – em 21 de Janeiro deste ano.

Sobre Guaidó pende a tese de que “é para queimar”, apesar de os Estados Unidos terem investido longamente na sua formação terrorista; e Leopoldo López perfila-se agora como o verdadeiro homem de Washington, pelo que a intentona terá servido também para cobrir a sua fuga.

“Revolução colorida” ou intervenção militar?

Nesta fase dos acontecimentos, Guaidó parece estar a passar à história. Com ele parecem esgotar-se as hipóteses de pôr em marcha uma “revolução colorida”, para a qual foi treinado ao longo da carreira como agente de Washington, e também a de iniciar a mudança através de um golpe militar. Os sucessivos apelos da oposição fascista e de Washington à deserção dos militares têm esbarrado na lealdade às instituições democráticas da generalidade das estruturas de comando do país; por outro lado, os apelos aos levantamentos populares em todo o território, designadamente o que deveria ter-se iniciado em 6 de Abril, não conseguem mobilizar a massa crítica exigida por uma “revolução colorida”.

Juan Guaidó terminou a sua missão de terça-feira com a capacidade de manobra muito abalada, pois ficou amarrado a cinco grandes mentiras que o governo desmontou num ápice: que ele próprio tinha o controlo sobre as Forças Armadas; que a população não respondeu ao apelo do presidente para defender a Revolução concentrando-se junto ao palácio de Miraflores; que tinha o apoio da “comunidade internacional”, que não passou das declarações habituais, incluindo o presidente do Parlamento Europeu; e que, afinal, não estava em curso um golpe de Estado mas sim uma tentativa para o prenderem.

Outra das grandes mentiras do dia não partiu de Guaidó, mas sim de um dos seus tutores, designadamente o fascista John Bolton. Garantiu que Maduro estaria preparado para deixar o país quando começou a intentona, teria até “o avião pronto” mas, segundo o conselheiro de segurança de Trump, “os russos não deixaram”. Moscovo ainda se deu ao trabalho de desmentir, mas seria escusado. Como “fake news” é coisa de amadores.

O perigo da agressão militar

Perante este cenário, a hipótese de uma agressão militar com patrocínio norte-americano parece estar cada vez mais na ordem do dia, embora o secretário de Estado de Trump, Michael Pompeo, afirme que ainda prefere “uma transição pacífica”.

No entanto, “uma acção militar é possível”, acrescentou Pompeo em entrevista à Fox News na hora da derrota. E Leopoldo López, entretanto “congelado” na Embaixada de Espanha, parece ser o dirigente para depois assumir funções.

Segundo Pompeo, quanto à acção militar “se é isso que se requer, será isso que os Estados Unidos farão” – e não poderia ser mais claro. Entretanto, o secretário norte-americano da Defesa, portanto o chefe do Pentágono, Patrick Shanahan, assegurou que este departamento tem planos de contingência para todo o tipo de acontecimentos na Venezuela. Planos de índole militar, bem entendido, pois trata-se do Pentágono.

Não quer isso dizer que possa tratar-se automaticamente de uma invasão convencional, com tropas norte-americanas no terreno. O aviso à aviação civil para não voar abaixo dos oito quilómetros sobre a Venezuela torna óbvia a existência de planos para utilização da força aérea.

Por outro lado, o recurso a mercenários e a interpostos exércitos, como o da Colômbia e do Brasil, também está, obviamente, em cima da mesa. Há poucas horas foram desvendados os planos de Eric Prince, o fundador da famigerada e criminosa empresa Blackwater – aliás muito católico, membro do Opus Dei –, para recrutar cinco mil mercenários que seriam infiltrados na Venezuela, muito provavelmente a partir da Colômbia. Este episódio ajuda a explicar o misterioso número “5000” inscrito num bloco de apontamentos que o conselheiro de segurança nacional, John Bolton, deixou bem à vista de jornalistas há algumas semanas. Eric Prince parece ser a chave para decifrar esse número – que será bastante superior, em termos de mercenários pois há muito que os Estados Unidos treinam terroristas nas bases que ocupam na Colômbia.

Chamada de atenção

Planos de agressão existem, sobre isso não restam quaisquer dúvidas enquanto se agrava a febre de sanções que visa criar o máximo de sofrimento ao povo venezuelano, de modo a desmobilizá-lo.

Pôr em marcha esses projectos é que deixou de ser um processo na área do livre arbítrio porque, na realidade, os Estados Unidos já não estão sozinhos no “quintal das traseiras”.

A Rússia tem mantido um tom baixo e telegráfico perante os acontecimentos. No entanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Moscovo, Serguei Lavrov, não disse coisa pouca ao afirmar que “qualquer intervenção dos Estados Unidos contra a Venezuela é uma violação do direito internacional”.

Washington ainda não conseguiu digerir a derrota militar num país, a Síria, onde o governo legítimo pediu ajuda defensiva a Moscovo.

É neste terreno, pois, que Michael Pompeo ainda continua a preferir “a transição pacífica” – não se sabendo muito bem o que entende por isto em termos da Constituição de Venezuela; e, provavelmente, já sem Juan Guaidó.



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